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Consumo de notícias no Facebook está em declínio

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Apesar do uso geral desta rede social continuar elevado, o número de pessoas acedem a notícias através do Facebook diminui, conclui o Digital News Report do Reuters Institute for the Study of Journalism. Mudança de algoritmo do Facebook, notícias falsas, debates tóxicos e questões de privacidade são algumas das explicações

Depois de anos de crescimento contínuo, a utilização das redes sociais para consumir notícias está em queda em vários mercados, segundo o “Digital News Report” do Reuters Institute for the Study of Journalism, da Universidade de Oxford, divulgado esta quinta-feira. Os internautas têm escolhido as plataformas de mensagens em detrimento das redes sociais.

Apesar da utilização geral do Facebook continuar a ser “elevada e estável” desde 2015, o número de pessoas que o usam para consumir notícias está a diminuir na maioria dos mercados, especialmente a partir de 2017. Em média, a sua utilização para consumo de notícias caiu de 42% em 2016 para 36% este ano, à luz um inquérito feito a cerca de 74 mil internautas de 37 países.

Nos Estados Unidos, onde 39% da população acede a notícias através do Facebook, a utilização desta rede social para este fim caiu 9 pontos percentuais (p.p.) em comparação com 2017 (número que entre a população jovem aumenta para 20 p.p.). Brasil (queda de 5 p.p. para 52%) e Reino Unido (queda de 2 p.p. para 27%) são outros dos países em declínio.

Em Portugal, apesar de uma queda ligeira de 1 p.p., mais de metade dos portugueses (53%) ainda acedem a notícias através do Facebook.

Embora o consumo de notícias esteja em declínio em muitos mercados, existem alguns onde o Facebook continua a crescer como fonte de notícias. É o caso da Malásia, que cresceu 6 p.p. para 64%, e da República Checa, com um aumento de 10 p.p. para 57%.

A diminuição surge na sequência das alterações aos algoritmos do Facebook para dar prioridade às interações com familiares e amigos e da dificuldade de distinção, por parte dos utilizadores, entre notícias “reais” e “falsas” (apesar de o Facebook estar focado no combate às fake news). As preocupações com as questões de privacidade e a natureza tóxica dos debates na rede social são outras explicações.

Em Portugal, estas preocupações mantém-se. “Quase três quartos dos inquiridos dizem preocupar-se com o que é falso na internet”, explica em comunicado Gustavo Cardoso, professor do ISCTE-IUL e diretor do OberCom. “Metade dos portugueses que usam internet diz confiar em notícias que encontra através de motores de busca, mas só menos de um terço dizem confiar em notícias que veem nas redes sociais.”

Aplicações de mensagens são alternativa

Em sentido contrário, plataformas como o WhatsApp, Instagram e Snapchat surgem como fontes alternativas de notícias, especialmente entre os jovens. No caso do WhatsApp, a utilização desta rede social para notícias triplicou, em média, com 15% dos internautas a usarem-na nos últimos quatro anos - e ainda mais em países, como a Malásia (54%) e a Turquia (30%), onde as opiniões políticas não podem ser expressadas livremente.

“Vemos muitas pessoas a mudar o seu foco para espaços privados, mais pessoais, como aplicações de messaging para aí partilhar e discutir notícias”, sublinha em comunicado Nic Newman, autor principal do relatório. Apesar de dar às pessoas “um maior controlo sobre onde e como elas se envolvem”, traz também riscos: “torna o debate público e a distribuição de notícias ainda mais fragmentados e opacos”.

Media responsabilizados por notícias falsas

Não são apenas as redes sociais que são responsabilizadas pela propagação das notícias falsas na internet. Segundo 71% dos inquiridos no relatório, estas plataformas têm a sua quota parte de responsabilidade. Mas são principalmente os editores (75%) que são responsabilizados, por publicarem notícias que consideram “tendenciosas” ou “imprecisas”. São estas que preocupam mais os leitores, não notícias inventadas ou distribuídas por outros países ou sites que procuram ganhar dinheiro.

“Toda a discussão em torno da desinformação é sobre os media digitais, mas o uso frequente do perigoso e enganoso termo ‘fake news’ está ligado a uma crise de confiança de longa data, onde grande parte do público não acha que pode confiar nas notícias, especialmente em países com alta polarização a nível político e onde muitos meios de comunicação são vulneráveis a influências económicas ou políticas indevidas”, sublinha o professor Rasmus Kleis Nielsen, um dos editores do relatório e diretor de investigação do Reuters Institute for the Study of Journalism.

Os órgãos de comunicação social, contudo, estão a evoluir nos modelos de negócio - alguns através de um aumento das receitas online, outros por procurarem estratégias alternativas à paywall (barreira de acesso às notícias que exige o pagamento de uma subscrição). Os países nórdicos registaram aumentos significativos nos números dos que pagam por notícias online, com a Noruega a chegar a 30%, a Suécia a 26% e a Finlândia a 18%.

Mas as doações e filiações estão também a aparecer como estratégia alternativa, especialmente relacionadas “com o posicionamento político à esquerda” e entre a população jovem. Estados Unidos, Espanha e Reino Unido são os principais países onde isto acontece - e o “The Guardian” é um bom exemplo disso.

TV em declínio, podcasts e voz em crescimento

O relatório destaca ainda outra tendência: as audiências televisivas estão em queda em muitos países, particularmente nos telejornais. Isto traz desafios acrescidos às televisões públicas, que lutam para reter audiências online e chamar os jovens.

Os conteúdos de vídeo são principalmente consumidos em plataformas como o YouTube ou o Facebook - mais de metade do consumo de vídeo tem lugar nestes dois. Mas este consumo varia consoante os mercados, com os asiáticos a terem um consumo de vídeo mais online em comparação com os europeus ou americanos.

Em crescimento estão os podcasts, cada vez mais populares a nível mundial, e os assistentes digitais ativados por voz, como o Amazon Echo e o Google Home. A utilização destes últimos para obter notícias mais do que duplicou nos Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido. E a distribuição mais fácil e melhoria dos conteúdos dos primeiros contribuiu para a popularidade dos podcasts, que são agora mais utilizados entre os jovens do que a rádio.

O estudo assenta numa amostra de 74.194 inquéritos feitos online em 37 países, incluindo Portugal, durante o final de Janeiro e o início de Fevereiro. Em cada país foram realizados cerca de 2.000 entrevistas.