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Maurice Obstfeld: "As grandes economias estão a ‘flirtar’ com a guerra comercial"

A retórica da guerra comercial e as medidas protecionistas estão a desviar a atenção do problema central, o impacto da revolução tecnológica, disse esta terça-feira Maurice Obstfeld, na apresentação do relatório de previsões do FMI

Jorge Nascimento Rodrigues

O Fundo Monetário Internacional (FMI) avisa que os governos estão a enganar-se ao se desviarem para o ataque à globalização em vez de darem atenção aos efeitos disruptivos da revolução tecnológica na economia, no mundo do trabalho e na polarização dos rendimentos.

“As tendências [negativas no trabalho e nos salários] são mais devidas à mudança tecnológica do que ao comércio [internacional]”, disse esta terça-feira Maurice Obstfeld, economista-chefe do FMI, na declaração de apresentação do World Economic Outlook (WEO) em Washington. O braço direito da diretora-geral, Christine Lagarde, para a fundamentação das previsões macroeconómicas, sublinhou em conferência de imprensa que “as disputas em torno do comércio [internacional] distraem da agenda vital, ao invés de a fazerem avançar”.

Obstfeld constata, por isso, este paradoxo: “As grandes economias estão a ‘flirtar’ com a guerra comercial num momento de expansão económica tão difundida”, na altura em que “essa expansão depende tanto do investimento e do comércio”.

É mais fácil politicamente subir o tom da retórica protecionista em matéria de comércio internacional, um dos pilares da globalização, do que ir ao fundo dos problemas, avisa o FMI. Mas esse desvio de atenção nada resolve: “A desilusão dos eleitores alimenta a ameaça de desenvolvimentos políticos que podem destabilizar uma série de políticas económicas no futuro, para além da política comercial”, adianta Obstfeld. No WEO refere-se, com preocupação, que “a ansiedade sobre a mudança tecnológica e a globalização está a subir e, quando combinada com desequilíbrios comerciais maiores, pode provocar uma viragem para políticas isolacionistas, provocando disrupções no comércio e no investimento”.

Essa distração do essencial pode ter, até, um impacto negativo importante de curto prazo. “A perspetiva de restrições comerciais e de contra-restrições ameaça minar a confiança e fazer descarrilar prematuramente o crescimento global”, avisa o economista-chefe do FMI. O crescimento acelerou em 2017 para 3,8% e deverá subir para 3,9% em 2018 e 2019, segundo as previsões divulgadas hoje pelo WEO. Mas pode "descarrilar".

No entanto, o economista-chefe sublinhou, durante a conferência de imprensa, que "ainda há espaço para negociações multilaterais" nas disputas de comércio internacional, depois dos primeiros tiros de guerra comercial dados recentemente. O economista-chefe aludiu que alguns analistas falam do período atual como de "falsa guerra" e frisou que não há uma "definição formal de guerra comercial". Obstfeld referiu que os cenários mais pessimistas sobre a guerra comercial - e que foram simulados em outubro de 2016 pelo FMI - "não estão refletidos" nas previsões de base divulgadas hoje pelo WEO. A situação "continua muito fluída", referiu.

Os EUA estão a dar um tiro no pé

O caso dos EUA é paradoxal, chamam a atenção Obstfeld e o WEO. As medidas protecionistas tomadas em março farão “pouco” para alterar o quadro do défice externo norte-americano, que resulta, sobretudo, do facto do nível da despesa agregada dos EUA continuar a exceder a receita, sublinha o economista-chefe do FMI.

O défice externo dos EUA em 2019 deverá ser 150 mil milhões de dólares (mais de €121 mil milhões) mais elevado do que o projetado nas previsões económicas do FMI em outubro, referiu Obstfeld na declaração de abertura da conferência de imprensa. O que alimentará ainda mais a tendência política para o protecionismo.