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Mário Centeno desdramatiza situação em Itália mas avisa para populismos

TIAGO PETINGA

A mudança de liderança em Itália tem sido apontada como uma ameaça à coesão e estabilidade da zona Euro. O Presidente do Eurogrupo desdramatiza para já o impacto nos mercados e fasta o cenário de uma nova crise europeia, mas alerta para a importância das decisões sobre a reforma da Zona Euro

A incerteza política em Itália e o rumo a seguir pelo novo Governo de Giuseppe Conte tem provocado nervosismo nos mercados. Nas últimas semanas foram várias as vezes em que os juros da dívida italiana dispararam e a tensão fez subir também os juros da dívida de outros países da moeda única, como Portugal.

Uma nova crise estará mais perto do que se pensa? O Presidente do Eurogrupo afasta para já um tal cenário, provocado pela instabilidade governativa em Itália. Mário Centeno admite que "há sempre riscos e incertezas" mas desdramatiza o caso italiano. "Tem havido flutuações (nos mercados), mas que são de dimensão reduzida e que se têm vindo a corrigir passado alguns dias", disse à entrada para o Fórum Económico em Bruxelas.

O Presidente do Eurogrupo prefere sublinhar os resultados económicos positivos do conjunto da Zona Euro. "O que vemos nos ecrãs é uma área do euro a crescer, todos os países a crescerem acima de 1,5%, todos os países com défices abaixo de 3% (do PIB)". Ao mesmo tempo avisa que é preciso aproveitar os bons ventos económicos para reformar a moeda única e que isso também ajuda a acalmar os mercados.

"Nós só conseguimos transmitir uma mensagem de confiança a todos os agentes económicos se tomarmos decisões que tornem mais robusto o nosso espaço económico", disse Centeno aos jornalistas. O processo de discussão sobre a reforma do Euro está na reta final, mas nem todos os países têm mostrado a mesma ambição sobre o que é preciso fazer para evitar uma nova crise. E as alterações governativas em Itália e em Espanha levantam ainda mais dúvidas sobre até onde irá o entendimento sobre a reforma da Zona Euro.

"Dentro de três semanas, quando os líderes se reunirem, têm de escolher entre a continuação da vulnerabilidade à próxima crise e à instabilidade política e dos mercados ou levar a sério o Euro", desafiou Centeno durante o discurso de encerramento do Fórum Económico de Bruxelas. Um recado que é para os líderes europeus, para os países da Zona Euro, mas que poderia ser também para ele próprio, que tem conduzido a discussão ao nível dos ministros das Finanças da Moeda Única.

"Não sejam impacientes, a impaciência é a raiz dos populismos"

Perante os especialistas - muitos deles trabalham nas instituições europeias - Centeno avisou que pode ser perigoso deixar incompleto o processo de aprofundamento da União Económica e Monetária e alertou para os populismos.

"Os recentes progressos económicos não podem ser tidos como garantidos. O pesado ambiente pós-crise é terreno fértil para argumentos populistas", acrescentou. Apesar de desdramatizar a situação política italiana, Centeno sabe que os dois partidos que apoiam o Governo de Giuseppe Conte são críticos do modelo de governação que tem sido seguido para a Zona Euro. E são também conhecidos pelas posições populistas e anti-sistema.

"Temos de avançar com uma integração europeia em benefício dos cidadãos, esta é a melhor forma de combater os argumentos populistas", disse Centeno que defendeu ainda que os governos e instituições europeias têm de se mostrar pacientes, porque "a paciência é a melhor forma de combater os populismos, que vivem de soluções aparentemente demasiado simples".

"A atual situação não só nos deixa vulneráveis a crises futuras, como também alimenta ressentimentos contra o projeto europeu", acrescentou ainda.

Um discurso que o Presidente do Eurogrupo e ministro português das Finanças espera que possa ainda convencer os governos mais reticentes a avançarem com as reformas necessárias, nomeadamente no que diz respeito à União Bancária.

Algumas propostas, como a criação de um mecanismo de último recurso (backstop) para o Fundo Único de Resolução parecem estar bem encaminhadas para serem aprovadas no final de junho, de forma a entrar em vigor lá para 2024. No entanto, não há ainda certezas sobre o avanço de outras propostas - e que interessam a Portugal - como um Sistema Europeu de Garantia de Depósitos, que proteja de igual forma todos os depositantes europeus.