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Banca pressiona saída dos irmãos Martins da Martifer

Após um “ciclo desgastante” para evitar o colapso do grupo, Carlos Martins (à esquerda) e o irmão Jorge deixam funções executivas na Martifer

Rui Duarte Silva

Assembleia de acionistas no fim de maio abre um novo ciclo na Martifer. Um gestor da casa será presidente executivo, sucedendo a Carlos Martins. Quando a crise apertou, a banca exigiu uma presença ativa da Mota-Engil na gestão

Os irmãos Carlos e Jorge Martins vão deixar a condução executiva da Martifer, a empresa que fundaram e que partilham com a Mota-Engil. O movimento de mudança começou há três anos quando, no âmbito da reestruturação da dívida, o sistema bancário forçou a Mota-Engil a ter uma presença ativa na gestão. A banca sentia-se desconfortável com a gestão dos irmãos Martins e não os queria como interlocutores.

Na altura, o conglomerado da família Mota avançou com um dos seus pesos-pesados, o administrador Arnaldo Figueiredo, secundado por Pedro Moreira para dirigir o pelouro financeiro. Coube a Figueiredo pôr a casa em ordem, renegociar a dívida de 300 milhões de euros e afinar os planos de negócios com a banca.

Na prática, a Martifer contava com um liderança bicéfala. Carlos Martins dirigia as operações industriais, Figueiredo lidava com a banca e a área financeira. Jorge Martins era um vice-presidente in nomine, sem qualquer intervenção na gestão do grupo desde que se transferira para o Brasil.

Novo Banco entalado

O Novo Banco é o principal financiador - a Martifer era um dos grupos que gravitavam na esfera Espírito Santo. E já tivera uma experiência infeliz com os irmãos Martins. O Novo Banco já fora lesado pela Estia SGPS, uma imobiliária da família Martins, perdoando 26 milhões de euros no âmbito de um processo de recuperação empresarial.

Na próxima assembleia geral, que decorrerá no fim de maio, os acionistas vão adotar um novo modelo de governo. A Martifer contará com uma comissão executiva que terá como presidente um gestor da casa.

Carlos Martins evoluirá para chairman, presidindo a um conselho de administração alargado.

A Martifer reduziu a dimensão e está focada na construção metálica, indústria naval e energia renovável

A Martifer reduziu a dimensão e está focada na construção metálica, indústria naval e energia renovável

Rui Duarte Silva

Ciclo desgastante, mudança planeada

Segundo uma fonte da Mota-Engil, esta “mudança já estava planeada e traduz uma evolução natural”. Carlos Martins já “manifestara intenção de deixar funções executivas e tornar-se chairman”.

O ciclo que agora se fecha “foi muito desgastante”. Com as “contas em ordem e o regresso aos lucros”, faz sentido que a nova fase seja associada “uma gestão refrescada”. A Mota-Engil desmente que tenha feito “qualquer pressão” para a mudança e que os dois núcleos acionistas “estão em perfeita sintonia”.

Mas uma outra fonte da Mota-Engil reconhece ao Expresso ser “natural que a banca se sinta mais confortável e segura com gestores da escola Mota-Engil”. A construtora detém 37,5% do capital, cabendo 425% à IM, dos irmãos Martins.

Há três anos, a equipa de gestão liderada por Carlos Martins para o triénio 2015/17 fora aprovada pelos dois principais acionistas.

António Mota sempre reafirmou que uma eventual venda da participação na Martifer só seria encarada “em conjugação com a família Martins” e que a parceria nunca esteve em causa.
O valor em bolsa da Martifer é de 36 milhões de euros, mas no relatório de 2017 a Mota-Engil atribuiu um valor nulo ao investimento, depois de consolidar perdas de 2,7 milhões.

Rui Duarte Silva

Regresso aos lucros, capital negativo

Contactada pelo Expresso sobre a saída dos irmãos Martins, a Martifer remeteu para o comunicado que divulgara na segunda-feira sobre o exercício de 2017, em que abordava o tema.

No comunicado, a empresa informava que iria adotar “um novo modelo de governo em que os acionistas de referência não têm funções executivas“. Os “acionistas de referência continuarão representados no conselho de administração", mas como não executivos.

A empresa dava conta de que o novo plano estratégico assentará no reforço “da eficiência operacional, planeamento, produtividade e crescimento sustentável” na construção metálica, indústria naval e na Martifer Renewables.

Em 2017, a Martifer regressou aos lucros (6,5 milhões), após sete anos de perdas. Os prejuízos acumulados somam 360 milhões de euros. Este desempenho funesto reflete-se no capital próprio, que permanece negativo (37 milhões), um sinal de falência técnica.

A empresa precisa de melhorar a sua estrutura de capitais, mas “neste ciclo recessivo que atravessou era de todo impossível encarar qualquer operação de aumento de capital”, comenta uma fonte da Mota-Engil. No futuro, “talvez essa operação seja possível”.

Depois de uma política expansionista nem sempre feliz de negócios e geografias, impulsionada pelo financiamento bancário e o encaixe obtido na dispersão de ações em bolsa, em 2007, a Martifer encetou um ajustamento doloroso, reduzindo drasticamente a dimensão.

Em 2017, a faturação de 186 milhões de euros compara com um recorde há 10 anos de 900 milhões. O grupo está agora focado na construção metálica (58% da receita), indústria naval (33%) e energia renovável (9%). A carteira de encomendas na construção metálica e indústria naval vale 303 milhões de euros. A dívida líquida está agora nos 190 milhões, um valor que multiplica por 22 o resultado de exploração (EBITDA) de 2017 (8,5 milhões). É um múltiplo muito elevado, mas é necessário ver as coisas em perspetiva: o rácio em 2016 era 54, depois de atingir o recorde (2012) de 96 vezes.