Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Pode a cortiça brilhar sob as luzes de Monte Carlo?

O Empreendedor do Ano, António Rios de Amorim, exibe o troféu ao lado do ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral; João Alves, presidente da EY; João Miranda, líder da Frulact, distinguido na categoriaInternacional; e Igor Carvalho, que, em representação de Nuno Sebastião, da Feedzai, recebeu o prémio de Inovação, na gala

Nuno Botelho

Em junho, António Rios de Amorim representa Portugal na final mundial do prémio EY Empreendedor do Ano

Rute Barbedo

Belmiro de Azevedo não teve hipóteses contra Bill Lynch, dono da sul-africana Imperial Holdings, em 2006. No ano seguinte, a história de superação dos irmãos Martins, do grupo Martifer, ficou na sombra de Guy Laliberté, o criador do Cirque du Soleil. Em 2009, a BA Vidro, de Carlos Moreira da Silva, perdeu para o vidro chinês de Cho Tak Wong, da Fuyao Glass. Já a escalada hoteleira de Dionísio Pestana foi ofuscada pela primeira mulher a vencer o prémio Entrepreneur of The Year, Olivia Lum, que ergueu em Singapura a Hyflux Limited, dedicada à dessalinização, depois de uma vida de fome. Há quatro anos, Manuel Alfredo de Mello e o azeite da Nutrinveste não superaram a visão de Uday Kotak, que abriu as portas da Índia à banca privada. Os últimos empreendedores portugueses a defrontarem pesos pesados da economia numa final do prémio máximo da consultora EY, no Mónaco, foram Bento Correia e Miguel Leitmann, da Vision-Box, que revolucionaram o mundo das viagens aéreas com soluções de controlo de passageiros. Mas também eles viram a possibilidade de vitória afundar-se, em 2016, perante o percurso de Manny Stul, filho de refugiados polacos na Austrália, que criou uma fábrica de brinquedos a partir do dinheiro poupado com o trabalho na construção.

Fugir do precipício
Irá Portugal ao ‘pódio’ do prémio da EY à sétima tentativa? A ‘tarefa’ cabe a António Rios de Amorim, líder da Corticeira Amorim, perante cerca de 50 concorrentes. Mas o presidente do júri que, no dia 12 de abril, o elegeu como Empreendedor do Ano em Portugal, António Gomes da Mota, reconhece: “Empresários e empresas de pequenos países têm sempre uma dificuldade acrescida de afirmação internacional.” Ainda assim, “a Corticeira Amorim atingiu uma dimensão internacional relevante e pode ilustrar uma história consolidada e bem-sucedida de crescimento a partir de inovação e diferenciação”, acrescenta o presidente não-executivo do conselho de administração dos CTT.

António Rios de Amorim (sobrinho de Américo Amorim, considerado o homem mais rico de Portugal e falecido no verão passado) está à frente da Corticeira Amorim desde 2001, uma altura marcada pela quebra da indústria da cortiça. Sob o peso de uma herança empresarial que remonta a 1870 (ler “Amorim em retrospetiva”), Amorim teve de saber dar a volta à matéria-prima que lhe escapava das mãos. “O mérito da empresa foi sair de todo este processo ganhadora. Hoje, somos mais competitivos, temos um modelo de governo completamente diferente e uma visão e planeamento estratégicos muito mais assentes em bases discutidas por toda a equipa de gestão”, resumiu o empresário ao Expresso. A gestão centralizada na personalidade de Américo Amorim — que fazia o trabalho de “10 ou 15 pessoas”, como admitiu o atual presidente — transformou-se num modelo estratégico mais colaborativo.

Quando, nos anos de 1990, surgiram vedantes alternativos às rolhas de cortiça, o abalo atingiu a base da indústria. O grupo decidiu manter a cortiça no negócio, mas apostou em investigação e desenvolvimento e lançou novos produtos em direção a áreas como o mobiliário, a indústria aerospacial ou a cultura. Em 2012, por exemplo, 108 peças desenhadas pelo artista Ai Weiwei e pelos arquitetos Herzog e de Meuron foram esculpidas à mão por técnicos da Corticeira Amorim para a reputada Serpentine Gallery, em Londres.

Hoje, perto de 4000 pessoas trabalham para a empresa em mais de 35 países e “levam um produto tão português quanto a cortiça a mais de 100 países”, realçou o Empreendedor do Ano. Na final do Mónaco, a 16 de junho, Amorim quer “mostrar que ‘tradicional’ não é uma palavra que dê origem a uma empresa sem futuro mas que revela a longevidade da indústria”.

De empresários para empresários
Além da nomeação do Empreendedor do Ano de 2018, entre os dias 13 e 17 de junho estarão em debate temas urgentes como a colaboração entre os sectores público e privado, o futuro das cidades ou como empreender na incerteza atual da geopolítica. Mas é na última noite o momento alto do programa: a gala de atribuição do prémio.

O júri será composto por empreendedores distinguidos pela EY em anos anteriores, como o americano Jim Nixon, da Nixon Energy Investments; a russa Natalya Kaspersky, líder do InfoWatch Group; ou o chinês Ruigang Li, fundador da China Media Capital. Caberá aos empresários escolher entre cerca de 50 personalidades (ler “Quem vai defrontar Portugal no Mónaco”) de sectores tão distintos quanto o financeiro, o farmacêutico ou o alimentar.

Para Mário Ferreira, o patrão da Douro Azul e um dos finalistas da edição portuguesa do prémio da EY, “no estrangeiro, quando este tipo de histórias [como a de António Rios de Amorim] são vistas e analisadas, têm peso. Não tem de ser só um Cirque du Soleil ou uma Microsoft ou uma Apple. O que eles avaliam são histórias de vida e Portugal tem muitas”, disse ao Expresso. Na opinião de Rui Nabeiro, o criador da Delta Cafés, também não será a dimensão do país a atrapalhar Amorim. “Todas as grandes empresas têm a sua história.” E João Miranda, da Frulact — que foi distinguido na categoria Internacional pelo crescimento sustentado além-portas (está presente em três continentes e cinco países) —, não tem dúvidas de que “Portugal será muito bem representado”.

Amorim em retrospectiva

Primeira fábrica
Em 1870, começa a produção de rolhas de cortiça para o Vinho do Porto, a partir de Vila Nova de Gaia. 52 anos depois, nasce a empresa Amorim & Irmãos, Lda.

Exportação
Com 150 trabalhadores, na década de 30, a empresa exporta para países como o Japão, Estados Unidos, Brasil ou Alemanha. Além das rolhas, trabalham-se também revestimentos térmicos e acústicos, entre outras áreas.

Era Américo
Nos anos 60, é criada a Corticeira Amorim, liderada pela terceira geração da família, os quatro irmãos Amorim. É implementada a estratégia de transformar 70% dos desperdícios produzidos pela Amorim & Irmãos, Lda. Mais tarde, surge o Labcork, Laboratório Central do Grupo Amorim, para investigação e desenvolvimento. Em 1972, é inaugurada a primeira fábrica fora do país, em Marrocos.

Passagem de testemunho
Depois de uma série de aquisições e diversificações do negócio, em 1989, aos 22 anos, António Rios de Amorim chega à Amorim-Investimentos e Participações. Passa por diferentes áreas de negócio, até suceder aos 34 anos ao tio Américo Amorim, numa altura em que a corticeira enfrenta grandes prejuízos e um sector em queda.

Nova gestão
Rios de Amorim reorganiza o sistema de planeamento estratégico, introduzindo a metodologia Balanced Scorecard (baseada na avaliação de indicadores de desempenho), reparte as decisões de gestão pela equipa, inova e aposta na investigação para escapar à crise do sector.

Adeus ao líder
Com mãos da cortiça ao petróleo, Américo Amorim, o homem mais rico de Portugal, morre aos 82 anos, a 13 de julho de 2017. Sob a liderança de Rios de Amorim, o Empreendedor do Ano 2018, a Corticeira Amorim fechou o ano passado com um lucro de €73 milhões, registando €701,6 milhões em vendas.

Quem vai defrontar Portugal no Mónaco

Ainda há vencedores nacionais por apurar, mas, para já, contam-se quatro mulheres na corrida. Eis alguns finalistas

Dos empresários que competirão pelo título de Empreendedor do Ano internacional, 18% representam empresas de base tecnológica. A lista dos mais fortes candidatos em 2018.

Humberto Enrique Rodríguez, Colômbia
Antes de mais, Humberto Rodríguez é um ambientalista, e só depois o fundador do Grupo Sala. Chocado com os níveis de poluição de Cartagena começou a pensar em formas de reduzir o impacto da indústria. Em 1996, criou o Grupo Sala e focou-se na remoção de resíduos, recolha de lixo e saneamento básico. Hoje, as suas 24 empresas recolhem mais de 895 mil toneladas de resíduos sólidos e distribuem mais de 11 mil metros cúbicos de água anualmente.

Christian Beck, Austrália
O fundador da Australian Technology Innovators é um autodidata dos computadores. Fê-lo para ajudar a empresa do pai, há 20 anos. Entretanto, fundou a LEAP Legal Software e a InfoTrack, que atuam para melhorar a produtividade e eliminar o papel em empresas da área jurídica. Trabalham para mais de 5000 entidades e estão a expandir-se a um ritmo acelerado.

Lubomir Stoklásek, República Checa
Conduzir uma das mais antigas empresas de engenharia da Europa e não ser engolido pelo conservadorismo será um dos grandes triunfos de Stoklásek. A Agrostroj Pelhrimov começou a atividade em 1896, como uma pequena loja de reparação. Sobreviveu ao desmantelamento da Checoslováquia e hoje é líder no fornecimento de equipamento agrícola a nível europeu. Stoklásek lidera-a desde 1997 e superou uma quase-bancarrota investindo na manufatura de qualidade e na modernização da tecnologia.

Markus Villig, Estónia
Talvez a irreverência dos 19 anos tenha encorajado Markus Villig a entrar numa das áreas de negócio mais polémicas dos últimos tempos. Foi com essa idade que o estónio criou a Taxify, concorrente da Uber, como aplicação que permite chamar um táxi ou motorista privado através de uma aplicação de telemóvel. O serviço tem mais de cinco milhões de clientes na Europa, América Central, África e Médio Oriente.

Takateru Kawano, Japão
Kawano afirma que um dos seus objetivos de vida é reduzir o mottainai, e esta é a parte em que tentamos traduzir uma expressão sem equivalente. Aproximado, envolve não só o conceito de desperdício como a sensação de peso que ele pode provocar. Em 2005, o japonês criou a TKP Corporation para rentabilizar espaços comerciais vazios ou abandonados, transformando-os em centros de conferências e eventos. Num país onde há pessoas a viver em estúdios de oito metros quadrados, imagine-se a procura. Cerca de 1,5 milhões de pessoas utilizam os serviços da empresa.

Natividad Y. Cheng, Filipinas
Natividad Cheng e o marido, Robert, eram operários, e o salário médio ganho numa fábrica das Filipinas ronda os 15 mil pisos (€232). Um dia abandonaram os seus empregos para criarem o próprio negócio, porque detetaram uma oportunidade no mercado: a elevada procura e escassez de oferta de produtos feitos à base de espuma. Com 60 euros, fundaram a Uratex, em 1968, e são hoje o principal produtor de espumas e colchões do país.

Final sem apostas no Convento do Beato

A chuva torrencial da noite de 12 de abril saturou o cheiro a suspense em torno dos potenciais vencedores do prémio Empreendedor do Ano. Um a um, os oito finalistas iam chegando ao Convento do Beato, em Lisboa, debaixo de uma linha de guarda-chuvas negros. Manuel Rui Nabeiro e Rui Miguel Nabeiro, do Grupo Nabeiro, e António Rios Amorim, da Corticeira Amorim, detinham o lastro histórico, mas competiam com a “faina fluvial”, turística e imobiliária de Mário Ferreira, da Mystic Invest; com a audácia contra a fraude de Nuno Sebastião, da Feedzai; com Luís Miguel Sousa, do Grupo Sousa, que transformou o transporte marítimo a partir da Madeira; com João Miranda, que em dez anos viu a Frulact quase quadruplicar a faturação; e com a pegada mundial da WIT Software, representada por Luís Moura e Silva.

Entre a assistência, não havia favoritos nem apostas. “Qualquer dos candidatos representará muito bem Portugal no Mónaco”, declarou o octogenário Manuel Rui Nabeiro ao Expresso, antecipando a final do prémio EY Entrepreneur of The Year, agendada para junho. Depois de dezenas de entrevistas e análises de desempenho, o júri decidiu atribuir o prémio máximo a António Rios de Amorim. A João Miranda, da Frulact, e a Nuno Sebastião, da Feedzai (que não pôde comparecer na gala), couberam as distinções nas categorias Internacional e Inovação, respetivamente.

Textos publicados originalmente no Expresso de 21 de abril de 2018