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Estado vende até €500 milhões em dívida pública para particulares. Vale a pena investir?

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Simulações mostram que os novos títulos de dívida pública que começam a ser comercializados esta quinta-feira são mais atrativos para o Estado do que para os investidores. E atenção a esta barreira psicológica: 5 mil euros

Começa esta quarta-feira a subscrição das OTRV Julho 2025, mas mas os especialistas consideram que as condições oferecidas pelo Estado aos investidores são pouco atrativas, só compensam para valores elevados e que há alternativas mais vantajosas na classe dos produtos sem risco.

Numa altura em que as taxas Euribor estão em terreno negativo e os depósitos bancários pagam juros quase nulos, o início da oferta pública de subscrição de uma emissão de Obrigações do Tesouro de Rendimento Variável (OTRV) pode aparecer como uma oportunidade para muitos investidores de perfil conservador. Mas, atenção, alertam os especialistas. As condições que o Estado está a oferecer aos aforradores são pouco atrativas.

Em causa estão as OTRV Julho 2025, cuja oferta pública de subscrição começa amanhã, quarta-feira, e se prolonga até 17 de julho. Com uma taxa de juro variável equivalente à Euribor a seis meses mais um prémio de 1% (com uma taxa de juro mínima de 1%, ou seja, não são aplicados os valores negativos da Euribor) e garantia de reembolso de capital em julho de 2025 (maturidade de sete anos), o Estado é bem menos generoso nas condições oferecidas face a anteriores emissões de OTRV.


Várias simulações, para aplicações até 10 mil euros

A baixa taxa oferecida significa que a rentabilidade deste produto, considerando as comissões a pagar aos bancos, só compensará para montantes de investimento relativamente elevados. O Expresso fez várias simulações para aplicações de mil a 10 mil euros, com os preçários de quatro bancos: CGD, BCP, BPI e Novo Banco.

Primeira conclusão: para quem está a pensar investir nas OTRV Julho 2025 e ainda não tem quaisquer outros investimentos financeiros, aderir a estas obrigações só compensa para subscrições a partir de 5 mil euros. Investir um montante inferior significa que os juros líquidos ficarão abaixo do montante de comissões a pagar ao banco (pela subscrição, pela guarda dos títulos, pelo pagamento de juros e pelo reembolso).

Ora, de acordo com as simulações feitas pelo Expresso, entre os quatro bancos analisados o BCP tem as condições mais favoráveis, sobretudo porque a comissão de guarda de títulos (5 euros por trimestre, mais IVA) é mais baixa. O investidor obtém ganhos com as OTRV em aplicações a partir de 5 mil euros. Numa subscrição de 10 mil euros através do BCP o rendimento líquido anual rondará os 36 euros.

No BPI, onde a comissão trimestral é de 7,5 euros, o investidor só tem um rendimento positivo para subscrições a partir de 7 mil euros. E numa subscrição de 10 mil euros levará para casa cerca de 24 euros. Na CGD o investimento só gera rendimento em investimentos a partir de 8 mil euros. No banco estatal uma subscrição de 10 mil euros em OTRV renderá em termos líquidos cerca de 15 euros por ano. No Novo Banco só subscrições a partir de 9 mil euros é que geram rendimentos após descontar as comissões. E uma subscrição de 10 mil euros dará ao investidor cerca de 12 euros líquidos por ano.

Taxa de juro baixa e o prazo alarga

“Claramente comparam de forma muito negativa”, alerta João Lampreia, analista do Banco BIG. E lembra que há apenas dois anos o Estado oferecia uma taxa equivalente à Euribor a seis meses mais um prémio de 2,2%. Isto numa emissão a cinco anos. Filipe Garcia, economista da Informação de Mercados Financeiros (IMF), aponta no mesmo sentido: “As condições são piores do que nas anteriores emissões. A taxa de juro baixa e o prazo alarga”.

Como resultado, “é mais interessante para o Estado – que diminui os custos de financiamento numa altura em que já estão a subir – do que para os investidores”, considera João Lampreia. E alerta mesmo que para os investidores “não é interessante”.

É certo que os aforradores com um perfil conservador, que procuram produtos sem risco, não encontram alternativas nos depósitos bancários, que estão a pagar juros quase nulos. É por isso que “estes produtos têm sido bem recebidos pelo mercado”, lembra Filipe Garcia, considerando que o IGCP paga agora uma taxa de juro mais baixa “aproveitando os depósitos bancários estarem em máximos históricos, sendo uma parte deles à ordem dado os depósitos a prazo serem pouco compensadores”.


Outras opções

Contudo, os investidores têm outras opções, apontam os especialistas. E destacam os Certificados do Tesouro Poupança Crescimento. Um produto em que a aplicação também é a sete anos e em que “a taxa de juro pode potencialmente ser mais alta”, frisa Filipe Garcia. Estes certificados pagam taxas crescentes: 0,75% nos dois primeiros anos, chegando aos 2,25% no último. “A taxa média é de 1,38% a que se soma um prémio, que pode chegar a um máximo de 1,2%, associado ao crescimento da economia portuguesa. Ou seja, a taxa de juro global pode chegar aos 2,58%”, frisa João Lampreia.

Comparando com a OTRV Julho 2025, a Euribor a seis meses “tem de chegar aos 1,6%, ou seja, subir dois pontos percentuais face ao patamar negativo em que se encontra, para ser compensador como alternativa” aos certificados, aponta João Lampreia. “É possível que isso aconteça, mas pode demorar quatro ou cinco anos”, alerta. Por isso, recomenda os certificados como mais atrativos do que esta emissão de OTRV.

Filipe Garcia junta outra vantagem dos certificados do Tesouro: não têm encargos associados. Já nas OTRV, como são domiciliadas na carteira de títulos do aforrador, os bancos cobram comissão de subscrição, comissão de custódia e, eventualmente, até comissão de processamento do pagamento do cupão (ou seja, dos juros a cada semestre). Tudo depende do preçário praticado pelo banco de cada investidor.

O resultado é claro: “Nos montantes mais baixos, menos defendidos de comissões fixas, é mais provável que investir em certificados do Tesouro seja mais vantajoso do que em OTRV”, frisa Filipe Garcia.

A escolha dos especialistas

Filipe Silva, diretor de Gestão de Ativos do Banco Carregosa, aponta outro fator. Nas emissões anteriores de OTRV, a taxa de juro tinha implícito um prémio em relação ao que o mercado estava a pagar para a dívida portuguesa. Como resultado, o preço dos títulos “subia no mercado secundário, facilitando a venda no mercado secundário acima do valor nominal”. Agora, isso não acontece. “Esta emissão paga em linha com o que o mercado está a pagar. Praticamente não há prémio”, alerta este especialista. Por isso, “não é óbvio que o preço no mercado secundário suba acima do valor nominal”. Caso esteja abaixo, quem quiser vender antes de 2025 acaba por perder capital, já que este só é garantido na maturidade. Já os certificados do Tesouro têm o inconveniente de o dinheiro aplicado ficar obrigatoriamente preso durante um ano. Mas, a partir daí podem ser sempre resgatados ao valor nominal.

Feitas as contas, a escolha dos especialistas recai sobre os Certificados do Tesouro Poupança Crescimento em detrimento das OTRV Julho 2025.

Perguntas e Respostas: como investir

O que são as “OTRV Julho 2025”?
São obrigações do Tesouro de Rendimento Variável com maturidade em julho de 2025. Ou seja, são valores mobiliários emitidos pelo Estado português, através da Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP), com maturidade de sete anos e capital garantido na maturidade. Através desta emissão, o Estado pretende angariar um valor nominal global inicial de até 500 milhões de euros.

Quem pode investir?
Qualquer pessoa. As OTRV serão colocadas através de uma oferta pública de subscrição dirigida ao público em geral.

Como podem os investidores subscrever as OTRV?
Através de um intermediário financeiro, como um banco, durante o período de subscrição, que decorre entre 4 de julho e 17 de julho.

Qual o juro pago a quem subscrever “OTRV Julho 2025”?
O pagamento de juros será semestral (em 23 de janeiro e 23 de julho) de cada ano e calculados a uma taxa de juro variável correspondente à Euribor a seis meses acrescida de um prémio de 1%. É garantida uma taxa de juro mínima de 1%, o que significa que não serão aplicados valores negativos da Euribor a seis meses no cálculos dos juros pagos aos investidores.

Qual o montante mínimo e máximo de subscrição?
O mínimo são mil euros (correspondente a uma OTRV) e o máximo um milhão de euros (correspondente a mil OTRV), devendo as ordens de subscrição ser transmitidas em múltiplos de mil euros. Se a procura ultrapassar a oferta haverá lugar a rateio.

As OTRV podem ser transacionadas após a emissão?
Em princípio, sim. O IGCP já solicitou a admissão das OTRV ao mercado regulamentado EUronext Lisbon, e poderão ser transacionadas neste mercado se a admissão for aprovada. Foi o que aconteceu em anteriores emissões. Contudo, a negociação das OTRV antes da sua data de reembolso, isto é, antes da maturidade em 2025, fica sujeita às condições de mercado prevalecentes na altura, nomeadamente em termos de liquidez e preço. Isto significa que nessa negociação o capital investido não está garantido.