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Indústria da madeira teme vaga de falências

nuno botelho

Importações poderão disparar e muitas empresas fechar quando esgotar o stock de madeira queimada

Em 1985 havia mais de 1200 serrações de madeira em Portugal. Agora não há mais do que 400 e é muito provável que daqui a dois anos haja ainda menos, o que pode resultar numa vaga de desemprego no sector, que atualmente dá trabalho a mais de 50 mil pessoas de forma direta.

Assim que se esgotar a madeira queimada que agora vai começar a ser armazenada em vários pontos do país (ver mapa) a indústria de transformação de madeira admite um de dois cenários: ou se aumentam ainda mais as importações ou, na pior das hipóteses, muitas das fábricas terão de fechar por falta de matéria-prima.

Vítor Poças, presidente da associação que representa o sector, teme que as empresas que sobreviverem possam vir a ter de importar entre 50% a 60% das suas necessidades. “Tenho a certeza absoluta de que muitas vão mesmo fechar, como já aconteceu no passado, aliás”. O presidente da Associação das Indústrias de Madeira e Mobiliário de Portugal (AIMMP) coloca ainda uma terceira hipótese: reciclar.

A madeira vai ser cada vez mais reutilizada ao mesmo tempo que os móveis com que vamos equipar as nossas casas poderão ter cada vez mais incorporação de outros materiais. Os móveis de madeira maciça passarão a ser um objeto quase de luxo e, por outro lado, haverá novos materiais que poderão vir a ser processados juntamente com a madeira.

“O sector vai ter de, imagine-se, começar a consumir eucalipto, em concorrência direta com as celuloses”, nota Vítor Poças. E, acrescenta, “vamos ter de nos adaptar a outras espécies para trabalhar como o choupo, a cerejeira, o carvalho, a nogueira e mais algumas vindas de outros países”.

Para este representante da indústria, a madeira de pinho não vai acabar em Portugal —pois também não ardeu tudo nos incêndios de 2017 —, mas a verdade é que “para se poder voltar a ter madeira em quantidade suficiente para as necessidades do mercado vamos ter de esperar pelo menos 15 anos, até que as árvores que agora se estão a plantar ganhem a dimensão necessária para serem transformadas”.

No meio do desânimo de olhar para milhares e milhares de hectares de área florestal ardida, Vítor Poças diz que, na verdade, muita da madeira devorada pelas chamas não tinha qualidade para a indústria. Ou seja, muitas árvores não tinham, pelo menos, os 20 centímetros de diâmetro necessários para assegurar um bom aproveitamento para a indústria do mobiliário. Isto significa que muitas das árvores ardidas servem apenas para estilha, contraplacados ou pellets.

Produtores não sabem onde pôr a madeira

Na verdade, ainda está por apurar o verdadeiro aproveitamento que muita da madeira — que continua no terreno — vai poder ter. E alguns produtores florestais começam já a ficar desesperados com a espera. É que os parques de armazenamento de madeira prometidos pelo Governo no início do ano tardam em aparecer.

Na semana passada o ministro da Agricultura, Capoulas Santos, e o secretário de Estado das Florestas, Miguel Freitas, estiveram em Mangualde a anunciar a criação formal de 26 parques, espalhados sobretudo pelo norte e centro do país. “Mas a verdade é que continuamos sem um lugar para colocar as nossas árvores queimadas e os prejuízos não param de aumentar”, adiantou ao Expresso um produtor florestal da zona de Arganil.

Luís Braga da Cruz, presidente da associação Forestis (que representa 17 mil produtores), alerta, por seu turno, para a necessidade de começar já a trabalhar na fase seguinte: a da reflorestação. E vai dizendo que não será fácil convencer os produtores a replantar pinhal, “vão querer sempre enveredar pelo eucalipto” que, por ter um período de crescimento mais rápido, também proporciona um retorno mais imediato.

Defende uma maior celeridade na aprovação de projetos florestais ao abrigo do Programa de Desenvolvimento Rural — PDR 2020, tal como sucede noutras áreas da agricultura, e reclama por mais subsídios à produção. “Devido à lentidão de processos há dinheiro do PDR 2020 que não chega a ser utilizado. Se calhar está na altura de colocar mais técnicos e mais competências ao serviço do processo de decisão”, remata aquele responsável.