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Burnout custa €329 milhões por ano às empresas

O stresse laboral afeta mais de 40 milhões de trabalhadores em toda a União Europeia

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Ordem dos Psicólogos defende plano nacional de prevenção da saúde psicológica nas organizações

Catia Mateus

Catia Mateus

Jornalista

A saúde psicológica dos profissionais tem impacto nas empresas e a ausência dela custos elevados. Os alertas estão em todo o lado, mas foi António Horta Osório, o português que lidera o banco britânico Lloyds, quem deu agora um rosto ao tema com um artigo de opinião publicado no “The Guardian”, onde fala na primeira pessoa sobre burnout (esgotamento profissional), stresse laboral e saúde mental em ambientes laborais de alto stresse — como a alta finança — e do apoio que precisou “para prevenir um esgotamento nervoso”. Horta Osório garante que “há muito a fazer para garantir que as pessoas têm o acesso à ajuda psicológica de que necessitam” e que a ausência desta ajuda tem impacto na produtividade e nos resultados das empresas. O bastonário da Ordem dos Psicólogos, Francisco Miranda Rodrigues, quantifica esse impacto: “A perda de produtividade gerada pelo absentismo causado por problemas de saúde psicológica pode custar às pequenas e médias Empresas (PME) cerca de €212 milhões por ano e às grandes empresas €117 milhões”.

O artigo assinado pelo CEO do Lloyds Bank reporta-se à realidade do Reino Unido onde, segundo o último Labour Force Survey, 526 mil profissionais sofrem de stresse laboral, depressão ou ansiedade e onde, entre 2016 e 2017, mais de 12,5 milhões de dias de trabalho se perderam por doenças mentais. Com a devida ressalva à expressão dos números, o cenário não difere muito do que é vivido noutros países. Num artigo publicado na “Harvard Business Review”, a autora do livro “The Happiness Track”, Emma Seppala, revela que nas suas pesquisas concluiu que “50% das pessoas de várias profissões, desde o sector das organizações sem fins lucrativos à medicina, estão esgotadas”.

A autora admite que o esgotamento profissional está a disparar e que o problema não se resume a executivos atarefados, sendo hoje transversal a todas as profissões e hierarquias corporativas, ainda que o Labour Force Survey identifique os sectores da Saúde e Trabalho Social, a Administração Pública, Defesa e a Educação como áreas de maior incidência de riscos psicossociais. O bastonário da Ordem dos Psicólogos corrobora a ideia de que o risco de problemas mentais está a aumentar entre os profissionais e avança outros dados compilados pela Ordem no âmbito de um relatório que propõe a obrigatoriedade da vigilância psicossocial periódica nos locais de trabalho.

Dois em cada dez têm 
problemas psicológicos

“Estima-se que em Portugal dois em cada dez trabalhadores sofram de problemas de saúde psicológica e que faltem ao trabalho 1,3 dias por ano devido a estes problemas”, explica, recordando também o Estudo Epidemiológico Nacional de Saúde Mental que revela que a prevalência das perturbações psiquiátricas em Portugal é de 22,9%. O presentismo atribuível aos problemas de saúde psicológica — trabalhadores que vão trabalhar mas funcionam abaixo das suas capacidades devido a doença física ou mental — será de dois dias por ano. A perda de produtividade custa às empresas nacionais, segundo a Ordem, 0,1% do seu volume de negócios.

O bastonário recorda que o stresse laboral estará na origem de 50 a 60% do absentismo e que, segundo a Fundação Europeia para a Melhoria das Condições de Trabalho, afeta mais de 40 milhões de trabalhadores em toda a União Europeia, com um custo económico de €20 milhões. A Ordem defende, no relatório dos Problemas de Saúde Psicológica no Trabalho, que “a promoção da saúde psicológica nas empresas portuguesas poderia resultar numa poupança de €99 milhões anuais, 30% do custo anual da perda de produtividade associada aos problemas de saúde psicológica no trabalho”. Francisco Miranda Rodrigues tem procurado sensibilizar o Governo e os grupos parlamentares para a questão dos riscos psicossociais e a saúde mental nas empresas, ainda sem grandes resultados práticos.

Em dezembro, o Ministério da Saúde admitiu ao Expresso estar atento a esta questão e apontou para 2018 a elaboração de um Guia Técnico relativo à Vigilância da Saúde dos Trabalhadores Expostos a Riscos Psicossociais para o qual, garantiu por escrito, “serão encetados contactos com as Ordens dos Psicólogos, Médicos e Enfermeiros”. Cinco meses depois, o gabinete de comunicação do Ministério da Saúde admitiu ao Expresso não ter novidades sobre o tema, mas remeteu a questão para a Direção-Geral de Saúde, já que “o documento será desenvolvido no âmbito do Programa Nacional de Saúde Pública”.

Coligação para a Felicidade avança na Saúde

A Ordem dos Psicólogos garante que não foi contactada no âmbito de nenhum projeto nestes moldes e que o mais próximo que conhece da iniciativa anunciada é o Despacho nº 3118/2018, publicado em “Diário da República” a 27 de março, onde a secretária de Estado da Saúde, Rosa Zorrinho, associando-se à comemoração do Dia Internacional da Felicidade no Trabalho, determina a “constituição de um grupo de trabalho com o objetivo de apresentar uma proposta de plano de ação para a melhoria do bem-estar no trabalho nos organismos e entidades do Serviço Nacional de Saúde”.

No documento, a secretária de Estado recorda que Portugal fez parte do núcleo fundador de países que subscreveram a Declaração Conjunta da Coligação Global para a Felicidade no Trabalho e diz esperar que a iniciativa contribua para promover o desenvolvimento e o bem-estar social das cerca de 130 mil pessoas que trabalham nos vários organismos do SNS.

O grupo de trabalho, que segundo o bastonário da Ordem dos Psicólogos já reuniu duas vezes, integra elementos dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, da Administração Central dos Sistemas de Saúde e da Direção-Geral de Saúde e um especialista indicado pela Ordem dos Psicólogos, outro em Medicina do Trabalho, outro em Saúde e Segurança no Trabalho e um elemento do gabinete da secretária de Estado da Saúde. Daqui deverá sair um plano de ação para a promoção do bem-estar no trabalho nos organismos e entidades do SNS. Francisco Miranda Rodrigues reconhece que a medida é ainda restrita quando deveria ser extensível a todo o contexto laboral nacional, mas enfatiza que é já um princípio e que é positivo.