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FMI otimista sobre economia mundial mas avisa que há riscos que podem “descarrilar” a retoma

World Economic Outlook, divulgado esta terça-feira, confirma crescimento de 3,9% em 2018 e 2019 e revê novamente em alta as taxas de crescimento dos EUA, Brasil e comércio internacional. Protecionismo e geopolítica podem matar prematuramente este otimismo

Jorge Nascimento Rodrigues

O Fundo Monetário Internacional (FMI) confirmou esta terça-feira a previsão avançada em janeiro de que a economia mundial deverá crescer 3,9% em 2018 e 2019, duas décimas acima do que projetava em outubro do ano passado. E reviu, de novo, em alta a estimativa para 2017, subindo o crescimento de 3,7% para 3,8%, consolidando a ideia de que o ano passado marca uma aceleração muito clara da retoma económica mundial, depois do crescimento se ter reduzido para 3,2% em 2016.

A zona euro, onde nos inserimos, vai acelerar em 2018, crescendo 2,4%, e depois abrandará para 2% no ano seguinte. Crescerá muito menos do que os Estados Unidos (2,9% e 2,7% respetivamente em 2018 e 2019), mas podia ser pior, se o Fundo não tivesse revisto em alta, em janeiro e agora, as projeções para a área da moeda única, com destaque para a Alemanha (uma revisão em alta acumulada de mais 1,2 pontos percentuais), Espanha (mais 0,5 pontos percentuais) e França (mais 0,4 pontos percentuais), os nossos três principais destinos de exportação.

O FMI reforça o otimismo, nesta primeira edição anual do World Economic Outlook (WEO) apresentado no início da assembleia anual da primavera que se iniciou ontem em Washington e deverá terminar no domingo. Este relatório é o mais importante documento de previsões macroeconómicas da organização, publicado duas vezes por ano, nas assembleias gerais em abril e em outubro, e atualizado intercalarmente em janeiro e julho.

Ainda que mantendo a taxa de crescimento global em 3,9% este ano e no próximo, o Fundo reviu, agora, em alta o crescimento nas economias desenvolvidas em 2018 (a projeção passou de 2,3% para 2,5%) e nas economias emergentes e em desenvolvimento em 2019 (de 5% para 5,1%). De destacar as mexidas feitas agora em abril para o Brasil, Espanha e EUA.

Aproximação do crescimento mundial a 4%

Se a revisão em alta para um crescimento próximo de 4% em 2018 não tivesse sido feita em janeiro e confirmada esta terça-feira com a divulgação do sumário executivo e do capítulo 1 de previsões económicas do WEO, a economia mundial abrandaria este ano em relação a 2017, interrompendo a inversão de trajetória ocorrida no ano passado. O que seria uma machadada no otimismo que o FMI tem pretendido transmitir.

Desde 2012 que o crescimento da economia mundial registava ziguezagues, quando caiu abruptamente de 4,3% no ano anterior para 3,5% naquele ano. Em 2016 chegou ao ritmo de crescimento mais baixo desde a recessão de 2009, registando 3,2%. Recorde-se que a previsão inicial do FMI para 2017 era de 3,6% e foi revista em janeiro para 3,7% e agora para 3,8%.

As razões das revisões em alta em janeiro e agora são quatro: expansão orçamental vinda da Casa Branca com um impacto transitório positivo no PIB norte-americano e, por arrastamento, mundial (responsável por 1/3 da revisão em alta em janeiro); alta de preços das matérias-primas e impacto positivo em muitas economias emergentes e em desenvolvimento; novos motores de crescimento na Ásia face ao abrandamento na China; e aceleração do comércio internacional, apesar das nuvens protecionistas, da retórica de guerra comercial e da desconfiança política face à globalização.

Riscos que ameaçam a retoma

Mas o otimismo pode ser abalado por “riscos descendentes”, diz o WEO. A organização chefiada por Christine Lagarde alerta, a curto prazo, para as ameaças geopolíticas e protecionistas que podem fazer “descarrilar prematuramente” a retoma económica.

A médio prazo, perfila-se um abrandamento mais acentuado depois de 2020 derivado de diversos problemas estruturais (impacto da revolução tecnológica, envelhecimento da população, fraco crescimento da produtividade) e da própria reversão do efeito expansionista norte-americano em virtude dos impactos negativos da subida do défice federal e da dívida pública e do próprio carácter transitório do choque fiscal de Trump.

Apesar de não pesarem ainda nas previsões divulgadas esta terça-feira, o horizonte está marcado pela incerteza quanto aos “riscos descendentes” de curto prazo. Perfilam-se riscos derivados da geopolítica – da disputa entre as grandes potências e potências regionais, de que o Próximo e Médio Oriente é o exemplo recente mais quente – que “não podem ser postos de lado”, diz o FMI. A que se junta “a recente escalada das tensões no comércio Internacional”, iniciada pela política protecionista da Casa Branca.