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Banqueiros centrais dos EUA gostam do choque fiscal de Trump. Mas temem guerra comercial

YURI GRIPAS / Reuters

A política da Administração norte-americana é uma arma de dois gumes para a Reserva Federal (Fed), revelam as atas da última reunião do comité de política monetária realizada em 21 de março e divulgadas esta quarta-feira

Jorge Nascimento Rodrigues

A política da Administração Trump é uma arma de dois gumes para a formulação da política monetária da Reserva Federal (Fed), o banco central norte-americano, deixam transparecer as atas da última reunião em março, divulgadas esta quarta-feira.

A política orçamental expansionista de Trump, com o choque fiscal de corte nos impostos e um aumento da despesa federal gerando o crescimento do défice, vai aquecer a atividade económica nos EUA, levando a um crescimento mais elevado do que projetado pelos banqueiros centrais da Fed. O que vai favorecer a estratégia de subida da taxa diretora de juros do banco central, do processo de normalização da política monetária que foi expansionista em resposta à crise financeira de 2008 e à recessão de 2009.

Recorde-se que a reunião de março decidiu aumentar a taxa diretora em 25 pontos-base (0,25 pontos percentuais), elevando o intervalo dos juros para 1,5% a 1,75%. O mercado de futuros destas taxas aposta em mais duas subidas de 25 pontos-base cada uma ainda este ano, eventualmente nas reuniões de junho e setembro.

Por isso, “um número de participantes indicou que as perspetivas mais fortes para a atividade económica, juntamente com uma crescente confiança de que a inflação regressará a 2% no médio prazo, implicam que a trajetória apropriada para a taxa diretora de juros nos próximos anos será ligeiramente mais íngreme do que o esperado anteriormente”, sublinham as atas da primeira reunião do comité de política monetária dirigido pelo novo presidente, Jerome Powell. Ou seja, os banqueiros da Fed inclinam-se para uma normalização mais acelerada dos juros do banco central “nos próximos anos”, sem, no entanto, abandonarem o gradualismo no processo de subida.

Vai ser revista a orientação futura

As atas revelam ainda que a Fed irá oportunamente rever a sua orientação futura. Os participantes na reunião de março discutiram a possibilidade de rever “em algum momento” a linguagem do comunicado oficial publicado após as reuniões no sentido de passar a reconhecer que a política monetária “provavelmente passará gradualmente de uma postura acomodatícia [expansionista] para ser um fator neutro ou restritivo da atividade económica”.

Mas, a política orçamental da Casa Branca é, ela própria, uma arma de dois gumes. “Um número de participantes observou que a incerteza sobre a duração dos cortes nos impostos e os efeitos no défice federal são claramente “riscos negativos”. Recorde-se que, na segunda-feira, o Congressional Budget Office, divulgou previsões, estimando que o défice federal subirá para 804 mil milhões de dólares (€650 mil milhões) este ano, 4% do PIB, e perto de 1 bilião de dólares (€809 mil milhões) no próximo ano, em virtude do choque fiscal assinado por Trump e do pacote orçamental de 1,3 biliões (€1 bilião) aprovado pelo Congresso em março.

Maioria “forte” teme guerra comercial

Mas o maior risco vem do impacto global da política comercial protecionista da Administração. Uma “maioria forte” de banqueiros da Fed expressou preocupação em relação a uma guerra comercial que prejudicaria a economia norte-americana, e alguns participantes na reunião disseram inclusive que a recente turbulência nos mercados financeiros destacou os riscos para o crescimento, ainda segundo as atas.

A questão não é tanto o impacto direto na economia norte-americana das taxas alfandegárias anunciadas por Trump para o aço e o alumínio importados, mas a dinâmica de retaliação que se poderá gerar e de escalada subsequente. “Uma grande maioria dos participantes encara a perspetiva de ações comerciais de retaliação por outros países, bem como outras questões e incertezas associadas às políticas comerciais, como riscos negativos para a economia dos EUA”, referem as atas. Do sector agrícola norte-americano veio a maior preocupação, sublinham as atas, pois sente-se “particularmente vulnerável à retaliação”.