Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

A primeira vitória de Trump na guerra comercial

NICOLAS ASFOURI

EUA e Coreia do Sul anunciaram um novo acordo. Os analistas duvidam que a Casa Branca consiga replicar o sucesso

Donald Trump faturou esta semana uma primeira vitória política na guerra comercial que declarou contra os parceiros com que os Estados Unidos registam défices significativos. Os EUA e a Coreia do Sul anunciaram na quarta-feira um novo acordo comercial, onde Washington obteve concessões de Seul, e um entendimento de que não recorrerão à manipulação cambial como arma competitiva, ou seja, à desvalorização da divisa para obter ganhos de exportação.

Apesar de ser reconhecido como um primeiro sucesso da estratégia de Trump de negociação bilateral baseada numa retórica exacerbada e na ameaça de tarifas alfandegárias, os analistas duvidam que possa ser replicado. O acordo rápido com Seul e as concessões obtidas pela Administração Trump devem muito a fatores geopolíticos associados à situação na península coreana, nomeadamente à preparação de uma cimeira em maio entre Trump e Kim Jong-un, o líder da Coreia do Norte. “Em virtude das necessidades de segurança e do período crítico nas relações entre o norte e o sul da Península, os EUA conseguiram levar a melhor sobre a Coreia do Sul, o que poderão não conseguir repetir, sobretudo com a China”, sublinha Marc Chandler, responsável global pela estratégia de divisas na Brown Brothers Harriman, em Wall Street.

No conjunto dos nove principais credores comerciais dos EUA, a Coreia do Sul fica na ponta da cauda. O défice comercial com Seul representou, em 2017, apenas 1,8% do défice global em bens e serviços que os EUA registam. A China monopoliza 59% do défice, seguida do México e da Alemanha, a grande distância, com 12% cada. A Casa Branca conseguiu que Seul limitasse as suas exportações de aço para os EUA a 70% da média anual entre 2015 e 2017, excluindo, assim, a Coreia do Sul da aplicação das taxas alfandegárias de 25% sobre o aço que entraram em vigor a 23 de março. Seul isentou de uma taxa de 10% sobre importações de veículos o dobro do contingente até agora permitido aos construtores norte-americanos, e acordou em não aplicar aos carros made in USA as normas de segurança coreanas ou os testes ambientais. A Ford e a General Motors esfregaram as mãos, mas resta saber se os consumidores coreanos vão correr às compras dos veículos norte-americanos. Seul aceitou, ainda, estender até 2024 a taxa de 25% sobre a exportação de camiões coreanos. Apesar das concessões, Seul não conseguiu obter dos EUA a isenção da aplicação da taxa sobre a importação de alumínio.

Como refere Chandler não está garantido que a tática negocial funcione em relação à Europa, apesar do papel dos EUA na NATO e do recrudescimento recente da guerra fria com a Rússia. A 1 de maio termina a isenção temporária para a União Europeia da aplicação das taxas alfandegárias sobre o aço e o alumínio. As duas partes têm um mês para chegar a um acordo ou entrarem em guerra comercial.

O embate principal será com a China, depois de Trump anunciar um pacote de direitos aduaneiros sobre um universo de 60 mil milhões de dólares (€49 mil milhões) de produtos chineses. Washington ainda não clarificou a lista de importações chinesas que estarão sujeitas a uma taxa de 25% e o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, tem até quase final de maio para divulgar o plano de restrições aos investimentos chineses nos EUA. As duas partes já se sentaram à mesa para negociar, depois de Pequim anunciar um plano de retaliação modesto sobre 3 mil milhões de dólares (€2,4 mil milhões) de importações dos EUA, que, no entanto, poderá ser cirúrgico. O jornal oficial do Partido Comunista em língua inglesa, o “Global Times”, anunciou na quarta-feira que a divulgação da lista de alvos estará para breve.