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Luzes, câmara... descoordenação

A diminuição dos lugares de estacionamento é uma das questões que estão a afetar as filmagens na capital

d.r.

Lisboa é a cidade mais procurada mas aperta condições para filmar. Produtores criticam e questionam incentivos

As obras em Lisboa e a preocupação com a qualidade de vida dos moradores estão a condicionar a realização de filmagens na cidade, o que está a gerar críticas por parte dos produtores, que questionam também os critérios de acesso aos incentivos fiscais às produções audiovisuais.

Apesar do aumento da procura de Lisboa, Rita Rodrigues, coordenadora da Lisboa Film Commission, entidade que gere as autorizações para gravações em espaços públicos na capital, diz que há uma estagnação das receitas das produções internacionais. “2017 foi um ano sui generis, com muitas obras na cidade e menos locais disponíveis para filmar. Houve também um maior cuidado com os moradores, com os visitantes e com quem trabalha na cidade para não gerar conflitos”, explica Rita Rodrigues, para justificar a diminuição das filmagens perante a explosão que se tinha vindo a sentir desde 2013.

“Temos preocupação (com os moradores) sempre, mas em 2017 foi mais no sentido de fazer face à pressão que vários eventos criaram na cidade”, acrescenta a responsável da Lisboa Film Commission, quando questionada se, no passado, não era tida em conta a qualidade de vida dos moradores, que em dias de filmagens perdem lugares de estacionamento ou deixam de ter acesso a algumas ruas.

De acordo com os dados da Lisboa Film Commission, em 2017 foram cobrados €486 mil em taxas municipais de filmagens, menos €123 mil do que em 2016, enquanto o número de pedidos ascendeu a 700, menos 94 do que no ano anterior.

Para Margarida Adónis, sócia e produtora executiva da Ready to Shoot, “a faturação está a diminuir porque a Câmara não dá autorizações e dá menos lugares de estacionamento, para agradar aos moradores que quando se queixam tiram votos”. “No tempo da vereadora Graça Fonseca [entre 2009 e 2015], única altura em que Lisboa foi realmente vista como um potencial destino de filmagem europeu, os pedidos tinham um prazo razoável e utilizavam os parâmetros de metros quadrados e números de lugares de estacionamento exequíveis às nossas necessidades, que são cinco lugares em cada rua pedida mais os necessários ao campo de filmagem. Agora, as regras desajustaram-se muito pois dão unicamente cinco lugares por décor, que têm de servir também para campo de filmagem e viaturas técnicas”, acusa Margarida Adónis, acrescentando que para filmar com clientes americanos são necessários 15 camiões por cada cenário de filmagem.

A responsável da empresa que se dedica a produções internacionais, nomeadamente de publicidade, garante que perdeu €7,3 milhões da produção da série “Picasso” para a Fox. Em causa esteve o facto de o “sistema de incentivos (às produções estrangeiras em Portugal) não abranger séries mas apenas o cinema” e por isso o projeto para o canal de televisão foi concretizado em Espanha.

Cautela com os incentivos

Paulo Branco, produtor de cinema da Leopardo Filmes, também aponta o dedo aos incentivos, nomeadamente o primeiro pacote de incentivos fiscais à indústria, por o considerar incompleto e mal feito. “Era uma situação que apoiava sobretudo as produções internacionais. Nenhum filme português podia ser candidato porque o nível mínimo de investimento previsto não se coadunava com a dimensão da indústria portuguesa”, argumenta Paulo Branco, mostrando-se cauteloso em relação aos pacotes de incentivos fiscais nesta área, que têm vindo a ser atualizados. “Tem de se ter cuidado porque a indústria portuguesa não está estruturada e isso pode aumentar os custos de produção”, alerta.

O produtor salienta que o importante é o apoio às produções nacionais, “não é andar a concorrer com outros países para trazer para cá o Woody Allen à força”. “É preciso haver receitas internacionais a vir para Portugal em verdadeiras coproduções e não sermos os capatazes de serviço dos estrangeiros”, sustenta. Outra das queixas direciona-se para a Direção-Geral do Património, pelo facto de o arrendamento de espaços e edifícios geridos por esta entidade chegarem a ser cinco vezes mais caros do que as locações privadas. “É mais barato filmar em património público em França do que em Portugal”, garante, revelando que o Convento de Mafra pode custar €10 mil por dia de rodagem.

Em relação aos dados da Lisboa Film Commission, Paulo Branco considera que não traduzem a dinâmica que se instalou no mercado em termos de produções internacionais. “Tem havido um trabalho importante da Lisboa Film Commission. É uma cidade para existir no imaginário cinéfilo, com o Wim Wenders e o ‘Lisbon Story’, e o Alain Tanner e o ‘A Cidade Branca’”, recorda o responsável pela produção dos dois filmes, que reclama para si o mérito neste caminho seguido pela capital enquanto cenário de filmes. E afasta a hipótese de o aumento do turismo comprometer a procura de Lisboa para filmagens internacionais. “Paris é das cidades onde se filma mais e está cheia de turistas. Desde que haja canais simples e claros e não uma multiplicidade de burocracias, o turismo não é uma limitação”, sustenta.

No início de janeiro foi publicado em “Diário da República” um despacho que determinou a criação do grupo de trabalho interministerial para desenvolver e implementar o ‘PIC Portugal — Filmar em Portugal’, que inclui a modernização e simplificação de procedimentos nesta matéria, bem como a criação de uma comissão de filmes nacional, agregadora das nove que já existem atualmente (Algarve, Arrábida, Açores, Centro Portugal, Lisboa, Madeira, Minho e Porto).

Filmagens a duplicar 
no 1º trimestre no Porto

O Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) é uma das entidades envolvidas neste grupo de trabalho. Carina Borges, porta-voz do ICA, avança que a seguir a Lisboa, as localizações mais procuradas para filmagens internacionais são o Porto, o Algarve e os Açores. No ano passado, o Porto teve 56 filmagens internacionais, o mesmo número que registou em 2016. “Comparativamente a 2017, o número de produções duplicou (desde o início de 2018) até março”, revela fonte do gabinete de comunicação da Câmara Municipal do Porto. O aumento da notoriedade da cidade a nível nacional e internacional é a justificação para o crescimento.

O centro histórico, Baixa, frente fluvial e marítima, Boavista, jardins do Palácio de Cristal e Parque da Cidade são as localizações mais procuradas, em que a publicidade tem um peso superior ao do cinema. Neste momento e nos próximos meses, no entanto, o cinema e o audiovisual vão dominar com duas longas-metragens (uma brasileira e outra indiana), uma série e uma curta-metragem espanholas, mais um programa para uma televisão japonesa, enquanto as filmagens publicitárias estão concentradas num anúncio para uma marca francesa de carros.

Na Centro Portugal Film Commission, os dados relativos a filmagens na região não estão compilados. “É uma entidade recente que iniciou atividade em setembro, com o propósito de atrair produções audiovisuais para a Região Centro”, justifica Bruno Manique, presidente da direção. “Estamos em conversações para ter algumas produções internacionais, nomeadamente da Índia, Reino Unido e uma coprodução portuguesa, espanhola e mexicana”, revela.

Margarida Adónis salienta a importância e urgência de uma film commission nacional porque “no Porto é de uma maneira, em Cascais é de outra e em Lisboa é de outra”. A produtora executiva da Ready to Shoot enfatiza o retorno que estas produções trazem para a economia, nomeadamente no turismo. “No âmbito da minha produtora deixamos nos hotéis por ano cerca de €150 mil de faturação paga diretamente pelos nossos clientes. Já para não falar que, provavelmente, deixamos por ano uns €50 mil de serviços de restaurantes”, afirma.