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Marisa Berenson: “Estamos aqui de passagem”

Musa dos anos 70, atriz de “Morte em Veneza”, “Cabaret” e “Barry Lyndon”, modelo preferida de Yves Saint Laurent e Helmut Newton, figura do jet-set internacional e agora também mulher de negócios. Veio a Lisboa falar sobre a linguagem da beleza, na conferência internacional da editora CondÉ Nast, e, curiosamente, em conversa fora do palco, assumiu que foi um longo processo até deixar de se sentir feia e desadequada

Não é a primeira vez que vem a Lisboa. O que é que sente que mudou na cidade?
Em criança vinha muito em família para Cascais e para o Estoril, tenho vários amigos aqui. Lisboa está a crescer, como tudo cresce, mas continua a ser das cidades mais bonitas que há. Não olho para o resto (a explosão do turismo), olho para a beleza das cores, dos edifícios antigos e dos azulejos, e como é maravilhoso estar à beira-mar. Cada vez que volto entendo porque as pessoas dizem que querem viver aqui.

Veio à conferência “Linguagem do Luxo” falar sobre a linguagem da beleza. Como é que isso se traduz?
É uma expressão pessoal, uma forma de viver a vida, como nos colocamos no mundo para os outros. A beleza tem a ver com o interior da pessoa, é o brilho do rosto. É como o luxo, que não tem de ver necessariamente com algo material.

Porque é que valoriza esse lado interior, tendo em conta que construiu uma carreira com base na sua imagem?
Desenvolver o ser no seu conjunto, a mente e a alma, mas também o físico, é importante para ser forte e ter bom aspeto, porque na carreira de modelo essas duas coisas são essenciais.

Tem várias facetas, modelo, atriz e agora mulher de negócios, com uma linha de produtos de beleza. Qual delas é mais à sua medida?
Todas. Tudo o que faço é com amor e paixão. Estes cremes são muito pessoais porque desenvolvi a fórmula para mim e utilizo-os. Devemos partilhar com o mundo o nosso conhecimento. Ser modelo, atriz ou criadora de produtos de beleza é uma forma de partilha. Estamos aqui de passagem e tenho muita sorte por a vida me dar tantas oportunidades para ser criativa.

A 24 de maio estreou em Paris um musical [onde canta e dança] inspirado em “Cabaret”, filme de Bob Fosse, no qual foi uma das atrizes. Onde arranja energia para tantos desafios?
Esses desafios é que me dão energia. Há dois meses parti a anca e pensei: “Oh, meu Deus, como é que vou conseguir fazer isto?”. Depois pensei: “Claro que vou fazer”, porque isso faz-me feliz. Tenho mais energia a fazer coisas, na troca com outras pessoas, do que sem fazer nada. Também é bom estar quieta a ver filmes e a ler bons livros, mas é muito importante estar ativa e criativa, expressar-me com outras pessoas. Não somos nem fazemos nada sozinhos.

A sua idade não é segredo, acaba de fazer 71 anos. Com que idade se sente?
Nem consigo dizê-la porque não a sinto ou sinto-me muito jovem. Na época da minha avó [a designer de moda italiana Elsa Schiaparelli] ninguém falava sobre isso, porque era um mistério de cada um, principalmente da mulher. Hoje em dia já não há mistério sobre nada, tudo é desvendado.

A sua data de nascimento [15 de fevereiro de 1947] está na Wikipédia.
Eu sei, é terrível [risos]. Mas, por outro lado, sabe, sinto-me muito orgulhosa por ter chegado a esta idade e ainda ser saudável e capaz de fazer coisas. Celebro o facto de ter esta idade.

O que é que ganhou e perdeu com o envelhecimento?
Perdi o que toda a gente perde, a fisicalidade do corpo da juventude. Ganhei sabedoria, autoconhecimento, experiência e aventuras incríveis. Quando olho para trás sinto que vivi oito ou 10 encarnações numa vida. Nem acredito no que vivi, o que passei. Quanto mais velha mais segura me sinto.

Era insegura na infância?
Sim, muito insegura e tímida. Conforme fui ficando mais velha, e porque vivi muitas experiências, fui ultrapassando isso. Hoje sinto-me muito forte.

Porque é que era insegura, lembra-se?
Sim, claro que me lembro [risos]. Na infância sentimo-nos desadequados, ou dizem-nos que não somos bonitos ou inteligentes ou não nos dizem que somos bonitos e inteligentes. No meu tempo era uma educação diferente, em que isso não era expressado. Sempre achei que não era bonita. A minha mãe dizia que eu parecia uma mulher de Modigliani e nessa época parecer um Modigliani não era um padrão.

A Marisa não era o padrão.
Felizmente, porque para mim resultou. Quando comecei a trabalhar com a revista “Vogue” cruzava-me com modelos lindas e sofisticadas, a Verushka, a Wilhemina e a Mirella. Olhava para o espelho e via o meu nariz que não era como o delas, um rosto que não era a norma. E pensava: “O que é que estou aqui a fazer com estas raparigas?” Não me sentia tão bonita como elas, nem que tivesse um futuro. Tive de passar a olhar para mim através do olhar dos outros, até começar a conhecer-me e a valorizar-me.

Esse foi o melhor conselho que teve da sua avó: “Conhece-te a ti própria.” O que é que isso significa para si?
A minha avó dizia que a maioria das mulheres não se conhece de todo. Quando nos conhecemos sabemos o que valorizar e pôr em destaque. As mulheres não sabem identificar o que têm de mais bonito e mostrar isso, seja em termos de estilo ou na forma de estar na vida. Significa sermos nós próprias e não ter medo de ser diferente dos outros.

Tem uma vida cheia de conquistas, mas também de perdas [as mortes prematuras do pai e da irmã]. É uma pessoa nostálgica?
Vejo o passado porque passa-me à frente constantemente, em fotografias. O passado é muito importante em termos de conhecimento e da riqueza das experiências que passei, moldou a forma como vivo atualmente. Vivo e aprecio o momento. Não dá para viver no passado e ser melancólico, é ridículo.

Que sonhos tem para o futuro?
Muitos [risos], enquanto for criativa e fizer as coisas que adoro fazer. Quero tornar a minha empresa maior e global e fazer filmes maravilhosos. A minha vida pessoal, a minha filha e neta, também é muito importante.

Passa muito tempo em Marrocos. Porquê?
Aconteceu como são aquelas coisas do destino, que acredito que acontecem por uma razão. Quando comecei a trabalhar com o Grupo Accor [onde vende os produtos de beleza nos SPA dos hotéis] ia muito a Marraquexe e adorei. A minha mãe [a socialite Gogo Schiaparelli] estava a começar a ficar com muita idade e sozinha em Paris. Mudei-me para Marrocos com ela, onde foi muito feliz até morrer, e isso transformou-lhe a vida.

Onde é que sente que está em casa, em Paris?
Paris foi onde vivia de vez em quando, entre as temporadas em Nova Iorque e Los Angeles. Agora estou mais em Marrocos, onde tenho um jardim orgânico e biológico, com animais e um SPA. Esse foi sempre o meu sonho.

Que marca quer deixar ou de que forma gostaria de ser lembrada?
O mais importante é o sentimento que deixei às pessoas com as quais me cruzei e que isso tenha sido bom, de uma maneira ou de outra. O amor é a coisa mais importante. Tudo o que fazemos tem de ser feito a partir do amor.