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Já conseguiu respirar fundo na sua rua, hoje?

Informação 
em tempo real sobre os tempos de espera dos transportes 
nas ruas de Lisboa. Uma prática corrente, amiga do cidadão


FOTO TIAGO MIRANDA

A cidade está mais interativa do que nunca e atenta às soluções tecnológicas que simplificam a vida urbana e o dia a dia dos cidadãos

Se não conseguiu encher os pulmões sem inalar um grama de mau cheiro ou uma micropartícula de uma qualquer poeira irritante, mude já de atitude ou, se puder, escolha outra rua ou mesmo outra cidade para viver. Se, para si, aquele gesto é já um hábito ou uma rotina com a qual não perde um segundo de preocupação, então está de parabéns. Você e a sua cidade encontram-se no caminho certo e inteligente.

Provavelmente, nos lugares de estacionamento aí mesmo ao lado de casa até já se tornaram presenças habituais um ou dois carros elétricos que, de vez em quando, cobiça aos seus vizinhos. E lá mais à frente, ao lado das árvores, já está plantado um ponto de carregamento para esse tipo de automóveis. É a mobilidade elétrica a assumir contornos de alguma normalidade, apesar de ainda lutar contra duas grandes barreiras: os elevados preços dos carros (em comparação com os de motor de combustão) e, por outro lado, a fraca autonomia das suas baterias, que, em média, não lhes permitem andar mais de 200 quilómetros sem serem recarregadas. Mas isso já começou a mudar.

Informação para baixar os níveis de stresse

Se abdicar do automóvel para as deslocações diárias e preferir o transporte público, em Lisboa, por exemplo, pode recorrer aos tradicionais autocarros, que já têm, há alguns anos, um painel informativo sobre os tempos de espera de cada uma das carreiras (ver foto), o que pode ajudar a diminuir os níveis de stresse típicos de qualquer período de espera. O espaço envolvente, que durante muito tempo esteve completamente entregue a si próprio, tem agora um ar moderno, limpo e pintalgado de verde, com as árvores e os arbustos a ganharem volume e até uma certa patina. Com sorte, dispõe de internet grátis enquanto espera pelo autocarro e também dentro dele em todo o trajeto. O solo da cidade, por onde vai decorrendo a sua deslocação diária, esteve durante vários meses em obras (até porque cheirava a eleições autárquicas) e, na verdade, foi uma maçada enorme e infindável. Mas, bem vistas as coisas, se calhar a nova ciclovia que comeu alguns metros de largura da avenida aos costumeiros automóveis, que se afunilam à medida que nos aproximamos do centro, até faz sentido.

Se conduzir de noite em Viseu, por exemplo, vai ver leds em quase toda a cidade e, em breve, luzes que se acendem nos quarteirões em função da luminosidade do dia — recorrendo a um relógio astronómico. A cidade tem também chips nos contentores do lixo para os carros de recolha saberem por que ruas devem passar e contadores de água inteligentes que avisam quando uma torneira foi deixada aberta. Apostando no empreendedorismo tecnológico na área das cidades inteligentes e internet das coisas, o município criou uma incubadora tecnológica e captou 24 novos investimentos, que representam mais de €137 milhões e 1700 empregos.

Uma visão para a cidade

Para criar uma smart city não basta ter boa conectividade à internet. Ou acesso a tecnologia avançada e grandes quantidades de dados. Estes são elementos-chave, mas não chegam. “A primeira geração de cidades inteligentes estava demasiado presa às soluções tecnológicas”, explicou em 2017 à revista “Raconteur” Simon Joss, codiretor da Iniciativa para as Cidades Ecológicas da Universidade de Westminster. E acrescenta que o foco deve estar “na forma como a tecnologia inteligente pode melhorar a política e o planeamento urbano” e não em procurar simplesmente soluções para essa tecnologia.

É por isso que desenhar cidades inteligentes passa também por — partindo de dados de cidadãos, trânsito, consumos de energia e níveis de poluição, entre outros — pensar em estratégias para otimizar áreas como a da governação, mobilidade, qualidade de vida, eficiência energética e ambiental, economia e inovação. A nível mundial, a expectativa é que o mercado das cidades inteligentes esteja avaliado em 3,5 biliões de dólares (€2,8 biliões) em 2026, crescendo cinco vezes numa década. E que, consequentemente, o bem-estar ambiente das cidades e a qualidade de vida dos cidadãos saia a ganhar.

Incubar cidades e projetos

Em Portugal, 135 dos 308 municípios já estão atentos ao tema das cidades inteligentes. Lisboa, Porto, Viseu, Braga, Coimbra, Aveiro, Águeda, Guimarães e Cascais são alguns deles. Além destes, várias empresas têm procurado soluções para melhorar a conectividade, os recursos e a inovação nas cidades. No ano passado, por exemplo, a startup portuguesa Pavnext venceu o concurso Big Smart Ideas, sendo assim escolhida para testar nas estradas de Cascais o seu sistema de prevenção de acidentes e produção de energia elétrica. Os pavimentos da empresa permitem não só reduzir a velocidade de circulação dos veículos sem qualquer ação dos condutores mas também captar dados de tráfego em tempo real e a energia cinética dos veículos para transformá-la em energia elétrica.

“O país acordou para este tema, e as cidades, de diferentes dimensões, estão a fazer um caminho de boas práticas que merecem ser vistas e replicadas”, aponta ao Expresso Almeida Henriques, presidente da Câmara de Viseu e da secção Smart Cities da Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP), que inclui 34% dos municípios e 50% da população.

Destinada a acelerar ideias e inovação, esta secção da ANMP funciona como “uma incubadora de cidades e projetos”. Nos últimos meses, vários municípios andaram a debater boas práticas e linhas de ação para a inteligência urbana, no âmbito de uma digressão por sete cidades do país que culmina na próxima semana (entre 11 e 13 de abril) na Smart Cities Summit, no Centro de Congressos de Lisboa, onde estarão reunidos centenas de autarcas, empreendedores e especialistas a discutir as cidades do presente e do futuro.