Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Aeroporto de Beja só teve 29 passageiros nos primeiros três meses do ano

Ana Baião

Num destes meses, em fevereiro, o aeroporto da cidade alentejana teve apenas um passageiro. Para rentabilizar um aeroporto às moscas, e tendo em conta o congestionamento do aeroporto Humberto Delgado, estão a ser transferidos desde junho para Beja voos com destino às Canárias que deviam partir de Lisboa

Pedro Lima

Pedro Lima

Editor-adjunto

Na página onde estão os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) relativos ao número de passageiros movimentados nos aeroportos nacionais em voos comerciais, os números estão muito próximos: Lisboa registou 6 milhões nos primeiros três meses do ano; Beja, que surge logo a seguir na tabela, surge com 29 passageiros, tendo havido em fevereiro apenas um passageiro na cidade alentejana. Nesse mês Lisboa teve 1.852.938 passageiros. A comparação torna-se mais curiosa quando se percebe que no aeroporto de Lisboa há em média 40 movimentos de aviões por hora.

O Expresso pediu números mais recentes à ANA – Aeroportos de Portugal, concessionária dos aeroportos portugueses, mas não foi possível obtê-los. Os números de junho no aeroporto de Beja já contarão, no entanto, com os seis voos da operadora turística Soltour para as Canárias, com partida prevista de Lisboa e transferida depois para Beja. Aliás, a empresa manterá o aeroporto de Beja como ponto de partida para as Canárias, com mais 5 voos previstos ainda este mês, 14 em agosto, 11 em setembro e 6 em outubro, de acordo com informação disponível no seu site. Os passageiros seguem de Lisboa para Beja de autocarro, sendo a despesa suportada pela Soltour.

É uma distância de cerca de 175 km, que a nível de aeroportos representa a distância entre um aeroporto sobrelotado, com atrasos, cancelamentos e filas de vária índole e um aeroporto às moscas, considerado um “elefante branco”, que por várias vezes foi destinado a ser aproveitado mas que até agora não tem tido qualquer utilidade.

Ana Baião

Com Lisboa em ebulição, Beja volta a surgir como uma alternativa. Desta vez foi o ministro do Planeamento e das Infraestruturas, Pedro Marques, que colocou o tema em cima da mesa.

Esta quarta-feira, após a audição na comissão de Economia, Inovação e Obras Públicas, Pedro Marques anunciou a intenção de “desenvolver uma campanha junto dos operadores turísticos, que organizam viagens de ponto a ponto, integradas”, em torno do aeroporto de Beja.

As companhias aéreas nem sequer querem ouvir falar do assunto. Têm alegado que o aeroporto de Beja fica a uma distância demasiado longa e que aquela cidade alentejana não é servida por infraestruturas rodoviárias ou ferroviárias adequadas. Teriam de ser feitos grandes investimentos para que esta hipótese fosse considerada atrativa, defendem.

Verão IATA passa por Beja?

“O que o Governo articulou com a concessionária, a ANA Aeroportos, e face ao esgotamento que se verifica no aeroporto de Lisboa, faz todo o sentido que se procure promover aquela infraestrutura, nomeadamente no verão IATA (de final de março a final de outubro), quando temos mais dificuldades no aeroporto de Lisboa”, disse o ministro do Planeamento.

Assim, em vez de focar a atenção nas companhias e na “atratividade das taxas”, pretende-se oferecer a “atratividade da infraestrutura aos operadores que oferecem ofertas integradas, com um pico de procura no verão”.

“Esperamos que isso possa induzir a procura daquela infraestrutura nos próximos anos e, em particular nos próximos verões”, disse o governante, notando “não ser realista que se possa influenciar neste verão, (...) mas pode influenciar muito a organização de operações nos próximos verões”, estimou.

Sem números do eventual alívio do aeroporto Humberto Delgado face a este desvio de tráfego, o ministro assinalou que qualquer operação em Beja “é importante porque a região vê aí um sinal de esperança” e porque é um “chamariz, é um primeiro momento de algo que pode ser maior e que pode crescer no futuro”.

Agências de viagens pouco entusiasmadas

Numa primeira reação, as agências de viagens rejeitaram a hipótese. O presidente da Associação Portuguesa de Agências de Viagens e Turismo (APAVT) disse que não considera viável que os operadores de pacotes turísticos usem o aeroporto de Beja, porque afasta um dos polos de turistas mais importantes do país, a população do norte.

Citado pela Lusa, Pedro Costa Ferreira disse entender as declarações de Pedro Marques como “ uma sugestão de desenvolvimento da operação turística de 'outgoing' [saída de turistas] à partida de Beja. Evidentemente que face aos constrangimentos que existem no aeroporto de Lisboa, os operadores turísticos portugueses já consideraram todas as hipóteses e mais alguma”.

O presidente da APAVT disse ainda que “é absolutamente visível” que Beja tem, desde logo, dois problemas. “Em princípio não é uma infraestrutura mais barata para a operação turística, é mais cara, o que é naturalíssimo - a tendência nos aeroportos é a de concentração e de consolidação, exatamente porque é um negócio de margens baixas -, mas mais do que isso, é uma infraestrutura de difícil relacionamento com a procura de Portugal, com os consumidores”, explicou.

Adiantou que a principal dificuldade de Beja é a sua localização geográfica, que “afasta por completo o mercado consumidor nortenho” e este polo “é um dos mais importantes e para alguns destinos comprovadamente o mais importante” de operações turísticas portuguesas.

Também o presidente da Confederação do Turismo de Portugal (CTP), em declarações à Lusa, considerou que o eventual uso do aeroporto de Beja por operadores de pacotes turísticos, como sugeriu o Governo, para ajudar a colmatar os constrangimentos em Lisboa, é uma medida “paliativa”.

“Pode haver alternativas, mas serão sempre paliativas. Não é uma solução de maneira nenhuma que possa compensar o Portela+1 [a infraestrutura complementar do Montijo] a funcionar”, disse Francisco Calheiros.