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Mineiros da Somincor desconvocam greve pela segunda vez

Em apenas um mês, os mineiros da Somincor desistem de duas greves. Os trabalhadores querem melhores condições de trabalho e alteração dos horários no fundo da mina. A administração da companhia ameaça parar investimento de 260 milhões de euros caso não haja estabilidade laboral

O Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Mineira (STIM) desconvocou a greve anunciada para os dias 26, 27 e 28 de março, na mina da Somincor, em Neves Corvo (concelho de Castro Verde), a maior atualmente em atividade em Portugal.

Esta é já a segunda paralisação desconvocada por aquele sindicato no espaço de um mês na mina de cobre alentejana, que é também uma das maiores empresas exportadoras a operar em território nacional.

O Expresso tentou, insistentemente, obter um comentário do STIM sobre os motivos da anulação da greve anunciada para o início da próxima semana, mas sem sucesso. No entanto, na carta enviada, dia 23 de março, pelo sindicato à administração a que o Expresso teve acesso, pode ler-se que a greve é “adiada para momento posterior cujas datas oportunamente comunicaremos”.

Na base do pré-aviso da greve que hoje foi desconvocada estão, segundo o STIM, reivindicações para a reintegração imediata dos trabalhadores das lavarias (parte da mina em que os trabalhos são executados à superfície) nas funções que exerciam. Mas exigem também o fim do atual horário de laboração contínua no fundo da mina.

Por outro lado, os representantes do sindicato exigem a progressão nas carreiras e a negociação das reivindicações salariais para 2018. No fim da lista surge ainda o apelo ao fim da pressão e repressão sobre os trabalhadores.

Reuniões do sindicato cada vez menos concorridas

A administração da Somincor não comenta, mas o Expresso sabe que existe algum conforto em relação ao conflito laboral em curso, do lado da gestão da companhia pois, segundo algumas fontes próximas deste processo, são cada vez menos os trabalhadores que se reveem na estratégia de confronto adotada pelo sindicato. Há mesmo quem fale ao Expresso em reuniões de preparação de campanhas de luta, pelo STIM, onde compareceram pouco mais de 20 pessoas.

A empresa emprega mais de 2000 trabalhadores e tem em curso um projeto de investimento de 260 milhões de euros que já conta com 100 pessoas nos trabalhos subterrâneos e irá necessitar de mais 300 durante a fase de construção de infraestruturas à superfície.

Em entrevista recente ao Expresso, o presidente executivo da Somincor, kenneth Norris, disse que o conflito laboral pode colocar em risco não apenas a continuidade da mina de Neves Corvo, bem como a viabilidade do investimento de 260 milhões de euros, em curso.

Este projeto tem a ver com a aposta estratégica que a companhia mineira se propõe fazer na exploração do zinco, sem o qual a mina poderá não ter viabilidade económica.

O problema com que agora se confronta a maior mina em atividade em Portugal é que o preço do cobre – apesar de agora estar novamente em alta – caiu durante vários anos e, por outro lado, há cada vez menos nas entranhas de Neves Corvo, sendo que é preciso ir cada vez mais fundo para o retirar para a superfície, o que torna o processo cada vez mais dispendioso.

Apesar de ter um preço de mercado de cerca de metade do cobre, o zinco, cuja extração se pretende intensificar, pode ajudar a reequilibrar as contas da empresa.

Acontece que, para reorientar a sua estratégia para este minério, a empresa tem de realizar avultados investimentos e pretende dos trabalhadores um compromisso laboral para aumentar a produtividade. Os trabalhadores representados pelo sindicato, por sua vez, não concordam com as propostas da administração e ameaçam com novas paralisações.