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Risco Trump e crise nas tecnológicas castigam bolsas em março

YURI GRIPAS / Reuters

Os mercados de ações à escala global perderam 2,4% em março, com a Ásia e Nova Iorque a destacarem-se nas perdas. É o segundo mês consecutivo no vermelho. Lisboa escapou às quedas. Baidu, Facebook, Tesla e Twitter foram as quatro hi-tech com pior desempenho

Jorge Nascimento Rodrigues

O índice mundial MSCI caiu 2,37% em março. Permaneceu no vermelho pelo segundo mês consecutivo. O ciclo mundial de ganhos nas bolsas, iniciado no começo de 2016, parece ter tido um pico a 26 de janeiro.

A The Economist avisava esta semana: “Os investidores devem apertar os cintos. Vai ser uma noite atribulada”. Esse pode ser “o lema para os mercados em 2018”, acrescenta a revista britânica.

Em fevereiro, os mercados de ações foram castigados pela incerteza sobre a estratégia da Reserva Federal norte-americana (Fed), o mais importante banco central do mundo. Registou-se uma semana negra entre os dias 5 e 9 e o índice mundial MSCI recuou 4,36% no mês.

Em março, o risco Trump, associado a uma guerra comercial potencial entre as duas maiores economias do mundo, e a crise de confiança nas mais importantes empresas tecnológicas do mundo fustigaram as bolsas. A semana negra registou-se entre 19 e 23 de março.

A palavra chave passou a ser risco

Até pode ser que uma guerra comercial bilateral entre os EUA e a China acabe por não se concretizar e que Trump chegue a entendimentos com outros parceiros comerciais, como a União Europeia e os vizinhos Canadá e México, como conseguiu esta semana com a Coreia do Sul. Mas a incerteza está instalada. E agrava-se cada vez que o presidente escreve um tweet, decide avançar para assinar um memorando na Casa Branca ou realiza um comício.

A mudança no ‘sentimento’ dos investidores foi, assim, resumida por Dan Primack e Mike Allen no portal Axios: “Até agora, os mercados olhavam para o presidente Trump e para o sector tecnológico e viam bom tempo. Agora, os mercados olham para Trump e para as tecnológicas e veem risco”.

Os mercados ‘regionais’ mais castigados em março foram a Ásia e Estados Unidos, com os índices MSCI respetivos a perderem 2,6% nos dois casos. Na zona euro, o índice MSCI respetivo recuou 1,3% no mês.

Nos Estados Unidos, em Nova Iorque, situam-se as duas mais importantes bolsas de ações do mundo – o New York Stock Exchange, em Wall Street, e o Nasdaq, atualmente na Liberty Plaza, também na baixa de Manhattan em Nova Iorque – que representam no conjunto quase 40% da capitalização mundial. Qualquer turbulência na baixa de Manhattan abala o mundo.

Lisboa escapou ao vermelho

Lisboa escapou ao vermelho em março. O índice PSI 20 subiu 0,54% no mês, com quatro cotadas a registarem subidas mensais de dois dígitos: Altri, Energias de Portugal (EDP), F.Ramada e EDP Renováveis.

Março encerrou a negociação bolsista na quinta-feira na Europa, nas Américas, na Austrália, na Índia e em Hong Kong, mas importantes mercados asiáticos – nomeadamente Tóquio, Xangai, Shenzhen e Seul - ainda negociaram na sexta-feira por não ser feriado. Os fechos a 29 e 30 de março até foram positivos, mas não alteraram o sentido negativo do conjunto do mês.

Os melhores desempenhos em março registaram-se em alguns mercados emergentes e de fronteira (países que ainda não foram graduados para emergentes) com subidas dos índices bolsistas acima de 1%: Egito, Arábia Saudita, Vietname, Mongólia e Taiwan, por ordem decrescente.

As praças com maiores quedas mensais – acima de 3% - situaram-se na Europa emergente (Grécia e Polónia), Euroasia (Turquia), Médio Oriente (Arábia Saudita, Israel e Omã), África (África do Sul), Ásia (Austrália, China, Filipinas, Hong Kong, Índia, Indonésia e Tailândia), com a maior concentração de perdas, e América Latina (México).

Um mês péssimo para o mundo hi-tech

A par da turbulência gerada pelas decisões da Administração Trump (taxas aduaneiras sobre as importações do aço e do alumínio e ataque comercial à China), a crise de confiança nas mais importantes tecnológicas do mundo provocou uma onda de choque nas bolsas, em particular em Nova Iorque. Os investidores esperam uma vaga de regulação do sector das novas tecnologias nos EUA e na Europa.

O índice Nasdaq composto, da bolsa das tecnológicas, recuou 1,6% em março. O índice do Nasdaq só para as cotadas da Internet perdeu 1,57% no mês. No índice S&P 500 de Wall Street, o sector das tecnológicas perdeu 2,4% durante o mês. Nas mais importantes tecnológicas, escapou a Intel, que registou ganhos de quase 9% em março.

O mundo das novas tecnologias está a passar um mau bocado. A crise de confiança foi espoletada pelo escândalo envolvendo o Facebook, mas abrange o problema da privacidade e da segurança dos dados em todo o sector.

Além disso, Trump deu 60 dias ao secretário do Tesouro Steven Mnuchin para avançar com um pacote de medidas de restrição a investimentos chineses nos sectores tecnológicos norte-americanos. Em 2017, o principal destino de investimento direto chinês nos EUA foi o sector de componentes eletrónicos e informática (mobilizando 29% do total de investimentos), só, depois, seguido do imobiliário, do sector financeiro e segurador, e da indústria automóvel. O modelo de negócio atual do sector tecnológico norte-americano sente-se, também, ameaçado por eventuais medidas protecionistas da Casa Branca, pois o segmento de importações onde há o maior défice com a China é o das componentes eletrónicas (36% do défice total com a China em 2017). A fileira das tecnológicas norte-americanas está profundamente entrelaçado com as cadeias mundiais de fornecedores neste sector.

O presidente norte-americano deitou ainda mais gasolina na fogueira ao voltar a atacar nominalmente a Amazon, responsabilizando-a pela "morte" dos centros comerciais e do pequeno comércio e por fugir aos impostos com a estratégia internacional de otimização fiscal.

Pânico financeiro foi superior no mercado das tecnológicas

A volatilidade no sector das tecnológicas regressou em força em fevereiro e março. Conhecido pelo acrónimo VIX, o índice de volatilidade sinaliza o pânico financeiro.

Depois de picos acima de 30 em fevereiro, o VIX ligado ao Nasdaq 100 fechou no final de março em 26,68, depois de ter chegado a 30,19 a 28 de março. São níveis próximos do dobro do início do ano.

O índice de volatilidade associado às tecnológicas atingiu níveis mais elevados do que o VIX ligado ao índice S&P 500, que serve de referência para o pânico financeiro em Wall Street – esse índice fechou o mês em 19,97 e chegou a subir até 25 em março.

O grupo das quatro com pior desempenho

O maior estrago registou-se no chamado índice FANG Plus, que abrange 10 empresas de topo das novas tecnologias, incluindo as quatro cotadas do acrónimo FANG propriamente dito (Facebook, Apple, Amazon e Google/Alphabet) e mais seis norte-americanas e chinesas: Alibaba, Baidu, Netflix, Nvidia, Tesla e Twitter.

O FANG Plus afundou-se 7% em março. Os piores desempenhos mensais neste índice foram registados para a Tesla, com uma quebra de 22%, a Baidu chinesa, com um recuo de 10,6%, o Facebook, com uma descida de 9,2%, e o Twitter, com uma queda de 9%. Neste grupo de 10, a Netflix escapou ao vermelho, com uma subida de 1,7%.

Ocorreu, este mês, uma confluência de más notícias sobre o sector ou acerca de eventos futuros que o poderão afetar.

A crise de confiança no Facebook lidera as manchetes e o problema da segurança de dados contagiou o Twitter. Mas juntaram-se os problemas técnicos com a Uber (o acidente mortal em Temple no Arizona com um veículo sem condutor) e a Tesla (mandou recolher 123 mil veículos do modelo S devido a problemas na direção hidráulica) e o ataque nominal do presidente Trump à Amazon fundada por Jeff Bezos.

Bezos e hi-tech chinês na mira de Trump

A respeito do risco político que corre a empresa de Bezos, o multimilionário número um da atualidade, o portal de notícias Axios publicou um artigo esta semana sobre uma alegada "obsessão" do presidente norte-americano com a Amazon e o seu desejo de avançar com leis anti-monopólio que castiguem a líder do comércio eletrónico.

De acordo com aquele portal, sectores empresariais apoiantes do presidente Trump manifestaram revolta face à situação dos seus negócios, alegadamente "destruídos" pelo controlo cada vez maior do setor da distribuição pelo grupo de Bezos.

Por seu lado, as companhias chinesas cotadas em Nova Iorque temem o impacto de uma potencial guerra comercial e das medidas que o Tesouro venha a tomar no final de maio restringindo os investimentos chineses nos EUA.