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Terreno da Feira Popular pode ser vendido em lotes

A Câmara de Lisboa tentou vender o terreno duas vezes em 2015, sem sucesso. Agora alguns consultores dizem que não faltam interessados

António Pedro Ferreira

Decisão poderá adiar novo processo de venda ou afastar alguns investidores

Ana Baptista

Ana Baptista

Jornalista

Já lá vão pouco mais de dois anos desde que as duas hastas públicas lançadas pela Câmara Municipal de Lisboa para vender o terreno da antiga Feira Popular, em Entrecampos, não tiveram quaisquer interessados. O preço base — €135,7 milhões — foi apontado como uma das razões para esse insucesso, já que seria preciso juntar quase o dobro desse valor para a construção mas desde então o processo de venda parou, deixando ainda mais abandonada aquela enorme área de quase 4,3 hectares.

Em fevereiro de 2017, o presidente da Câmara, Fernando Medina, ainda comentou que o processo seria retomado no “momento oportuno para a defesa dos interesses do município e para podermos ser bem-sucedidos”, mas apesar de o imobiliário português ter começado a atrair mais investidores e de as expectativas dos consultores apontarem para que a venda avançasse no primeiro trimestre, isso não aconteceu. E, pelas informações mais recentes, poderá nem sequer acontecer este ano.

Segundo apurou o Expresso, a Câmara terá contactado alguns dos interessados que apareceram entretanto informando-os de que estaria a pensar vender o terreno por lotes em vez de lançar uma nova hasta pública pela área toda. Isso implicaria começar um processo de loteamento, ou seja, dividir o espaço em partes e definir o que o comprador poderia construir em cada uma delas e ainda o preço a que seriam vendidas.

Ou seja, alterar-se-ia aquilo que estava definido até agora para toda a área: perto de 144 mil metros quadrados de construção, dos quais cerca de 30% para áreas verdes, 25% para comércio, entre 25% a 35% para habitação e ainda uma grande área para escritórios.

Só depois de terminado este processo de loteamento — que pode demorar meses — é que a Câmara voltaria a fazer uma hasta pública dos lotes que, no limite, até podem ser todos comprados pelo mesmo investidor. Essa hasta pública teria, ainda, de ser aprovada pela Assembleia Municipal que poderia, tal como aconteceu com as anteriores, pedir uma audição pública aos moradores da zona. Por isso, se o loteamento avançar, só no final deste ano ou no início do próximo é que será lançada a venda.

O Expresso contactou a autarquia, mas até à hora de fecho desta edição não foi possível obter uma resposta, contudo, já em 2015, na proposta que fez para a aprovação da hasta pública, a câmara dizia que o volume de construção permitido poderia ser maior se a venda fosse lote a lote e que, consequentemente, isso poderia “maximizar a receita resultante da alienação”. Mas, na altura, acabou por tentar vender tudo de uma vez por entender que só dessa forma o futuro comprador faria um projeto integrado.

Investidores desistem?

Depois das duas hastas publicas vazias, a Câmara parece ter voltado à ideia de vender por lotes, contudo a intenção pode já ter afastado alguns investidores. Por exemplo, o Expresso sabe que a Fidelidade e a IKEA, que se tinham juntado para concorrer à venda do terreno, não deverão participar se ele estiver loteado. Contactada, a Fidelidade, que pertence aos chineses da Fosun, disse que neste momento não era oportuno falar sobre este tema.

É por isso mesmo que a ideia de vender por lotes divide alguns dos consultores imobiliários presentes no mercado. Para uns, tendo em conta o bom momento em que o mercado está, a Câmara conseguiria vender tudo de uma vez, mas para outros há agora muitos investidores interessados em comprar o terreno, seja em lotes ou tudo junto. Até porque se trata de uma “peça única”, diz ao Expresso o responsável pela área de investimento da JLL, Fernando Ferreira.

“Os nossos colegas de outras cidades consideram que é o melhor e o mais interessante terreno da Europa para se fazer um projeto de cidade integrado. Dizem eles que, neste momento, não há à venda mais nenhum espaço com aquelas características — dimensão, localização e pronto a construir”, diz ao Expresso o diretor-geral da B.Prime, Jorge Bota.

Terreno 
ao abandono

Há mais de um ano que parte dos quase 4,3 hectares de área está ser usada como estaleiro para obras da autarquia na cidade, neste caso a instalação de contentores de lixo subterrâneos. Ou seja, neste momento, lá dentro há uma retroescavadora, enormes amontoados de gravilha, camionetas de transporte e mais de 100 contentores de cimento para enterrar.

Mas este entra e sai de carros e pessoas não afastou as ratazanas — e até coelhos — que partilham o chão de cimento da antiga Feira que está cada vez mais coberto de ervas daninhas. Nem os tapumes escapam à degradação imposta pelo tempo, já que muitos estão partidos e cheios de lixo à volta.

É mais ou menos neste estado que está aquele espaço desde que a Feira Popular foi desativada em 2003. Há quase 15 anos.