Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Gaspar em sintonia com Centeno: “Construam finanças públicas sólidas nos bons tempos”

PATRICIA DE MELO MOREIRA / Getty

É a recomendação do ex-ministro das Finanças português e atual responsável no FMI pelo Fiscal Monitor, na apresentação esta quarta-feira deste relatório sobre política orçamental à escala mundial. O exemplo da Administração Trump não deve ser seguido e a China tem de meter mão na dinâmica da dívida

“Construam finanças públicas sólidas nos bons tempos”, recomendou Vítor Gaspar, o diretor do Departamento de Assuntos Orçamentais do Fundo Monetário Internacional (FMI) na apresentação esta quarta-feira do Fiscal Monitor (FM), o relatório sobre política orçamental à escala mundial publicado duas vezes por ano pela organização. O FM, juntamente com o World Economic Outlook publicado ontem, são dois documentos fundamentais do Fundo divulgados no quadro da assembleia de Primavera da organização que está a decorrer até domingo em Washington, nos EUA.

Na conferência de imprensa realizada esta quarta-feira, o ex-ministro das Finanças português do governo de Passos Coelho pediu aos governos que “poupem [agora] para quando vier o mau tempo” e apelou, em particular, aos “responsáveis políticos para evitarem ações de política pró-cíclica que fornecem estímulos desnecessários a uma atividade económica que já está a acelerar”.

O destinatário principal deste último recado é a Administração Trump. Na conferência de imprensa, Gaspar sublinhou que a mensagem principal para a Casa Branca é que a recomendação do FMI aponta para uma "política orçamental contracíclica" e que reforce as almofadas financeiras no quadro de um "quadro de médio prazo" que enfrente os riscos e desafios de médio e longo prazos na economia norte-americana.

A recomendação geral do ex-ministro surge em linha com o que o ministro das Finanças Mário Centeno defendeu recentemente para Portugal. Na conferência de imprensa, em resposta a uma pergunta sobre Espanha, Gaspar referiu que a mensagem do FMI para as economias da zona euro com níveis elevados de dívida é que evitem políticas procíclicas e prossigam o ajustamento orçamental - ainda que de um modo "amigável para o crescimento".

A dívida é um problema sério, mas a maioria está a tratar dele

O FM dedica este ano uma particular atenção ao problema do endividamento das economias. A dívida global – incluindo as dívidas das famílias, das empresas e do sector público – atingiu um valor recorde de 164 biliões de dólares (€133 biliões) em 2016, cerca de 225% do PIB mundial, a maior parte em economias desenvolvidas endividadas. Aumentou mais de duas vezes e meia em quinze anos.

A dívida pública, por seu lado, subiu para 105% do PIB nas economias desenvolvidas, o nível mais elevado desde a 2ª Guerra Mundial, e para quase 50% nas economias emergentes e de rendimento médio, o nível mais elevado desde a crise das dívidas dos anos 80 do século passado e superior ao registado aquando da crise financeira asiática do final dos anos 90.

Muitas economias têm níveis de endividamento público que estão acima dos limiares fixados pelas regras orçamentais que devem seguir – por exemplo, no caso da zona euro, o limite de 60% do PIB das regras de Maastricht – ou são superiores aos tetos definidos pelo FMI a partir dos quais considera que a sustentabilidade da dívida entra em alto risco (85% do PIB para as economias desenvolvidas e 70% do PIB para as economias emergentes). Portugal está acima dos dois limiares e assim continuará. O governo português aponta para 102% do PIB em 2022 e o FMI é mais pessimista e ainda aponta para 105% em 2023.

No entanto, há um sinal positivo - a maioria dos países está a tratar de baixar a dívida, sobretudo pública. “As nossas previsões indicam que o rácio da dívida pública no PIB descerá nos próximos cinco anos em cerca de dois terços dos países”, referiu Vítor Gaspar. A destoar, os EUA.

O mau exemplo de Trump…

O FM aponta um mau exemplo – o dos Estados Unidos, cuja Administração está a desenvolver uma política orçamental na direção contrária ao que deve ser feito neste período de retoma económica e de quase pleno-emprego na maior economia do mundo. Nas economias desenvolvidas é, atualmente, a exceção, sublinhou Gaspar.

A Administração Trump optou por uma política orçamental pró-cíclica – como dizem os economistas - acentuando uma trajetória de subida do défice (de 4,6% em 2017 para um pico de 5,9% do PIB em 2019) e da dívida pública (de 108% em 2017 para 117% do PIB em 2023). O relatório dirigido por Vítor Gaspar dedica particular atenção ao caso norte-americano.

… e o risco chinês

A segunda dor de cabeça tem a ver com a China. “A China, só por si, contribuiu com 43% para o aumento da dívida global desde 2007”, sublinhou Gaspar. A dívida total chinesa multiplicou por 5 em nove anos, disparou de 4,9 biliões de dólares (cerca de €4 biliões) em 2007 para 25,5 biliões de dólares (cerca de €21 biliões) em 2016.

Apesar da dívida pública chinesa estar muito abaixo do limiar dos 70% do PIB definido pelo FMI como apontando para uma situação de risco, a sua dinâmica vai ser de subida, tal como nos EUA. Vai aumentar de 48% em 2017 para 66% em 2023, tornando-se a segunda mais elevada dos BRICS, depois do Brasil. A Índia, em contraste, vai reduzir de 70% para 61% naquele período. O défice público chinês vai também subir ligeiramente, de 4% para 4,3% do PIB, nos próximos seis anos.