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Uma semana de clarificação para os juros da dívida

José Ricardo Mourinho Félix, secretário de Estado Adjunto, do Tesouro e das Finanças

José Carlos Carvalho

Portugal regressa ao mercado obrigacionista na próxima quarta-feira numa semana marcada pelo fiasco do G7 no Canadá, pela cimeira de Singapura, e por duas importantes reuniões de política monetária dos bancos centrais dos EUA e Zona Euro. Itália realiza os primeiros leilões de dívida de médio e longo prazo após o início do governo Conte

Jorge Nascimento Rodrigues

O Tesouro português realiza na quarta-feira dois leilões de Obrigações do Tesouro a 5 e 10 anos num contexto marcado pela subida dos juros (yields) no mercado secundário da dívida, em virtude do contágio italiano, por eventos de grande risco geopolítico e por duas reuniões importantes dos dois mais importantes bancos centrais do mundo, a Reserva Federal (Fed) na terça e quarta-feira e o Banco Central Europeu (BCE) na quinta-feira.

No prazo de referência, a 10 anos, os juros (yields) fecharam no mercado secundário acima de 2% na sexta-feira e abriram esta segunda-feira em queda ligeira, registando 1,96%. Apesar de estarem, agora, abaixo do limiar dos 2%, estes juros estão claramente acima do mínimo histórico de 1,67% ocorrido no último leilão, naquela maturidade, realizado a 9 de maio.

As taxas atuais de mercado a 5 e 10 anos apontam para o fim de juros em mínimos históricos nos leilões de dívida de médio e longo prazo organizados pela Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP).

Investidores vão penalizar leilões de dívida nos periféricos?

O principal fator de subida dos juros das obrigações dos periféricos do euro no mercado secundário tem sido o contágio italiano motivado pela subida dos juros (yields) dos títulos transalpinos, nomeadamente a 10 anos, que fecharam em 3,12% na sexta-feira. Esta segunda-feira abriram em queda ligeira para 2,9%.

O Departamento do Tesouro italiano realiza, também na quarta-feira, os primeiros leilões de obrigações de médio e longo prazo – a 3, 7 e 30 anos – depois da entrada em funções do novo governo de coligação entre o Movimento 5 Estrelas e a Liga (ex-Liga Norte) chefiado por Giuseppe Conte.

A pressão aliviou na abertura dos mercados esta segunda-feira depois do ministro da Economia, Giovanni Tria, ter garantido no domingo, em entrevista ao jornal Corriere della Sera, que “a posição do governo é clara e unânime, não há discussão sobre saída do euro”. Acrescentou que o novo governo de Conte está “determinado em impedir o surgimento de condições de mercado que conduzam a uma saída do euro”.

O mercado primário, de emissão de dívida pelos Estados, vai ser marcado, ainda, por um leilão de dívida a 10 anos pela Alemanha na quarta-feira e por uma colocação de €1500 milhões esta semana por parte do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE), o fundo de resgate da zona euro, que é responsável pelos empréstimos aos periféricos do euro que estiveram (ou ainda estão, como é o caso da Grécia até agosto) sob programas da troika.

Há uma probabilidade elevada dos investidores internacionais penalizarem os leilões dos periféricos do euro (Itália e Portugal), exigindo taxas muito mais altas do que nas operações anteriores, e continuarem a aceitar juros muito baixos no caso das emissões de Bunds (alemães) e do MEE.

O regresso a um quadro de clara dissociação entre as trajetórias dos juros nos periféricos e no centro do euro é um dos riscos assinalados por muitos analistas.

Risco de guerras comerciais agravou-se

Esta atividade no mercado da dívida da zona euro vai desenrolar-se numa semana que é marcada pelo fiasco político da cimeira do G7 no Canadá, com o presidente norte-americano a desvincular-se do comunicado final publicado, deixando antever que o risco de guerras comerciais generalizadas disparou e que aquele organismo informal de reunião das sete democracias com economias mais industrializadas foi esvaziado politicamente.

A cimeira na próxima terça-feira entre os EUA e a Coreia do Norte na ilha de Sentosa, em Singapura, terá repercussões geopolíticas importantes. As tensões no Mediterrâneo na gestão das vagas de migrantes estão, também, a agravar-se.

Fed vai subir taxas diretoras

Na política monetária, a semana é marcada pelas reuniões dos dois mais importantes bancos centrais do mundo, a Fed e o BCE. Nas duas reuniões serão apresentadas novas previsões económicas que poderão clarificar a avaliação do andamento da retoma económica nos EUA e na Zona Euro.

Os analistas e o mercado de futuros das taxas da Fed apontam para o anúncio na quarta-feira de uma subida de 25 pontos-base (um quarto de ponto percentual) na taxa diretora norte-americana que deverá subir para o intervalo entre 1,75% e 2%. A concretizar-se será a sétima subida dos juros da Fed desde o início da ‘normalização’ desse instrumento de política monetária em dezembro de 2015.

A atenção dos investidores vai centrar-se na linguagem do comunicado da Fed, nas projeções económicas e de subidas futuras das taxas diretoras, e nas declarações do presidente Jerome Powell na conferência de imprensa na quarta-feira.

Os analistas vão estar atentos a alguns 'detalhes': se a Fed altera a sua linguagem de comunicação abandonando, de vez, a menção a uma política monetária “acomodatícia”, e se as projeções dos banqueiros centrais norte-americanos apontam para uma quarta subida, na reunião de dezembro, da taxa diretora, o que projetaria os juros para o limiar dos 2,5% no final do ano, enquanto na zona euro permanece em 0% e no Japão em -0,1%.

O mundo financeiro vai estar atento ao impacto da subida da taxa diretora da Fed nos juros dos títulos do Tesouro norte-americano, que se têm mantido nas últimas semanas próximo mas abaixo de 3%, e nos mercados emergentes, em particular nos que têm registado quebras nas bolsas em junho (como Brasil, Turquia e Rússia) e desvalorizações cambiais (como África do Sul, Argentina e México).

BCE deverá discutir futuro do QE

Os investidores na zona euro estão, também, na expetativa de que o BCE inicie a discussão formal sobre o fecho do programa de compra de dívida, vulgo quantitative easing (QE, no acrónimo), na reunião de política monetária na próxima quinta-feira, a 14 de junho.

O início da discussão poderá não significar que o conselho do banco central resolva comunicar a sua estratégia já na quinta-feira ou que Mario Draghi, na conferência de imprensa, dê sinais sobre o futuro, havendo analistas que se inclinam para que isso só aconteça na reunião de julho.

Uma sondagem da Reuters junto de 80 economistas, divulgada na sexta-feira, indica que os especialistas se inclinam para que o QE seja descontinuado no final deste ano e que, na reunião da próxima quinta-feira, apesar da “cautela” que deverá ser mantida, o conselho dê sinais sobre o que se vai passar depois do prolongamento do programa terminar no final de setembro.

Os analistas não esperam uma paragem súbita do programa no final de setembro, apostando numa redução gradual até final do ano. Uma primeira mexida no quadro das taxas do BCE só deverá ocorrer no segundo trimestre de 2019, com uma subida da taxa negativa de remuneração dos depósitos dos bancos de -0,4% para -0,25% ou -0,3%. Uma alteração da taxa diretora, que está em 0%, só deverá acontecer no terceiro trimestre do próximo ano, com uma primeira subida para 0,1%.

As “cautelas” do BCE poderão ser motivadas pela incerteza sobre a evolução da situação política em Itália e em Espanha e pelo risco de uma guerra comercial com os Estados Unidos, abrangendo a Zona Euro, China, Canadá e México.