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A chave da cidade está em atrair talento para Setúbal

João Castello Branco (SEMAPA), Cristina Sousa (Raporal), Tiago Freire (moderador), Leonor Freitas (Casa Ermelinda Freitas) e Francisco Cary (CGD) falaram sobre indústria em Setúbal

A dificuldade em conseguir pessoas qualificadas e os desafios económicos do futuro para o distrito foram o foco do XVII Encontro Fora da Caixa

Das margens do rio Sado, às encostas da Serra da Arrábida, sempre com a marca do passado (e presente) industrial, Setúbal é o ponto nevrálgico de uma mistura única que, durante muito tempo, viveu à procura da melhor resposta para conjugar todas estas dimensões. Se parece certo que ainda não a encontrou em pleno, é percetível o sentimento que o salto nunca esteve tão perto, na condição de serem feitas as apostas certas para lidar com os desafios económicos e demográficos diagnosticados.

“Há 30 anos havia casas sem saneamento e crianças a andarem com pés descalços. Havia muita fome”, lembra-se Isabel Vaz. A Presidente da Comissão Executiva da Luz Saúde cresceu na região e utilizou as memórias de uma pobreza que estava à vista de todos para vincar o progresso conquistado a custo nos últimos anos, e que todos os convidados do XVII Encontro Fora da Caixa reconheceram em sintonia, reflexo de uma necessária aproximação entre o meio urbano e rural, e que foi um dos destaques de nova edição do ciclo de conferências que, ao longo de mais de um ano, tem juntado a Caixa Geral de Depósitos ao Expresso.

Subordinado ao tema “Setúbal: Distrito poli-industrial”, as conversas deixaram um retrato dos desafios que os protagonistas viveram. São “bons exemplos de empresas” como garantiu o administrador executivo da CGD, Francisco Cary. Ou uma história de conquistas e “mudança de mentalidades”, como lhe chama Leonor Freitas da Casa Ermelinda Freitas. A responsável da empresa vinícola defendeu que atualmente a “diferença entre os dois mundos” é muito menor do que na altura em que começou a trabalhar no negócio da família. “Era uma conotação muito desprestigiante. Antes era só uma agricultora. Agora já me apresentam como sócio-gerente”, recordou entre risos. Foi um caminho que a levou da exploração de 60 para 480 hectares e a ser responsável pelo “maior empregador” da sua zona com a crença que “mais ainda vai mudar.”

Sem alterações previstas está o comprometimento da SEMAPA com a região, que é “absolutamente crucial” para as ambições do grupo, garantiu João Castello Branco. O CEO da empresa — que inclui o maior fabricante europeu de papel de escritório e um dos principais exportadores nacionais, a Navigator — revelou que a zona à volta de Setúbal representa 40% do volume de negócios e das exportações, assim como 1100 empregos diretos e 3300 indiretos. Numa zona geográfica onde já investiram €850 milhões, o objetivo passa agora por um “processo de rejuvenescimento” que as marcas do grupo se encontram a implementar e que dá conta de uma vontade de competir com os melhores na contratação de mão de obra qualificada mais qualificada.

“Ainda estamos muito abaixo do nosso potencial”, acredita Isabel Vaz, quando os problemas demográficos e o seu impacto na população ativa têm estado na agenda política e levaram mesmo Daniel Bessa a afirmar, sem rodeios, à plateia do Fórum Luísa Todi que “só não serão problema para quem morrer entretanto.” O economista fez também questão de se confessar “triste” por “os portugueses estarem contentes” com resultados económicos que “deviam ser muito melhores” e aplicados, não como panaceias de curto prazo, mas sim de forma a resolver problemas estruturais para o futuro. Desafios como, por exemplo, a atração de talento.

Conseguir atrair os melhores é uma questão que preocupa cada vez mais os responsáveis empresariais da região, como chave para Setúbal aproveitar todas as suas vantagens naturais, industriais e turísticas. “Temos muito dificuldade em encontrar pessoas que achem o nosso ramo interessante”, contou a presidente do conselho de administração da Raporal, conglomerado ligado ao sector da agropecuária em que mais de 25% da produção vai para exportação. É um problema comum a todos, como Cristina Sousa teve oportunidade de comprovar “há duas semanas numa conferência com CEO de todo o mundo nos EUA.” Para o resolver, ainda faltam sinergias, porque “quando chega a hora da verdade é o salve-se quem puder”.

Transformação robótica
Mais que a atratividade da região, João Castello Branco acha que o problema se prende com “dificuldade em encontrar pessoas com a devida formação técnica”, com “carências em certas áreas” que o grupo tem procurado resolver com formação extra, além de uma ligação mais estreita com as instituições de ensino do distrito, sobretudo o Politécnico de Setúbal. Algo essencial para Leonor Freitas, que lançou um apelo às empresas para se articularem e “aproveitarem mais os recursos” humanos através de “apoios e estágios”. Apesar de ainda “não ter sentido grande dificuldade nas contratações”, acredita que vai começar a ter, principalmente “no trabalho de campo.”

Aí também já entra em cena a transformação robótica e o impacto que terá na exigência de competências diferentes dos funcionários, mais do que propriamente a sua total substituição. “Sou otimista, acredito sempre que vai haver uma solução”, atirou, sem dúvidas de que ninguém se pode dar ao luxo de não “acompanhar os desenvolvimentos da tecnologia.” E uma certeza: “Setúbal hoje tem tudo.”

Estamos a caminho da ‘uberização’?

Nuno Botelho

Se por um lado há quem defenda que a “digitalização e automatização vão criar mais emprego do que aquele que vão destruir”, outros estudos sustentam que haverá efeitos adversos. São duas possíveis faces da mesma moeda que o general Ramalho Eanes utilizou no XVII Encontro Fora da Caixa para ilustrar a sua visão sobre o novo (e ainda com incógnitas) paradigma social do trabalho. O antigo Presidente da República foi o convidado de honra da conferência em Setúbal com uma dissertação dedicada ao tema “A Indústria e o Emprego”. Numa altura em que se registam “tendências preocupantes no emprego precário”, a nova revolução industrial parece apontar para uma “uberização do mundo”. Sempre com a história de Portugal como âncora da intervenção, não só para recordar os pontos nevrálgicos do desenvolvimento nacional mas sobretudo para promover “uma memória orientada para o futuro que permita aprender com os nossos erros”, desde a expulsão dos judeus ou o desperdício do ouro do Brasil. “Levaram-nos a um atraso no desenvolvimento industrial” que, só agora, com o advento das novas tecnologias, começa a dissipar-se. Com riscos laborais que devem ser tidos em conta.

Discurso Direto

“Não sei bem qual 
é o problema do euro 
e de que é que os seus construtores podem ser atacados. 
Não peço muito mais ao euro, talvez pedisse mais às finanças públicas europeias”
Daniel Bessa
Economista


“A dificuldade 
em contratar é uma preocupação que se verifica em todo o mundo, sobretudo no que toca a atrair mão de obra profissional”
Cristina Sousa
Presidente do Conselho 
de Administração da Raporal


“A minha geração 
sabe o que era a miséria neste distrito 
e tem obrigação de não se esquecer disso e continuar a contribuir para o seu futuro”
Isabel Vaz
Presidente da Comissão 
Executiva da Luz Saúde



“Vivemos a época 
de taxas de juro mais baixas dos últimos 
50 anos nos depósitos, mas o investimento ainda está desfasado do clima de confiança económica”
Paulo Macedo
Presidente da Comissão Executiva 
da Caixa Geral de Depósitos

Textos originalmente publicados no Expresso de 9 de junho de 2018