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Guerra comercial com os EUA teria “impacto bastante negativo sobre a economia portuguesa”

LEAH MILLIS // Lusa

Donald Trump e os Estados Unidos são os grandes perdedores de uma guerra comercial à escala global, mas a Europa e Portugal também seriam prejudicados. No caso português, as consequências seriam amplificadas pelo facto de a recuperação estar muito assente no dinamismo das exportações

Para já, os efeitos da política protecionista de Donald Trump na economia portuguesa parecem ser modestos, mas, num cenário em que as tensões comerciais continuem a escalar e acabem com a imposição de tarifas de parte a parte, sobre todas as trocas comerciais, as consequências fariam mossa. Segundo o Banco de Portugal uma tarifa de 10% sobre todas as trocas comerciais de e para os Estados Unidos levariam a redução do crescimento nacional em 0,7% no espaço de três anos.

E exercício feito pelos economistas do banco central é hipotético, pelo menos face aos planos que o presidente norte-americano tornou públicos, mas serve para ilustrar os efeitos do protecionismo sobre o crescimento económico mundial. E, à luz das conclusões, logo à cabeça, entre os grandes perdedores, figuram os EUA.

Num cenário em que Donald Trump resolvesse lançar uma tarifa de 10% sobre todas as suas importações e os seus parceiros comerciais respondessem na mesma moeda, a economia norte-americana arriscaria perder quase 2% de PIB no espaço de três anos.

A China, a zona euro e o Reino Unido veriam as suas economias encolher em torno dos 0,5% - 0,6% num triénio, valores que andam alinhados com a perda média da economia mundial, com o PIB a encolher 0,7% e o comércio 3%.

As simulações feitas para Portugal, embora recorrendo a um outro modelo econométrico, andam também na vizinhança destes números. Cobrar 10% sobre as importações dos Estados Unidos e pagar uma taxa igual sobre as exportações poderia conduzir a uma redução do PIB de 0,7% em três anos e a uma subida dos preços na casa dos 0,4% no mesmo período.

No resumo que acompanha o Boletim de Primavera divulgado esta quinta-feira, os economistas sublinham que estes resultados, a pecarem, é por defeito, já que as simulações não incorporam outras consequências indiretas e mais dificilmente mensuráveis, como o aumento da incerteza e a erosão da confiança dos agentes económicos, e a quebra da produtividade devido à redução da especialização e da concorrência internacional.

Em suma, “o aumento de barreiras comerciais pode ter um impacto bastante negativo sobre a economia portuguesa, dado que o crescimento tem assentado, em larga medida, no dinamismo das exportações”.

Estas conclusões do BdP estão em sintonia com um exercício análogo divulgado pelo Banco Central Europeu há cerca de um mês, quando a instituição liderada por Mario Draghi enfatizou os riscos de uma escalada protecionista para a economia global. Ainda assim, para já, o banco central trabalha com os cenários em cima da mesa, e eles, mesmo conjugados com uma desaceleração do ritmo de crescimento na área do euro, não são alarmantes ao ponto de comprometerem o plano de retirada gradual de estímulos monetários ou o início do aumento das taxas de juro.