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€134 milhões para ganhar 22 minutos

Autarcas e utentes do IP3 só acreditam nas obras quando as virem. Estão fartos de promessas

Rui Duarte Silva

É a maior obra de António Costa. Transformar o IP3 numa autoestrada, mas sem portagens

Viajar no Itinerário Principal 3 (IP3) implica doses elevadas de paciência e uma enorme capacidade para aceitar o imprevisto. Se a viagem for feita de manhã pode chegar a demorar hora e meia, o mesmo tempo, ou um pouco mais, ao final da tarde.

Ao longo do dia percorrer os 77 quilómetros que separam Viseu de Coimbra requer uma hora, tempo que o maior investimento público dos últimos anos se propõe diminuir. Serão menos 22 minutos, ganhos com um orçamento de €134 milhões, a maior obra do Governo de António Costa e investimento como há muito os distritos de Viseu e Coimbra não conhecem.

Mas este é também o quarto anúncio de obras, de outros tantos governos, para uma estrada que já matou 190 pessoas. E isso justifica o ceticismo de quem prefere “esperar para ver”.

O enólogo Carlos Lucas conhece bem as agruras do IP3. “Tem sido difícil convencer os clientes a visitarem a Adega do Ribeiro Santo, em Carregal do Sal. O IP3 tem sido um enorme travão na conquista de mais clientes”, diz o produtor de vinhos que vende mais de €3 milhões e que aplaude o investimento, mas, “cauteloso”, diz que o melhor é mesmo “esperar para ver”.

O travão é a enorme sinistralidade de uma estrada que em 20 anos matou 190 pessoas, revelam as estatísticas oficiais. Só no concelho de Penacova a Associação de Utentes e Sobreviventes conta, até 2017, 1825 acidentes, 1836 feridos e 123 mortos.

A 190ª vítima do IP3 ocorreu no concelho de Tondela, a 18 de dezembro último. Toda a estrada tem sido palco de acidentes. O medo é real e as obras anunciadas deixam dúvidas e incertezas. E conversas. “Andam nisto há oito anos, o que gastaram em anúncios já tinham duplicado esta zona, que isto é acidentes todos os dias”, lembra António Lopes, camionista de Mangualde.

“Esta zona” é o pedaço de estrada que liga Travanca a Paredes, numa das pontes da barragem e onde os camionistas fazem as refeições. É este o primeiro troço a entrar em obra, entre Penacova e a Lagoa Azul, a zona mais crítica do IP3, com cinco pontos negros.

A transformação daquela rodovia, estruturante para a zona centro, em autoestrada abrange 85% do traçado, mas “não dispõe de cronograma”, lamenta o autarca de Viseu. Almeida Henriques lembra que os €134 milhões de investimento, “o maior que a região recebeu nos últimos anos, incluem intervenções que estavam previstas como a estabilização dos taludes e obras na Livraria do Mondego”. Henriques “acredita que a obra se faça e que fique concluída em 2024, com dois anos de derrapagem do prazo devido à complexidade dos trabalhos”.

Obra sem calendário levanta dúvidas

Esse foi também o reparo do PSD que lamentou que “uma obra tão importante para a região” fosse “apresentada sem um cronograma que comprometa o Governo na sua execução”. A intervenção anunciada, retoma o PSD, “não passa, de uma manutenção corrente urgente que já estava planeada por questões de segurança”. Incertezas que não ensombram o socialista João Azevedo, autarca de Mangualde e presidente do Conselho Regional do Centro: “É uma mais-valia receber esta adjudicação. É uma obra que vem beneficiar empresas e populações que há muito a reclamavam.”

Fora de obra ficam o IC12, que permitia economizar 40 quilómetros na ligação à A25, e o acesso à A13, permitindo prosseguir para o sul do país. O ministro das Infraestruturas assegura que “obras no IC12 ou ligações com a A13 podem vir a ser feitas, mas nenhuma delas faria sentido sem esta requalificação”.

As obras começam em 2019 e deixarão uma estrada inteligente, com tecnologia 5G para que veículos e asfalto comuniquem entre si, com alertas de acidentes e avisos para problemas de circulação.

Se houver estrada — e nos últimos oito anos todos os governos prometeram a obra que foi inscrita em seis Orçamentos do Estado — a viagem que separa duas das principais cidades da região centro demorará menos 22 minutos, um terço do tempo atual.

Isenção de portagens já está a gerar polémica

O que agrada aos produtores de fruta do Douro Sul, onde se colhe metade da produção de maçã do país, e que diariamente colocam duas dezenas de camiões no IP3. “Todos dizem que o investimento em rodovia não é necessário, mas esta ligação é fundamental para desencravar o norte do distrito de Viseu”, afirma José Eduardo, autarca de Moimenta da Beira. A região acredita que “será desta, mas o melhor é esperar para ver”, reforça o presidente da Câmara de Viseu.

O primeiro-ministro garantiu que na possibilidade de, no futuro, o IP3 ser transformado numa autoestrada, como aconteceu no IP5, não haverá portagens. O que trouxe outro problema. A Plataforma pela Reposição das Scut na A23 e A25 reivindica igual tratamento do Governo e reclama o fim da cobrança de portagens nas autoestradas das Beiras.