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Alojamento local ganha mais de 24 mil unidades num ano

Foto Ana Baião

A maior parte foi registado em Lisboa, levando o Algarve a perder peso no total dos espaços existentes hoje no país

Ana Baptista

Ana Baptista

Jornalista

O número de unidades de alojamento local (AL) que existem no país deu um salto significativo entre 2016 e 2017. De acordo com o Atlas da Hotelaria da consultora Deloitte, no final do ano passado contavam-se 51.014 espaços de AL em Portugal, num total de 205.261 camas, o que significa um crescimento de, respetivamente, mais 95% e 102% face a 2016. Quer isto dizer que, em apenas um ano, este sector ganhou mais 24.863 unidades de AL com mais 103.420 novas camas.

“Este aumento resulta do impacto gerado pelo aumento dos registos. A partir de julho de 2017 entraram em vigor as alterações ao Regime Jurídico da Instalação, Exploração e Funcionamento dos Empreendimentos Turísticos (RJET) que não permitem a comercialização de qualquer alojamento local que não esteja no Registo Nacional Turismo (RNT) por parte das plataformas online (como a Airbnb ou o Booking), ficando as mesmas e os proprietários sujeitos a coimas avultadas”, explica ao Expresso o sócio da Deloitte, Jorge Marrão.

De acordo com o estudo, a maior parte destas novas unidades surgiu na região de Lisboa. Aliás, o crescimento foi tão grande que o número de unidades deste género nesta zona está muito próximo dos espaços existentes no Algarve, a região onde o AL começou e onde sempre foi mais representativo.

De acordo com os dados do Atlas da Hotelaria, em 2016, Lisboa só tinha 4% do total das unidades de AL existentes no país (e 5% das camas), mas em 2017 passou a ter, respetivamente, 29% (e 28% das camas). Já o Algarve tinha 63% das unidades de AL em 2016 e 58% das camas e, em 2017, passou a ter apenas 38% do total das unidades existentes no país e 36% do número de camas (ver infografia).

“Em Lisboa, a maioria dos alojamentos locais não estava registada no RNT. Com o aumento do número de registos, assistiu-se a uma maior distribuição regional, tendo o Algarve perdido representatividade”, adianta ainda Jorge Marrão.

Estas foram, de facto, as duas regiões onde se verificaram maiores alterações no que respeita à oferta de AL. No resto do país, este tipo de oferta turística é ainda pouco expressiva. Nos Açores, por exemplo, não há registo de um único empreendimento de AL, na Madeira há apenas 5% do total e no Alentejo apenas 3% (ver gráficos).

Oferta cresce em 
todo o tipo de unidades

O AL não foi o único tipo de unidade turística a crescer em 2017. Pelo contrário. O sector dos hotéis, hotéis-apartamentos e hotéis rurais, aldeamentos, apartamentos turísticos e pousadas mostrou também alguma dinâmica no ano passado, e neste caso falamos de inaugurações. No AL, a maior parte do crescimento deve-se aos registos de espaços que já existiam.

De acordo com o estudo, o ano passado abriram 48 novos empreendimentos turísticos e 3350 novas unidades (quartos e apartamentos), havendo agora um total de 1.993 empreendimentos e de 143.089 unidades.

Também neste caso “o maior aumento de empreendimentos turísticos registou-se em Lisboa, que, em 2016, registava 292 e, em 2017, 319 (um aumento de 27 empreendimentos)”, diz Jorge Marrão. Mas, “em termos de unidades de alojamento, o maior aumento registou-se no Alentejo e no Algarve, o que significa que abrem menos empreendimentos turísticos, mas de maior dimensão”, acrescenta.

Ainda assim, há uma perda de representatividade do Algarve no turismo nacional, o que Jorge Marrão explica com a “elevada sazonalidade” e a falta de “uma estratégia que permita reduzir o seu impacto”. Além disso, diz, “tem sido difícil atrair companhias aéreas para o Algarve e a insolvência da Monarch gerou um problema adicional”. E depois, sendo este um destino pioneiro é também “o mais consolidado em Portugal” e, por isso mesmo, “o nível de qualidade oferecido não é elevado, com exceção de certas zonas, como o conhecido Triângulo Dourado [Quinta do Lago, Vale do Lobo e Vilamoura]”.

Por sua vez, Lisboa “assume-se, cada vez mais, como um destino de city break e o valor do imobiliário tem vindo a gerar maiores retornos para os investidores, o que leva a uma maior preferência dos investimentos hoteleiros por esta região”, diz ainda Jorge Marrão.

O estudo revela ainda uma alteração na tipologia de hotéis existentes no país, neste caso não de ano para ano, mas sim nos últimos dez anos, entre 2007 e 2017. Neste período, desapareceram empreendimentos de três estrelas e pousadas que deram lugar a espaços de 4 e 5 estrelas e também de 2 estrelas, uma espécie de concorrência ao AL.

“Passámos de um mercado em que se apostava em empreendimentos que serviam todo o tipo de turistas para outros mais direcionados e ajustados à procura que está cada vez mais exigente e segmentada e resulta na adaptação dos grupos hoteleiros. As grandes cadeias mundiais fazem-no através da criação de submarcas, uma estratégia que também tem sido implementada pelas marcas portuguesas”, conclui Jorge Marrão.