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Transformação digital é chave para o sucesso

Carlos Barros, diretor-geral da Fujitsu Portugal, abriu a conferênciaque juntou centenas de empresários e gestores no Centro de Congressosde Lisboa para debater a cocriação digital

Ana Brigida

Futuro: A tecnologia é hoje uma utilitie. A verdadeira mudança acontece quando a sua utilização tem impacto na política, na economia ou na forma como lidamos uns com os outros

Fátima Ferrão

Há 500 anos, D. Manuel I criava o serviço de entregas postais. Uma inovação na época que daria origem aos CTT. “O nosso processo de transformação começou, por isso, há cinco séculos”, diz, em jeito de brincadeira, João Manuel Melo, responsável pela Gestão da Inovação dos CTT. E acrescenta: “Desde então nunca mais deixámos de mudar o modelo de negócio.” João Manuel Melo falava durante o debate “Cocriação e Disrupção Digital”, promovido pelo Expresso durante a conferência Fujitsu World Tour, que teve lugar na última quinta- -feira, em Lisboa. O gestor brincava com a já longa história da empresa que representa para ilustrar uma ideia muito mais atual. “Desde o advento da internet que, mais do que uma revolução tecnológica, vivemos uma revolução civilizacional”.

Cocriação: o que é isso?
Hoje, o grande desafio para as empresas é deixar de pensar na tecnologia e dedicar atenção ao negócio. Depois de décadas em que a prioridade era dispor da tecnologia mais inovadora e fora da caixa, os gestores chegam à conclusão que já não é isso que torna as suas organizações mais bem-sucedidas. “A verdadeira transformação digital é dedicarmo-nos à aplicação da tecnologia e garantir que esta tem impacto na sociedade, na política ou na economia”, acredita Bruno Horta Soares, consultor da IDC Portugal.

Ao longo de um dia repleto de apresentações, debates e demonstrações de tecnologia, com o digital no centro das atenções, multiplicaram-se os conceitos que procuram traduzir os desafios que se colocam às organizações. Transformação e disrupção são mudanças imperativas para quem quer manter os negócios competitivos. Mas, a par destes termos, há outro que se repete: a cocriação digital. Dito de uma forma mais simples, o desenvolvimento de produtos e/ou serviços através da conjugação de diferentes áreas para acelerar a transformação digital das empresas. Ou seja, uma forma eficaz de responder às exigências da transformação digital.

Este tema está na agenda de grande parte das empresas nacionais e internacionais. Segundo Paul Patterson, vice-presidente sénior, chefe de vendas e responsável regional da Fujitsu EMEA, 90% das organizações a nível mundial têm uma estratégia digital definida, citando um estudo da marca a nível global. Não faltam exemplos bem-sucedidos de transformação digital, desenvolvida em parcerias muitas vezes quase improváveis mas que se complementam em valências, permitindo retirar melhor partido de uma relação de proximidade. Mais do que contratar um consultor, cria-se uma parceria estreita, com objetivos e metas comuns, que beneficiam todas as partes envolvidas. “A transformação digital é muito estimulante e nunca acaba”, acredita João Manuel Melo. No entanto, complementa Tito Carlos Vieira, diretor-geral do Centro de Gestão da Rede Informática do Governo, “sozinhos dificilmente conseguimos criar valor”. Os dois responsáveis participavam no debate moderado por Ricardo Costa, diretor de Informação da SIC, onde estiveram também presentes Sebastião Lancastre, CEO da EasyPay, Margarida Segard, diretora-adjunta do ISQ, e Alexandre Nilo Fonseca, presidente da ACEPI.

Desafiados a partilhar as suas experiências de transformação digital, os participantes são unânimes em que este é um ponto sem o qual as empresas perderão em competitividade e eficiência. Do lado do Estado, Tito Carlos Vieira, que representa a instituição que trata de tudo o que está relacionado com as tecnologias da informação no sector público, não tem dúvidas de que a mudança é obrigatória e urgente. “Já temos muitos exemplos de cocriação no Estado”, revela. “Trabalhamos em conjunto com várias entidades e tentamos articular projetos entre vários parceiros”, acrescenta. Alexandre Nilo Fonseca elogia também o trabalho que tem sido feito pelos governos. “O Simplex é um excelente exemplo do que está a ser feito pelo Estado, que tem, aliás, alguns dos mais avançados serviços digitais da Europa.” Ainda assim é preciso não esquecer que temos uma sociedade a duas ou três velocidades. “Apesar de cerca de 30% da população nacional fazer tudo online, há ainda um quarto da população que não tem acesso nem conhecimento destes meios.” Este cenário exige que se multipliquem ações como o projeto MUDA — desenvolvido em modelo de cocriação — com vista a educar e a incluir as franjas da população que ainda não estão preparadas para esta nova realidade.

Já no sector privado, a trabalhar com áreas mais tradicionais, o Instituto de Soldadura e Qualidade (ISQ) aposta há muito na inovação e na modernização da indústria. “Acompanhamos a evolução e as tendências e temos, desde 2010, a transformação digital na nossa agenda”, revela Margarida Segard. A instituição atua em áreas tão dinâmicas como a aeronáutica ou a indústria espacial, que apresenta casos tão bem-sucedidos como outros sectores. “O grande problema são os processos e não a tecnologia”, acredita a responsável do ISQ. “É preciso formar e requalificar para que a mudança tenha sucesso.”

Novos players digitais
Com o online a crescer, a relação entre as empresas e os seus clientes mudou radicalmente. Esta alteração de paradigma obrigou muitas organizações a acelerar a sua transformação digital e a migrar os negócios mais tradicionais para plataformas digitais, criando novos canais de venda de produtos e serviços. “O comportamento de compra mudou completamente”, diz Pedro Devesa, diretor do negócio digital da Worten Ibéria, durante o debate “Novos Players num Palco Digital”, moderado por Bernardo Ferrão, subdiretor de Informação da SIC. Hoje, acrescenta, “o consumidor escolhe online para comprar no mesmo suporte, tal como o faz para depois se dirigir à loja física”.

Mais tradicional, o negócio dos seguros está a passar pelo mesmo tipo de transformação. Ângelo Guerra Vilela, diretor para a área digital do Grupo Ageas, confirma a estratégia, salientando, contudo, que considera esta mudança uma oportunidade e não uma ameaça. “O mesmo acontece na cocriação digital, que vemos como uma jornada e não como um processo com princípio, meio e fim.” À mesma mesa estiveram ainda Hugo Macedo, vice-presidente de Marketing da Unbabel, Carla Pereira, diretora de Marketing e Comunicação da Chronopost, e Pedro Rocha Vieira, CEO da Beta-i.

Citações

"Há muitos exemplos de cocriação no Estado, e os desafios são imensos. Trabalhamos em articulação com vários parceiros, de diferentes áreas, para conseguirmos o financiamento necessário, porque se dependermos unicamente do Orçamento do Estado não progredimos"
Tito Carlos Vieira
Diretor-geral do Centro de Gestão da Rede Informática

"O nosso processo de transformação começou há 500 anos, aquando da criação do serviço de entregas postais pela mão de D. Manuel I. Desde então procurámos inovar sempre no modelo de negócios. A próxima será a transformação quântica"
João Manuel Melo
Chefe de Gestão da Inovação dos CTT

"Portugal tem muito boas autoestradas digitais e também alguns dos melhores e mais avançados serviços digitais do Estado. A exigência e expectativa dos clientes é hoje muito elevada" Alexandre Nilo Fonseca
Presidente da ACEPI

"A primeira grande lição da transformação digital é ouvir e não ter medo de mudar e de reagir às necessidades dos clientes"
Sebastião Lancastre
CEO da EasyPay

"Há uma democratização na utilização da cloud. Se antes havia dúvidas sobre a segurança da informação, isso hoje já não acontece, mesmo com os utilizadores particulares"
Carlos Barros
Diretor-geral da Fujitsu Portugal

"O digital ‘real’ não é fácil de conseguir. O valor da informação vem dos dados. A cocriação é o melhor caminho para o crescimento"
Paul Patterson
Vice-presidente sénior, chefe de vendas e responsável regional da Fujitsu EMEA

CP no comboio da inovação

Smartphone permite fiscalizar os passageiros e fazer vendas a bordo com maior eficiência, abrindo portas a novas aplicações

Garantir que todos os passageiros a bordo dos comboios da CP viajam de forma legal é cada vez mais simples e eficaz. A tarefa, que antes obrigava a uma grande ginástica mental e a uma elevada capacidade de memorização, faz-se agora através de um equipamento muito semelhante a um smartphone.

Esta aparentemente simples transformação digital valeu à empresa que gere os Comboios de Portugal um dos Innovation Awards, atribuídos esta semana pela Fujitsu durante a conferência que juntou largas centenas de empresários em Lisboa.

A empresa que gere e operacionaliza os comboios em Portugal tinha um problema de dispersão de equipamentos. “Eram três tipos de PDA [Personal Digital Assistants] diferentes, com funcionalidades distintas e fraca usabilidade”, explica Joaquim Sousa Marques, diretor de Sistemas e Tecnologias da Informação da CP. A juntar a isto, acrescenta o responsável, os equipamentos operavam em sistema proprietário e já não dispunham de peças para atualização.

Agora, a nova solução desenvolvida assenta num smartphone Android e num Terminal de Pagamento Automático (TPA) standard, para o qual a aplicação já existente foi alvo de uma transformação tecnológica e processual, aumentando a sua ergonomia e eficiência de operação.

Esta solução torna possível a leitura de todos os tipos de cartões existentes, permite a utilização de novas aplicações, possibilita o pagamento eletrónico com cartões bancários e garante uma maior eficiência do processo de venda e da jornada de trabalho. “O equipamento é mais barato, tem mais funcionalidades, maior usabilidade e eficiência no processo de venda, além de uma mais elevada produtividade do operador”, reforça Joaquim Sousa Marques.

Outro resultado importante deste projeto é, como refere o responsável pela área das Tecnologias da Informação da CP, “a desmaterialização da informação essencial ao trabalho dos operadores”. No palco, para receber o Innovation Award, esteve Carlos Gomes Nogueira, presidente da CP, que reforçou que a empresa que dirige está empenhada na transformação digital. “É um projeto relevante, que nos obriga a fazer sempre mais e melhor.”

EDP sempre em direto

Operações de manutenção otimizadas, com acesso em tempo real às ferramentas necessárias, garantem maior eficiência

Depois de ter sido distinguida em 2017 por um projeto de apoio ao utilizador, a EDP volta este ano a ganhar reconhecimento por mais uma solução desenvolvida em cocriação digital. O projeto “Head-Mounted Display”, criado para a EDP Produção, permitiu testar ferramentas em tempo real, conseguindo que vários utilizadores em diferentes geografias possam visualizar a mesma informação.

Patrícia Rebelo, diretora de eficiência da EDP, garante que é uma vantagem aderir ao processo de cocriação digital. Com esta metodologia, diz a responsável da elétrica nacional, “as coisas funcionam melhor, porque, uma vez que não conseguimos ter acesso a toda a tecnologia, é muito útil termos um parceiro que nos permite experimentar o que é novo. É uma mais-valia para ambos, visto que o parceiro também testa em tempo real a sua tecnologia”, reforça.

Iniciado há cerca de um ano, e com a tecnologia implementada desde novembro do ano passado, este projeto contribuiu para a transformação do negócio, ao permitir uma maior eficiência e otimização das operações e ao garantir o acesso em tempo real aos ativos e à informação de suporte, independentemente da localização geográfica do operador. “O balanço é muito positivo”, diz Patrícia Rebelo. “Fizemos um piloto em duas centrais térmicas, o que serviu para este ano alargarmos a outras centrais”, acrescenta.

No entanto, para a responsável da EDP, o grande desafio deste e de outros projetos de transformação digital é a mudança na forma de trabalhar. “Não basta implementar a nova tecnologia. Se não mudar a minha maneira de trabalhar, não consigo retirar o máximo partido da transformação.”

Recorde-se que o projeto que valeu à elétrica o Innovation Award em cocriação digital em 2017 assentava na uniformização do apoio ao cliente, através da integração de quatro prestadores de serviço de helpdesk para um único Service Desk da Fujitsu. Garantindo sempre a continuidade de operações e de processos de melhoria e qualidade baseados em metodologias Lean, a partilha de conhecimento, tecnologias e processos entre as duas companhias possibilitou uma mais elevada capacidade de First Time Fix, com o suporte em diversos idiomas falados de forma nativa para as 14 geografias onde a EDP opera.

Textos originalmente publicados no Expresso de 30 de junho de 2018