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Caixa focada em cortar, descura negócio

Cortes e falta de orientação para o negócio da gestão, liderada por Paulo Macedo, estão a atrofiar a Caixa e a desmotivar trabalhadores

FOTO António Pedro Ferreira

Paulo Macedo põe travão no crédito e corta a direito. Comissão de Trabalhadores queixa-se de atropelos

Focado em cortar custos e em cumprir rigorosamente o plano de reestruturação da Caixa, Paulo Macedo tem colocado um travão na concessão de crédito do banco público.

Os números estão aí para o mostrar. A produção de crédito em 2017 ficou-se pelos 8%, bem abaixo da sua quota natural de mercado, que é superior a 20%. O número foi avançado por Paulo Macedo num encontro de quadros em fevereiro. Trata-se de crédito novo e é um valor baixo. Aliás, as contas de 2017 revelam que houve um decréscimo da carteira de crédito (valor bruto) de 7,8%. O único segmento em que cresceu foi nas autarquias, onde houve um aumento de €237 milhões, passando para €1265 milhões. Há, explicam economistas, genericamente três razões para se verificar um aperto do crédito: os bancos cobrarem taxas de juro elevadas, a malha do risco ser apertada ou a instituição não estar ativamente no mercado. No caso da Caixa, tudo indica que serão as duas últimas.

A CGD tem sido questionada pelo facto de estar a burocratizar e arrastar os processos de financiamento, obrigando a um visto do comité de risco independentemente do montante de crédito. O banco público esclarece: “A Caixa rege-se pelas melhores práticas do sector nesta área. Só a partir de determinado montante é que a operação é decidida em Conselho de Crédito, como aliás é prática na restante banca. Um administrador sozinho ou com um diretor não decide crédito”, diz fonte oficial.

O aperto de crédito na Caixa não se deve à falta de liquidez, porque o banco tem-na, como tem sublinhado o presidente, é uma questão de estratégia. Não sendo canalizada para financiar a economia e as famílias, a liquidez, diz fonte da banca, está em parte a ser investida em aplicações no Banco Central Europeu (BCE), onde a taxa de juro de depósitos está a níveis negativos (-0,4%). Ou seja, acaba por ser um investimento com prejuízo.

A equipa liderada por Paulo Macedo tem de cumprir o plano de emagrecimento — negociado com Bruxelas em troca de uma injeção de €4,4 mil milhões, dos quais €3,9 mil milhões foram suportados pelo Estado — até 2020 e está focada nisso. Em 2017 foram fechados 64 balcões e saíram da Caixa 547 trabalhadores, através de rescisões amigáveis.

Contratar fora da Caixa

As chefias de topo também estão a ser afetadas pela onda de saídas, ora porque estão próximas da reforma, ora porque querem aproveitar as condições de rescisões, que são atrativas. Algumas saem também porque há desmotivação e porque sentem que há falta de orientação para o negócio, disseram ao Expresso quadros da Caixa. Lamentam ainda que as decisões no banco público estejam cada vez mais dependentes da administração — no passado tinham mais autonomia.

A leva de saídas foi visível no edifício sede da João XXI. Foram deixados em aberto cargos relevantes na direção central. Paulo Macedo está, também por isso, a contratar fora quadros para ocupar cargos de direção. Uma estratégia que tem sido questionada internamente, por não se estar a promover dentro do banco. Interrogam-se sobre o que dizem ser uma contradição entre a urgência de corte de custos e a contratação de novos quadros.

A Caixa desdramatiza, e esclarece: “Desde o início da implementação do Plano Estratégico em 2017 saíram 10 diretores centrais — quase todos reformados — sendo que sete foram substituídos internamente, permitindo o rejuvenescimento da estrutura diretiva e a meritocracia. Saíram 41 diretores por reforma ou mútuo acordo. Em apenas três casos, a substituição dos diretores foi efetuada com recurso a pessoas que vieram de fora da Caixa, que trouxeram competências específicas que não existiam na organização.”

Algumas das novas contratações passaram pelo BCP, onde Macedo já foi administrador, como é o caso de Carlos Álvares (para presidir ao BNU Macau, em substituição de Pedro Cardoso), Miguel Namorado Rosa (gabinete de estudos) e Manuela Duro Teixeira (diretora central do gabinete jurídico). Há quem tenha trabalhado com Macedo quando este era ministro da Saúde, como é caso de Luís Vitório, ex-chefe de gabinete, que foi para a área de controlo. A mais recente contratação é Sandra Paramés, vem da área de auditoria da Deloitte para a auditoria interna do banco público.

A Caixa esclareceu que não vai contratar ninguém para o lugar de assessor da administração deixado vago por Carlos Tavares, hoje na liderança do Montepio. Revelou mesmo que irá “extinguir todos os cargos de assessores de administração até ao final deste semestre”.
Trabalhadores 
queixam-se à ACT

A pressão é grande na rede, há postos de trabalho a ser extintos e balcões a fechar. Nas direções comerciais, cujo pelouro é do administrador José João Guilherme, há trabalhadores que recebem ordem para se apresentarem nas agências para funções diferentes das habituais. Este é um pelouro onde os trabalhadores dizem que tem havido algum atropelo às regras — o fecho de balcões e a mudança de funções necessita de um visto prévio da Comissão de Trabalhadores (CT) e nem sempre isso tem acontecido. “A rede comercial da CGD sofreu uma reestruturação e as direções comerciais foram extintas. Muitos postos de trabalho deixaram de existir, o que obrigou a uma recolocação desses trabalhadores em novas funções. Segundo a lei, a CT deve ter conhecimento destas alterações e emitir parecer prévio. Não sendo vinculativo, é uma formalidade da qual esta Comissão não abre mão. Por isso, apresentámos queixa à Autoridade para as Condições de Trabalho (ACT)”, diz Isabel Rodrigues, coordenadora da CT da Caixa. Acrescenta que tem “deixado alertas todos os meses” no mesmo sentido sobre o fecho dos balcões à comissão executiva. A CT diz que tem tido queixas informais de trabalhadores sobre “comportamentos menos adequados” por parte de José João Guilherme. Questionada sobre esta questão, a Caixa respondeu: “Não se entende a necessidade de fulanizar com questões de carácter de uma pessoa que é administrador de banca de retalho pela terceira vez na sua carreira, sempre com bons resultados.”

Caixa BI encolhe

O contexto em que vive o Caixa BI, hoje o único banco de investimento português, é de incerteza face ao futuro. Desde que José de Matos deixou a liderança, em meados de 2015, já saíram do banco de investimento 42 trabalhadores. São hoje 136. Há o compromisso de “manter a autonomia, enquanto houver negócio”, diz a Caixa. E acrescenta: “O Caixa BI irá ter uma maior integração comercial e operacional (...) com o objetivo de fazer mais negócio com menos custos. Poderá haver, no futuro, atividades que tendencialmente passarão a ser apenas desenvolvidas na CGD.” No entanto, lembra que o Caixa BI tem competências diferenciadas em áreas como assessoria em fusões e aquisições, reestruturação financeira de empresas ou, entre outras, mercado de capitais.

A sangria não vai parar por aqui, nem no Caixa BI –– onde já foram noticiados cortes nas áreas da informática e de contabilidade — nem na casa-mãe, que tem em curso uma nova leva de rescisões e fecho de balcões. Tudo para que em 2020 Paulo Macedo tenha a casa arrumada e a Caixa com lucro.