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Inovar e crescer começa na atitude

O diretor de comunicação do Santander, João Paulo Velez, e o administrador do banco, Pedro Castro Almeida (ao meio na foto grande), acompanharam a secretária de Estado Adjunta da Modernização Administrativa, Graça Fonseca, ao espaço Conversas Soltas, na sede da instituição bancária

NUNO FOX

Conferências: Antes de se pensar no que se vai gastar e onde se vai buscar o dinheiro, é preciso fazer mudanças culturais

Ana Baptista

Ana Baptista

Jornalista

O tema da inovação não é novo. Há já muitos anos que se fala na necessidade e até na urgência de as empresas inovarem e se adaptarem à digitalização, porque, se não o fizerem, vão desaparecer ou ser ultrapassadas pelos concorrentes, o que depois vai levar a uma espiral de perdas — de receitas e de empregos —, com consequências para a economia e para a sociedade. Mas então porque é que se continua a falar de inovação em Portugal? Porque ainda é preciso.

Portugal está cheio de bons exemplos de inovação nas empresas privadas (e até no Estado, com o Simplex) e é já bastante reconhecido lá fora. Veja-se o caso das energias renováveis e da Web Summit. Mas inovar não é uma medida que se toma uma só vez, é um processo contínuo e cíclico, tendo em conta a rapidez das novas tecnologias e da transformação digital da sociedade. E Portugal ainda tem um longo caminho a percorrer. Pelo menos na opinião dos oradores da quarta conferência Empresas Mais Fortes, organizada pelo Expresso e pelo Banco Santander e que tinha como tema “Financiar o Crescimento e a Inovação”.

“Neste país, a produtividade não cresce muito há 20 anos, nem antes nem depois da crise. Podem voltar a criar-se empregos perdidos, mas não há crescimento sustentável, e é por isso que a inovação tem um papel fundamental, se se quiser alterar este paradigma. Se a produtividade tem crescido pouco, é porque não temos sido capazes de inovar”, disse o diretor tups. Aliás, comenta, “esta geração de startups é um bom exemplo para as empresas mais tradicionais” aprenderem a lidar com a nova realidade económica e digital.

Contudo, Pedro Rocha Vieira diz que, “apesar de haver ainda uma cultura a mudar”, o quadro não é assim tão negro. “Já se nota nas grandes empresas as decisões a serem tomadas mais depressa e uma maior preocupação nos pagamentos.” O Estado como exemplo Se há matéria que tem sido transversal a todos os governos das várias cores é a modernização dos processos administrativos do Estado, neste caso através do programa Simplex. Só em 2016 foram tomadas 255 medidas, em 2017 mais 172, e para este ano estão previstas mais 175, revelou a secretária de Estado Adjunta da Modernização Administrativa, Graça Fonseca. da Nova School of Business, Daniel Traça, um dos oradores do encontro. Contudo, para este responsável, o problema não é de falta de vontade de crescer e de ser internacional e muito menos de falta de talento nas empresas e nas faculdades. E também não é de falta de dinheiro. “Os desafios são de cultura organizacional. Hoje, a grande necessidade da inovação é ter a capacidade de gerir no meio da instabilidade.”

Na prática, o que ainda está a faltar a muitas empresas portuguesas é mudar de atitude. “Portugal está no bom caminho e estamos a ser reconhecidos lá fora, o que é bom para atrair investimento, mas o passo antes do investimento é a atitude. As empresas têm de perder o medo de arriscar e o medo de colocar o dinheiro fora das áreas tradicionais. Se petrificarmos e estivermos sempre com medo de investir, daqui a dois anos já não estamos cá”, comentou a diretora-geral da Cisco, Sofia Tenreiro, também presente no encontro.

Ou seja, antes de se pensar no dinheiro que se vai gastar e no que é preciso investir em novas tecnologias ou em novos recursos humanos, “é preciso fazer uma transformação cultural” nas empresas, comenta Isabel Guerreiro, da direção de Coordenação de Gestão e Estratégia Multicanal do Santander. Nesse sentido, conta, o banco tem-se preocupado em ter para as empresas “uma oferta não financeira, com programas de formação e cursos online”.

Mas o investimento também é essencial, e para o CEO da Beta-i, Pedro Rocha Vieira, as empresas têm de saber que há mais meios de financiamento além da banca. “Ainda há pouca tradição de recorrer ao capital de risco”, disse, alertando que tem sido precisamente esta uma das principais formas de financiamento de muitas das startups. Aliás, comenta, “esta geração de startups é um bom exemplo para as empresas mais tradicionais” aprenderem a lidar com a nova realidade económica e digital. Contudo, Pedro Rocha Vieira diz que, “apesar de haver ainda uma cultura a mudar”, o quadro não é assim tão negro. “Já se nota nas grandes empresas as decisões a serem tomadas mais depressa e uma maior preocupação nos pagamentos.”

O Estado como exemplo
Medidas que nos permitem fazer o IRS de forma automática, ter assinaturas e faturas digitais e, em breve, deixar mesmo de ter faturas em papel. Este último é, aliás, um dos processos em que Graça Fonseca está a trabalhar neste momento e que espera ver em vigor a partir de 2019. Mas, para esta dirigente, o principal objetivo e aquele em que todos estão mais empenhados é o de fazer com que o cidadão apenas tenha de fornecer os seus dados uma única vez, e depois eles poderem ser usados transversalmente em todos os processos administrativos do Estado.

Mas Graça Fonseca destaca que muitas destas medidas têm por detrás alterações legislativas e que, por isso, levam o seu tempo. E assinala ainda que algumas dessas legislações “vêm por imposição europeia”, ou seja, podem tornar o processo ainda mais moroso.

Empresas mais Fortes

Captar e formar talento

A quinta conferência de “Empresas Mais Fortes”, projeto do Expresso e do Banco Santander — que olha para os desafios que esperam as PME portuguesas —, realiza-se em setembro. Captar e formar talento é o grande tema do debate, que demonstrará que a aposta nas duas vertentes referidas é determinante para o êxito das empresas

Trabalhar no mercado global

Em outubro acontece a sexta e última conferência do projeto que juntou o Expresso e o Banco Santander ao longo deste ano. O ciclo de debates termina com o tema “Trabalhar num Mercado Global”. A retoma mundial está a levar as empresas portuguesas para outras geografias. Superar os desafios dos novos mercados é absolutamente essencial para o sucesso das PME, que estão a internacionalizar-se para crescer. Assista aos debates através do Facebook Live do Expresso e participe enviando-nos as suas perguntas

O estado do Simplex

150
mil é o número de aderentes ao mecanismo móvel digital que foi implementado em 2017 e que faz parte do Simplex do Governo, ou seja, o programa que tem como objetivo simplificar os processos da Administração Pública

5
milhões era o número de erros encontrados todos os anos na declaração mensal que tem de ser entregue à Segurança Social e que deixaram de existir desde que esse documento passou a ser digital e a estar pré-preenchido

490
mil são as horas já poupadas pelos trabalhadores dos serviços públicos com a introdução de medidas de simplificação e com a digitalização de processos. Este impacto diz respeito a apenas 13 das medidas tomadas no Simplex, pelo que poderão ser mais as horas poupadas

O debate, moderado por João Vieira Pereira,juntou Sofia Tenreiro, Daniel Traça, Isabel Guerreiro e Pedro Rocha Vieira. Antes, Graça Fonseca fizera um ponto da situação do programa Simplex e do impacto dessas medidas na vida das empresas e das pessoas. O encontro contou ainda com uma apresentação de Daniel Traça

O debate, moderado por João Vieira Pereira,juntou Sofia Tenreiro, Daniel Traça, Isabel Guerreiro e Pedro Rocha Vieira. Antes, Graça Fonseca fizera um ponto da situação do programa Simplex e do impacto dessas medidas na vida das empresas e das pessoas. O encontro contou ainda com uma apresentação de Daniel Traça

NUNO FOX

Como as empresas podem inovar para crescer?

ISABEL GUERREIRO
Direção de Coordenação de Gestão e Estratégia Multicanal do Santander

“Creio que as empresas portuguesas são inovadoras, e a crise que vivemos em 2011 e 2012 tornou bem patente a forma como as empresas tiveram capacidade de se adaptar. Elas foram capazes de se reinventar, passaram a exportar, e os resultados estão à vista. Portugal está na moda, com mais empresas de referência, e é cada vez mais um hub apetecível para a tecnologia digital. As barreiras e as fronteiras são cada vez menores, e Portugal é um país cada vez mais atrativo para essas pessoas móveis. O Santander tem procurado adaptar-se e inovar nos processos e na cultura, mas é difícil, porque isso implica investimento cujos resultados no curto prazo não são imediatos e é preciso encontrar um equilíbrio entre o dia a dia e essa necessidade de inovar. Mas é um caminho que estamos a percorrer, e temos uma parceria com a Universidade Nova para explorar novas formas de trabalhar.”

PEDRO ROCHA VIEIRA
CEO da Beta-i

“Para haver inovação tem de haver muito investimento em pessoas, em produto ou em mercados e um crescimento acelerado, e há empresas que não conseguem chegar lá. Ter uma estratégia bem definida é essencial, porque quando se trata de arranjar financiamento é preciso ter muito claro para o que ele é e quais são os objetivos que existem. E isso é válido para startups, pequenas e médias empresas ou grandes empresas. Mas é preciso adaptar os diferentes tipos de financiamento às diferentes fases da empresa. Por exemplo, uma startup é uma empresa que tem uma tecnologia e que está a fazer algo de crescimento rápido, mas por isso mesmo tem muito risco, e portanto a probabilidade de morrer é muito maior, e os bancos não são os investidores normais nessa fase. Têm de ser os capitais de risco, que são investidores que estão habituados a lidar com isso. Em paralelo, há fundos comunitários ou bolsas, mas eles são competitivos. Financiamento da banca só é possível quando se começa a crescer e quando existem receitas.”

SOFIA TENREIRO
Diretora-geral da Cisco

“Inovação e crescimento não existem um sem o outro. Precisamos de inovação para conseguir crescer e de inovar para depois continuar a crescer, mas é preciso perceber que podemos inovar sem financiamento. Inovação começa na cultura, na atitude e no aproveitamento do talento que existe dentro das empresas. Hoje já temos exemplos muito inovadores, mas temos ainda muitas empresas agarradas ao passado. A Cisco tem ajudado as empresas nesta inovação, colocando à disposição delas tecnologia de ponta para que possam ser mais ágeis e autónomas. Mas o financiamento também tem de se reinventar, e as empresas precisam de diferentes tipos de financiamento para as diferentes fases da vida. Há dinheiro disponível nos fundos europeus que não está a ser usado, e Portugal tem de ir lá buscá-lo.”

GRAÇA FONSECA
Secretária de Estado Adjunta da Modernização Administrativa

“O Estado, tal como as empresas, vai ter de adaptar-se muito rapidamente à evolução e a como o mundo funciona e a como as pessoas exigem que os serviços administrativos sejam processados no dia a dia. E o caminho é o da antecipação face ao que vai acontecer na vida de uma empresa ou de uma pessoa, e sem que a pessoa ou a empresa tenha sequer de pedir. Por exemplo, quando nasce uma criança há um conjunto de atos que é necessário praticar e um conjunto de direitos aos quais se pode ter acesso. O objetivo é o Estado antecipar-se e saber que nasceu a criança, que a família tem um determinado tipo de rendimentos e, por isso, tem acesso a um determinado nível de direitos. Há uma outra área importante em que estamos a trabalhar que é a da concretização do princípio de reutilização dos dados, por exemplo, no IRS automático ou na declaração mensal de remunerações à Segurança Social. A tarifa social de eletricidade, por exemplo, já é hoje automática.”

DANIEL TRAÇA
Diretor da Nova School of Business

“Para o crescimento ser sustentável tem de ser baseado no aumento da produtividade, e para que isso aconteça tem de haver inovação. Hoje, há dois tipos de empresas. Aquelas que são muito inovadoras e aquelas que resistem à mudança e estão a olhar para dentro. Temos de ver que sentido essas empresas fazem no país e se não é melhor darem espaço a outras. As universidades têm aqui um papel importante. Será muito dos jovens que virão as ideias para o futuro, e temos parcerias com as empresas nesses sentido. Mas as universidades têm ainda um segundo papel, que é o de formar talento e de dar capacidade de liderança em ambientes menos rígidos. É preciso largar o senhor doutor e o senhor engenheiro. Até no financiamento é preciso mudar. Ele está muito baseado na banca, mas é preciso encontrar novas formas de financiamento.”

Textos originalmente publicados no Expresso de 30 de junho de 2018