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O vinho com a marca do barro está na moda

A família Soares Franco já investiu €5 milhões na Adega José de Sousa, no Alentejo, onde faz vinhos em ânfora

d.r.

Na Adega José de Sousa, a venda dos vinhos de talha disparou. A China é um dos maiores clientes da empresa

O segredo para uma empresa de vinho crescer e conquistar a China pode estar no barro. É por isso que a família Soares Franco recuperou uma tradição iniciada pelos romanos, há mais de 2000 anos, para produzir vinhos de talha, na Adega José de Sousa, numa aposta de nicho e de criação de valor à volta de velhas ânforas em Reguengos de Monsaraz, no Alentejo.
Em 2017, a estratégia ajudou o negócio a crescer mais de 60%, com as vendas a atingirem os €3 milhões. O segmento dos vinhos que passam pelas ânforas disparou 90% e já tem uma fatia de 33% neste valor.

“Durante muitos anos, o mundo do vinho evoluiu para uma padronização de aromas e sabores. Mas hoje os consumidores procuram coisas diferentes em termos de castas e técnicas de produção. Querem vinhos que comunicam a identidade e as características únicas do local onde são feitos. Valorizam o que é genuíno, a autenticidade”, justifica António Maria Soares Franco, administrador da empresa.

Na Adega José de Sousa, também conhecida como Adega dos Potes, a sua família tem a maior coleção de ânforas de barro do país e, provavelmente, a maior coleção do mundo. Fermenta, aqui, uma parte das suas uvas, seguindo uma tradição ancestral que começa a estar na moda no mercado global e inclui técnicas como “partir a manta”, o que obriga a subir diariamente um escadote até ao cimo da ânfora para submergir a camada formada pelas películas de uva que cobrem a superfície e libertar, assim, o gás acumulado, evitando uma explosão.

São 114 ânforas, muitas das quais centenárias,“reunidas quase uma a uma, a bater às portas de tascas e cafés da região porque a arte de produção acabou por se perder”, conta António Soares Franco.

Quando os donos da José Maria da Fonseca compraram a adega, em 1986, as ânforas dentro de portas “eram poucas e estavam em mau estado”, o que os obrigou a investir no património histórico, ao mesmo tempo que reestruturavam e recuperavam as vinhas da Herdade do Monte da Ribeira e faziam uma adega nova, combinando tradição e as modernas tecnologias de vinificação, visíveis em 44 tanques de inox.

A conquista da China

A família já investiu €5 milhões neste projeto que inclui a vertente de enoturismo, com visitas e provas. “A José Maria da Fonseca tem a sua origem em Setúbal, mas as nossas raízes estão em Fronteira, e queríamos produzir, também, vinhos no Alentejo. Pensávamos comprar vinha, fazer uma adega, construir uma marca, mas apareceu esta oportunidade. É uma casa com história, onde os primeiros registos de produção de vinho remontam ao século XIX. Não hesitamos”, recorda o administrador.

Hoje, esta adega alentejana tem 72 hectares de vinha, com uma idade média de 30 anos, apresenta uma capacidade de produção de 850 mil litros/ano e coloca metade das vendas no mercado externo. No caso dos vinhos de talha, feitos nas ânforas de barro, seguindo métodos ancestrais, a quota da exportação passa os 60%, com destaque para a China (20%).

“É um destino em que o contacto pessoal e a formação dos nossos clientes é importante e isso acabou por permitir perceber que o mercado reagia muito bem a este vinho, com características únicas. Para o consumidor chinês tudo é ainda novidade. Talvez por isso não estranhe um vinho diferente, como este”, refere.

História, família e processos naturais de produção serão os trunfos que estão a ajudar estes vinhos de nicho a conquistar o mercado chinês. Mas no Brasil, nos Estados Unidos ou no Canadá a procura também está em alta. A tendência é global, apesar da oferta ser limitada. Neste momento, o principal produtor mundial será a Geórgia, onde as ânforas estão enterradas. Itália, Espanha e Portugal (Alentejo) também estão a recuperar a tradição.

Os funcionários da adega têm de subir para cima das ânforas e “partir a manta” com a ajuda de um pau

Os funcionários da adega têm de subir para cima das ânforas e “partir a manta” com a ajuda de um pau

d.r.

Nas experiências de vinificação em ânforas de três regiões do Alentejo — São Pedro de Corval, Vidigueira e Campo Maior — a equipa de enologia da Adega José de Sousa, liderada por Domingos Soares Franco, prefere a primeira. “A origem do barro reflete-se no resultado final e, curiosamente, São Pedro de Corval é a zona mais próxima da adega”, refere o administrador desta casa onde o objetivo é conseguir “repercutir a talha dentro do vinho” feito com uvas de uma vinha que foi plantada nos anos 50.

E esse é um trabalho em desenvolvimento porque apesar da adega fazer vinho em ânforas desde o século XIX, a família Soares Franco não conhece o perfil do antigo vinho de talha. Quando os atuais proprietários compraram a adega, havia poucos registos e as garrafas em stock eram quase inexistentes. Sem referências enológicas sobre o caminho a seguir, a família tinha apenas uma opção: “Havia uma colheita histórica da Adega José de Sousa, de 1940 e o que fizemos foi comprar algum desse vinho tinto velho num leilão em Inglaterra e procurar mais garrafas para fazermos uma coleção própria que pudesse servir de referência à enologia. As Pousadas de Portugal, por exemplo, tinham esse vinho na sua carta e nós fomos lá comprar”, recorda o administrador.

No ano passado, para “ajudar a comunicar esta identidade da adega”, foram lançados os vinhos Puro Talha, um tinto e outro branco, 100% feitos em ânfora, e vendidos ao público entre os €30 e os €35. Nos rótulos José de Sousa, José de Sousa Mayor e J, os preços variam entre os €8 e os €50. O Montado e Ripanço oscilam entre os €3 os €6.

Com a capacidade de produção de vinhos de talha limitada às ânforas existentes, a empresa está a trabalhar para ver os seus preços subirem. Quer garantir o crescimento futuro através do aumento da procura e da notoriedade dos seus rótulos. E quer continuar a reforçar a aposta exportadora. No currículo, apresenta prémios e distinções como o terceiro e o quinto lugar conquistados pela marca José de Sousa no top 100 mundial da Wine Enthusiast dois anos seguidos, em 2015 e 2016.