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Construir negócios numa base da NASA

O trio da Mov.E e Sofia Couto da Rocha, da SkinSoul

TIAGO MIRANDA

Duas startups portuguesas estiveram incubadas num centro espacial em Silicon Valley

Embora não seja palco de voos e de espetaculares descolagens, o NASA Ames Research Center, um dos dez centros de pesquisa da agência espacial norte-americana, localizado em Silicon Valley, Califórnia, esteve desde sempre envolvido em importantes missões espaciais. Em terra fértil de startups milionárias, esta base da NASA é hoje a casa da Singularity University, uma comunidade fundada por líderes tecnológicos que oferece formação e serve de incubadora a projetos que utilizam tecnologias exponenciais (como a inteligência artificial ou a realidade virtual) para encontrar soluções para os maiores desafios da humanidade.

Foi precisamente aí que, durante sete semanas, os mentores de duas startups portuguesas fortaleceram as suas ideias de negócios — que já tinham saído vencedoras do Global Impact Challenge, um concurso de talento que, em fevereiro, decorreu em Cascais e a que concorreram 73 projetos lusos sob a premissa de serem ideias tecnológicas com potencial para terem impacto global e mudarem a vida de mil milhões de pessoas na próxima década. A aplicação (app) SkinSoul, gizada pela médica Sofia Couto da Rocha e que pretende ajudar a diagnosticar rapidamente situações de cancro de pele malignos, foi uma delas. A outra foi a Mov.E, app desenvolvida por José Toscano, Pedro Garcia e Pedro Silva, que permite que cada utilizador de carros elétricos possa carregar os veículos e pagar pelo seu consumo de eletricidade na fatura doméstica. Ambas foram desenvolvidas no âmbito do The Lisbon MBA, parceria entre as escolas de gestão da Universidade Nova de Lisboa e Católica.

“A convivência é intensa, estamos durante semanas no mesmo espaço, a partilhar ideias, a desconstruí-las e a voltar a construí-las. Não deixámos a base da NASA. A pressão é constante. Estávamos numa espécie de Big Brother”, conta Pedro Garcia, o representante da Mov.E que viajou até Silicon Valley, com Sofia Rocha. Foram os dois portugueses entre 40 empreendedores de países como a Nicarágua, Brasil, Japão ou EUA, dos 25 aos 76 anos. O objetivo é que, ao longo das semanas que aí passam, consigam criar aquilo a que, no mundo do empreendedorismo, se chama “produto mínimo viável”. A versão mais simples de um produto possível, de forma a validar a premissa da ideia de negócio com o mínimo possível de recursos.

Começar do zero

Muitos tinham apenas ideias gerais do que queriam fazer, ao contrário dos projetos portugueses, que, estando numa fase mais avançada do seu desenvolvimento, “foram considerados bastante estruturados e elogiados por isso”. O que não quer dizer que a sua estadia naquela base da NASA (que foi o centro operacional do programa Pioneer, nos anos 70 e 60, de onde foram lançadas várias sondas a planetas como Júpiter e Saturno) tenha sido propriamente fácil.

“Todos os sectores têm os seus mentores, altamente especializados nas suas áreas, que continuamente colocam em causa os nossos pressupostos. Ajustámos a nossa ideia muitas vezes. Mesmo com o nosso projeto em fase avançada, não digo que tivemos de andar para trás, mas tivemos de andar na diagonal”, conta Pedro Garcia. Os fins de dia eram difíceis, na hora de comunicar aos colegas da Mov.E que era preciso mudar alguma coisa. Quando rumou a Silicon Valley, a app pretendia usar a blockchain (cadeia de blocos de dados) como tecnologia; no campo da NASA, Garcia percebeu que era prioritário simplificar a tecnologia.

“Obrigam-nos a olhar para os problemas do zero. Muitas vezes acreditamos muito na nossa ideia, mas depois percebemos que podemos estar errados”, explica Sofia Couto da Rocha. Para aguentar a pressão e encontrar forças para vencer a desmotivação, todas as sextas-feiras à tarde decorria o Lava Lab, um espaço de acompanhamento e de coaching. Ao fim de semana era possível, por curtos períodos de tempo, respirar a atmosfera de Silicon Valley, “um mundo à parte, regido pela tecnologia, onde podemos entrar numa loja e ser atendidos por um robô”, lembra a médica.

Repartido por módulos, desde a criação do projeto, passando pela sua modelização, até aos temas do financiamento e do capital de risco, o curso de empreendedorismo da Singularity University serviu, sobretudo, “para mostrar que tudo pode ser possível. Tem a ver com uma visão que é muito norte-americana”, aponta Pedro, secundado por Sofia: “Eu queria muito ter alguns especialistas como mentores no meu projeto e queria ter muito uma tecnologia desenvolvida na universidade de Stanford. Contudo, nunca tinha entrado em contacto com eles, porque achava que ou não iam responder ou não iam aceitar. Neste programa, motivaram-me sempre a tentar. E a verdade é que consegui ter a tecnologia que tanto queria, assim como dois mentores do MIT. Enviei e-mails e responderam-me a seguir”.

Agora, de regresso a Portugal, o objetivo passa por fortalecer os seus projetos e começar a preparar o caminho para o financiamento. Nos EUA, muitos contactos foram feitos, “certamente que alguns darão frutos”. A Mov.E já está a trabalhar com a câmara de Cascais e a SkinSoul prepara-se para realizar um ensaio clínico. No futuro, os empreendedores esperam fortalecer os laços dos seus projetos com o país de origem. O que poderá não ser fácil. É que os fundos de capital de risco dão prioridade de financiamento a empresas sediadas nos EUA.

A Singularity University vai regressar a Portugal em outubro, com uma conferência no novo campus da Nova SBE, em Carcavelos.