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Tomás Correia afasta voz incómoda por ‘delito de opinião’

Tomás Correia tem sofrido alguns reveses nos últimos tempos e ao ‘castigar’ Fernando Ribeiro Mendes dá um sinal de que não quer vozes discordantes na administração da Associação

Ribeiro Mendes perdeu os pelouros como administrador depois de publicar um artigo em que defende mudanças na governação

A polémica continua a marcar a agenda do grupo Montepio: há vozes incómodas a serem silenciadas e movimentações para se criar uma lista única, de consenso, onde Tomás Correia perderá poder ou será afastado.

É um cenário totalmente em aberto, até porque o presidente da Associação Mutualista Montepio Geral (AMMG), Tomás Correia, quer continuar a liderar o grupo e muito provavelmente vai concorrer às próximas eleições, agendadas para o final do ano. E já o deu a entender. Em fevereiro, ainda sem nenhum candidato perfilado publicamente, Tomás Correia foi dando o recado: “Não estão à altura do Montepio”. Uma mensagem destinada a afastar futuros concorrentes.

Desde 2008 a liderar o grupo Montepio, Tomás Correia está a sentir-se cercado e a decisão de retirar os pelouros ao administrador Fernando Ribeiro Mendes é um sinal disso. Soube-se esta semana que três elementos da administração da Associação Montepio — Tomás Correia, Carlos Beato e Virgílio Lima — decidiram suspender as funções de Ribeiro Mendes. Fizeram-no dias depois de o economista ter escrito um artigo de opinião no jornal “Público”, intitulado “Um virar de página”, onde defendia mudanças no governo e na gestão do Montepio. E sublinhava a importância da “idoneidade dos gestores das poupanças de tantos associados” ter de passar a ser validada através do registo prévio junto da Autoridade de Supervisão, Seguros e Fundos de Pensões “que, infelizmente, alguns querem ver adiado”.

Foi quanto bastou para que os três dos membros da administração lhe suspendessem as funções. O argumento da AMMG foi a quebra de confiança, mas a leitura que fica é de que se tratou de um ‘delito de opinião’. O administrador financeiro, Miguel Coelho, votou contra a suspensão, segundo apurou o Expresso. Coelho já tinha revelado no passado discordância face a decisões da Associação, como aconteceu no último aumento de capital do banco Montepio, que levou a mutualista a injetar €250 milhões na instituição então liderada por Félix Morgado.

Ribeiro Mendes diz-se tranquilo, mas não quer fazer comentários. Esclareceu no entanto que continua “a ir todos os dias à Associação”. “Perdi as funções mas não perdi o mandato”, disse ao Expresso. Foram estes os pelouros retirados: meios, serviços partilhados, compras, estudos mutualistas e secretariado geral. A ordem de serviço, noticiada pelo “Jornal Económico”, foi publicada a semana passada. Ribeiro Mendes estava de férias. Um administrador da Associação só pode ser destituído do seu mandato numa Assembleia Geral, o que até agora não aconteceu. Ribeiro Mendes, ex-secretário de Estado do ministro da Segurança Social, Eduardo Ferro Rodrigues, pode ser um dos nomes alternativos a Tomás Correia na corrida à liderança da AMMG.

O ‘castigo’ a Ribeiro Mendes mostra, segundo responsáveis da associação, “uma certa fragilidade” e revela um estilo de liderança autocrático. Tomás Correia tem tido alguns reveses nos últimos meses. Teve de recorrer a um truque fiscal para transformar prejuízos de €221 milhões em €587 milhões de lucros e tirar a associação de falência técnica — conseguiu-o graças a um benefício fiscal de cerca de €800 milhões. E teve de encontrar uma solução para a presidência do Montepio, Carlos Tavares, depois da polémica em torno de Nuno Mota Pinto. Tomás Correia é ainda arguido em processos de contraordenação do Banco de Portugal. Os tempos são difíceis. E as dificuldades da Associação tornaram mais evidentes em 2017.