Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

G20 pressiona Trump para evitar guerra comercial

A cimeira de ministros das Finanças e de presidentes dos Bancos Centrais das 20 maiores economias do mundo reunidas em Buenos Aires que termina esta terça-feira foi marcada pela tensão de um risco de guerra comercial global

Márcio Resende, correspondente em Buenos Aires

A três dias da entrada em vigor da decisão norte-americana de sobretaxar a importação de aço e de alumínio, os países do G20, responsáveis por 85% do PIB mundial e por 75% do comércio internacional, procuraram, esta semana, em Buenos Aires desativar a bomba provocada pela iniciativa protecionista da Administração Trump.

O secretário do Tesouro norte-americano, Steven Mnuchin, foi o alvo da pressão de todos os demais membros do G20 até ao final deste primeiro encontro do ano que termina esta terça-feira na capital argentina. Alemanha, Argentina, Brasil e França foram os mais diretos nas pressões. Nesse salve-se-quem-puder das tarifas de Trump, os argumentos usados por estes interlocutores sugerem aos Estados Unidos que o alvo do seu pacote de tarifas alfandegárias deveria ser apenas a superprodução de aço na China e não uma medida generalizada.

"Eu disse muito claramente a Mnuchin: esperamos que a União Europeia fique totalmente de fora dessas novas tarifas para o aço e para o alumínio porque a Europa não é a origem do problema", disse o ministro das Finanças francês, Bruno Le Maire, após reunião com o secretário do Tesouro dos EUA. "A solução não é uma medida unilateral nem uma guerra comercial", avisou. Na mesma linha, o ministro alemão, Olaf Scholz, fortaleceu o coro europeu.

Nos BRICS, o ministro da Fazenda do Brasil, Henrique Meirelles, preparava-se para uma reunião com Mnuchin para tentar persuadir os EUA a livrarem o Brasil dessa medida. "Os Estados Unidos indicaram a disposição de negociar. Nós estamos a aguardar para ver quais são os termos dessa negociação. Por outro lado, estamos a considerar outras medidas como através da Organização Mundial do Comércio. Não há nada decidido ainda porque não está clara qual é a posição em relação ao Brasil", explicou Meirelles esperançado. O ministro argentino da Fazenda, Nicolás Dujovne, também manteve reuniões com Mnuchin. O presidente Mauricio Macri já tinha feito o mesmo pedido, por telefone, ao seu amigo Donald Trump.

Da parte da China tem havido um total silêncio. Dois elementos de topo da delegação de Pequim, Zhou Xiaochuan, o governador cessante do Banco Popular da China, o banco central, e Zhu Guangyao, vice-ministro das Finanças não agendaram encontros com a imprensa nem concederam entrevistas.

O presidente do Eurogrupo, o ministro das Finanças de Portugal, Mário Centeno, veio a Buenos Aires integrado na delegação europeia. Realizou reuniões com os líderes europeus do comércio internacional, Alemanha, França e Itália. O objetivo foi criar uma frente europeia coesa que resista às medidas protecionistas dos EUA.

Na manhã desta terça-feira, Mário Centeno reuniu-se com os líderes do comércio europeu. Recebeu as agências de notícias estrangeiras, mas não falou com o Expresso. Num almoço com empresários portugueses na Argentina, Centeno disse que "uma guerra comercial não leva a lugar nenhum" e que a "história prova isso". Disse que o objetivo é evitar uma guerra comercial para a qual traçou a estratégia europeia: "Diálogo, diálogo e diálogo". A aposta é pelo comércio livre. Nesse sentido, Mário Centeno citou as negociações com o Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai).

Taxação digital, criptomoedas e infraestruturas

Além da questão protecionismo versus comércio livre, os principais debates neste encontro do G20 giraram à volta de impostos sobre o comércio on-line, regulação das criptomoedas e financiamento privado em infra-estruturas, um assunto introduzido pela anfitriã argentina e que interessa particularmente a economias emergentes como Brasil e Argentina cuja insuficiente infraestrutura afeta a competitividade.

Os impostos sobre as empresas de comércio on-line como Amazon, Apple, Facebook ou Google surge como um debate incipiente, mas como um caminho natural. Os países dividiram-se entre os interessados em aplicar impostos onde estão as sedes dessas empresas e aqueles interessados em aplicar taxas onde são feitas as transações.

Já a regulação das chamadas criptomoedas baseadas na tecnologia blockchain pretende responder à necessidade do combate às atividades ilícitas como lavagem de dinheiro, evasão fiscal ou financiamento encoberto ao terrorismo ou ao tráfico de drogas e de armas.

O consenso que se formou em Buenos Aires é que as moedas criptográficas devem ser consideradas ativos e não divisas. "Consideramos esse tipo de instrumento mais um ativo financeiro do que uma moeda porque nenhum banco central do mundo dá lastro", frisou o presidente do Banco Central do Brasil, Ilan Goldfajn.

O encontro vai emitir um comunicado final esta terça-feira.