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Renováveis põem eletricidade ibérica no preço mais baixo em quatro anos

Aposta nas fontes renováveis tem ajudado o país a reduzir a dependência do exterior

Lucília Monteiro

Portugal e Espanha alcançaram esta sexta-feira um preço anormalmente reduzido no mercado grossista de eletricidade. É preciso recuar a 4 de março de 2014 para encontrar valores mais baixos

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

O mercado ibérico de eletricidade (Mibel) alcançou esta sexta-feira um preço historicamente baixo: os contratos no mercado diário para o dia 30 de março afundaram para 4,5 euros por megawatt hora (MWh), o que corresponde a uma queda de 84% face aos valores de referência de quinta-feira.

O preço a que os produtores de eletricidade da Península Ibérica venderam a sua energia esta sexta-feira é também significativamente inferior ao valor médio a que a eletricidade tem sido transacionada desde o início do ano, na casa dos 50 euros por MWh.

Esta semana a Comissão Europeia divulgou um relatório notando que no último trimestre de 2017 o preço grossista na Europa rondou os 50 euros por MWh, tendo Portugal ficado entre os países com custos mais elevados.

A forte descida do preço grossista da eletricidade (que não inclui o custo do transporte e distribuição, nem os custos dos comercializadores, nem os impostos) deveu-se à forte produção eólica, complementada pela disponibilidade das barragens. Em conjunto, as fontes renováveis preencheram uma grande parte da procura de eletricidade a nível ibérico, deixando pouca margem para as ofertas (mais caras) das restantes tecnologias (incluindo as centrais termoelétricas a gás e a carvão). Além disso, nos feriados e fins-de-semana, a queda das atividades económicas leva, frequentemente, a uma redução do consumo global de eletricidade.

O funcionamento do mercado ibérico assenta no ordenamento das ofertas da mais barata para a mais cara. Há um conjunto de produtores que estão num regime especial, com prioridade de despacho da sua energia (entre eles os parques eólicos), e são esses os primeiros a entrar no casamento entre oferta e procura no mercado diário. Isso diminui o espaço para que os restantes produtores do mercado concorram pela procura restante.

Assim, neste mercado, dito “marginalista”, é frequente que em dias de muito vento e chuva, as eólicas e as barragens satisfaçam a totalidade da procura ibérica de eletricidade, deixando centrais normalmente mais caras de fora da equação.

Há quatro anos Portugal e Espanha tiveram também um período de preços particularmente baixos: de 6 a 10 de fevereiro de 2014 o preço grossista da eletricidade oscilou entre 1 e 3,20 euros por MWh. A 4 de março de 2014 o preço médio foi de apenas 2,10 euros por MWh.

Sol (ou vento) de pouca dura?

No Mibel, a plataforma de contratos diários de eletricidade mostra que os preços para este sábado já estarão mais altos, situando-se em 12,6 euros por MWh.

O sobe e desce é frequente e reage à evolução da procura, mas também às condições da oferta (consoante haja maior probabilidade de haver vento ou chuva).

De 10 para 11 de março o preço grossista também tinha afundado, de 32 para 8 euros para MWh, para a 12 de março voltar a subir para 38 euros.

O consumidor sai a ganhar?

Para as famílias portuguesas o impacto das subidas e descidas do preço diário da eletricidade é diminuto, uma vez que a maior parte dos consumidores contrata com os comercializadores tarifários de preço fixo, válidos normalmente por um ano.

No entanto, nos casos em que os tarifários estejam indexados aos preços do mercado grossista quedas acentuadas como a desta sexta-feira podem ter um impacto positivo na fatura do cliente final.

Ainda assim, todos os consumidores têm uma parte substancial da sua fatura exposta a componentes reguladas dos custos do sistema elétrico, que espelham encargos fixos a pagar pelo consumidor independentemente de o preço grossista da eletricidade ser zero, dez ou cinquenta euros por MWh.

Entre esses custos fixos estão os custos reais dos produtores do regime especial, que durante 15 anos beneficiam de uma tarifa pré-definida, atualizada à taxa de inflação, para venda da sua energia à rede.

No caso dos produtores eólicos, que compõem a maior fatia do regime especial, o regulador da energia estima para este ano um custo de aquisição da eletricidade de 93 euros por MWh.

Isto significa que embora essa energia eólica seja escoada no mercado ibérico a um preço de referência mais baixo (que esta sexta-feira atinge 4,5 euros por MWh), os donos dos parques receberão (da EDP Serviço Universal) a sua tarifa contratada (que varia de produtor para produtor mas em média ronda os 93 euros por MWh).

A diferença é depois recuperada nas tarifas de acesso à rede que são fixadas pela Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos e suportadas por todas as famílias, seja qual for o seu fornecedor de eletricidade.

Em todo o caso, mesmo havendo alguma rigidez nos preços finais da eletricidade para os consumidores domésticos, os movimentos de descida nos preços grossistas, sobretudo quando são mais prolongados no tempo, podem permitir aos comercializadores a compra de energia mais barata, favorecendo a oferta de tarifários mais competitivos ao cliente final.