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Banca continua a ser o maior risco para Portugal segundo a Moody’s

O sector bancário representa “o evento de risco chave” para o rating do país, refere esta terça-feira a única agência de notação que mantém a dívida portuguesa em ‘lixo financeiro”. A Moody’s publicou a análise de crédito anual sobre Portugal que não funciona como decisão de notação, que só deverá tomar em outubro

Jorge Nascimento Rodrigues

“Apesar de melhorias, o sector bancário permanece o evento de risco chave para o perfil de crédito de Portugal”, refere a Moody’s na análise anual sobre Portugal publicada esta terça-feira. Este documento da agência não é, contudo, uma decisão sobre Portugal, cuja análise ao rating será feita em outubro.

Recorde-se que, a 20 de abril, a Moody’s decidiu não publicar nenhuma decisão, ainda que, na análise técnica divulgada posteriormente aos investidores, a agência aponte para uma notação que deveria estar já no primeiro grau de investimento, num nível de triplo B, e não em Ba1 (equivalente a BB+ ainda em terreno especulativo).

O elo mais fraco

Na avaliação das vulnerabilidades da economia portuguesa, a única agência que mantém o rating do nosso país em “lixo financeiro” considera que a banca é o problema mais suscetível de gerar um evento de risco que prejudique a notação de crédito portuguesa.

Este elo mais fraco continua marcado por níveis elevados de crédito malparado, rentabilidade ainda baixa, níveis de capitalização relativamente baixos em relação à média da zona euro, e um peso do sector no Produto Interno Bruto ainda muito elevado (acima de 200%).

Há, ainda, um outro indicador muito sensível que preocupa a Moody's – a evolução dos juros da dívida obrigacionista face a um choque de desconfiança nos mercados financeiros. A agência alerta que os juros portugueses “permanecem mais sensíveis a mudanças na confiança dos investidores” do que muitos dos outros periféricos europeus.

Risco político é muito baixo e contexto institucional tem nota elevada

A agência credita ao governo de António Costa e de Mário Centeno a proeza de “navegar com sucesso” uma consolidação orçamental conseguindo ao mesmo tempo manter o apoio da aliança parlamentar com forças políticas contrárias a tais metas. Por isso, o risco de instabilidade política até às eleições legislativas de outubro de 2019 é baixo. “É pouco provável que as eleições resultem numa mudança material na direção da política, já que o PS mantém uma liderança clara nas recentes sondagens”, diz a agência.

Portugal tem um ponto forte no campo institucional, avaliado com nota muito elevada, superior inclusive a dois parceiros do euro que têm um rating superior: a Itália e mesmo a Espanha (no caso do combate à corrupção).

Problemas que permanecem

Além da situação bancária, há mais quatro “desafios” que a Moody’s sublinha.

O primeiro é o nível da dívida pública que continua muito elevado em percentagem do PIB, com a Moody’s a apontar para 117% em 2021, quando o Fundo Monetário Internacional prevê 111% e Centeno aponta para 107%.

O segundo é a vulnerabilidade externa, que é elevada em virtude do nível negativo ainda muito alto da posição líquida de investimento internacional em percentagem do PIB (perto de 106% em 2017).

O terceiro prende-se com o impacto de longo prazo dos custos do sistema de saúde no PIB em virtude do problema demográfico – a Moody’s refere ser o mais elevado da União Europeia no horizonte de 2060 ou 2070.

Finalmente, o quarto, tem a ver com o a economia portuguesa ter um crescimento potencial moderado (de 1,5%), com a Moody’s a projetar um abrandamento mais acentuado, com taxas de crescimento futuras abaixo das previstas por Centeno.

Aviso final

A agência só retira a dívida portuguesa de “lixo financeiro” – eventualmente em outubro próximo – se ficar convencida de duas coisas: que as tendências de consolidação orçamental e de crescimento económico são sustentáveis e que a trajetória de descida da dívida pública é constante.

Recorde-se que a Moody’s foi a primeira agência a desgraduar a dívida portuguesa para um nível especulativo em julho de 2011 e será a última a retirá-la dessa situação.