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Os melhores entre os melhores (parte II)

Nuno Fox, José Carlos Carvalho e Rui Duarte Silva

Últimos perfis dos sete candidatos ao prémio da EY com o Expresso

Duas gerações da mesma família que tratam o cliente (e o café) por tu, um empreendedor que fechou a maior ronda de financiamento alguma vez levantada por uma empresa portuguesa (€42 milhões), um homem que cedo saiu de casa para dar a volta ao mundo num cruzeiro (e logo na primeira noite apanhou a pior tempestade da vida) e um empresário que começou o negócio (agora no top 5 dos maiores fabricantes mundiais de preparados à base de fruta) no pequeno alambique instalado nas traseiras de casa do pai. Falamos, respetivamente, de Manuel Rui Nabeiro e Rui Miguel Nabeiro, Nuno Sebastião, Mário Ferreira e João Miranda e das histórias de vida e sucesso empresarial que os levaram a estar entre os finalistas do prémio Empreendedor do Ano, atribuído pela EY e ao qual o Expresso se associa.

Após termos conhecido os perfis de três candidatos na edição da semana passada — Luís Moura e Silva, CEO da Wit Software, Luís Miguel Sousa, presidente do Grupo Sousa, e António Rios Amorim, presidente do Conselho de Administração da Corticeira Amorim — chega a hora de completar o lote de nomeados a ganhar este galardão com mais de 30 anos de história a nível global e que, desde 2006, já distinguiu em Portugal figuras como Belmiro de Azevedo, os irmãos Carlos e Jorge Martins ou Dionísio Pestana. Com duas galas a caminho (ver caixa), mais do que definir os grandes vencedores, o objetivo é reconhecer estes nomes marcantes do sector empresarial no país. E temos uma certeza: nenhum deles quer parar por aqui. Estejam nos 40 ou já nos 90 anos.

De Campo Maior 
para o resto do mundo

Rui Miguel Nabeiro/
/Manuel Rui Nabeiro
CEO da Delta Cafés/Fundador e
presidente do Grupo Nabeiro

“O meu avô dizia-me sempre: tens de acabar de estudar para vir trabalhar para o pé de mim. Não me deu grandes hipóteses”, conta, entre risos, Rui Miguel Nabeiro no complexo da Delta. Por avô, entenda-se o comendador Manuel Rui Nabeiro que, a partir de uma única carrinha para transportar café, fundou um império de alcance internacional com origem no interior do país, mais precisamente, na vila de Campo Maior. Estávamos em 1961 e Portugal era um país incomparável ao de hoje. “Ter conseguido a instrução primária já foi importante para os meus pais. Na minha altura, havia muitos analfabetos”, relembra Rui Nabeiro, enquanto olha para uma época onde o contrabando de café para o outro lado da fronteira era, muitas vezes, das poucas formas de manter uma vida digna. “Eu era insatisfeito com o que tinha e isso deu-me para fazer mais. Comecei com três amigos que precisavam também de mais para a sua sobrevivência. Foi caminhar, mas caminhar acreditando.” No fundo, foi “um contrabandista mais evoluído.”

Com a famigerada carrinha — que também servia “para passear ao fim de semana” e era um verdadeiro “carro utilitário” — começou o caminho de expansão. Sempre com a sigla “um cliente, um amigo” na cabeça, frase que foi criada logo no início da empresa e que reflete a estreita ligação com os clientes que Rui Nabeiro considera ser a grande força da empresa, algo que ainda lhe é muito querido quando está prestes a fazer 87 anos e ainda tem “poucos tempos livres.” O dia começa cedo, acaba tarde e a rotina de sempre termina com uma grande paixão, a leitura. A aliança entre as letras e o saber de experiência feita de quem “quer mais” e acredita que “tudo ainda está por acontecer” ao lado dos que esteve a preparar para o acompanhar.

Rui Miguel Nabeiro até queria ser piloto de aviões, mas o apelo familiar chamou mais alto e cedo começou a seguir o pai e o avô. “Cresci com o café, desde o verde ao torrado”, recorda o neto. Ao formar-se em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa, percebeu também que muitos dos conceitos que estava a aprender já tinham sido aplicados de forma pioneira na família, só que sem os nomes técnicos. Como a experiência de campo que o avô lhe pediu para conhecer mais de perto e o levou para os terrenos de produção no Vietname. Um contacto que define como “uma lição de crescimento” e que fez repensar muita coisa.”

Desde 2005 que assumiu de corpo e alma a herança como CEO da Delta Cafés e a “vontade de inovar e de crescer” que levou, por exemplo, à entrada no mercado das cápsulas de café (com a Delta Q). “Não nos resignarmos por termos chegado aqui.” O alinhamento familiar é algo que o preocupa e que está entre as razões para, todas as segundas-feiras, ir de Lisboa a Campo Maior, ao centro nevrálgico do grupo, para discutir as expectativas e prioridades para o resto da semana. A influência do fundador sente-se “na forma como se trabalha” e no desafio que foi “acrescentar algo à obra.” Prova que considera superada por alguém que se define como “dedicado, trabalhador, irreverente” e que não gosta “de ouvir um não.” Sem medo de se rir de si próprio quando faz “coisas completamente patetas” e que, imbuído do espírito genético, quer sempre ir à luta. Não é de admirar, quando o avô, ao lado de quem continua a caminhar, ainda reclama o “direito a viver mais anos.” A trabalhar.

Atitude? “Ou vai ou racha”

Nuno Sebastião
CEO da Feedzai

De Cantanhede para São Francisco, com passagem pelo espaço sideral. É um resumo muito por alto do percurso de Nuno Sebastião. Foi em Coimbra que estudou e cimentou conhecimentos (e com Luís Moura e Silva, outro dos finalistas ao prémio, como professor). Daí, partiu para a Agência Espacial Europeia onde “trabalhou como gestor do produto de simulação que permitia aos nossos astronautas terem um conhecimento mais profundo das missões que integravam.”
Entretanto, foi tirar um MBA para a London Business School e aí começou a germinar a ideia que haveria de dar fruto na Feedzai.

O caminho foi longo até à empresa que hoje é referência mundial pelo desenvolvimento no combate à fraude nos pagamentos com recurso à inteligência artificial. Juntamente com os cofundadores, todos formados em Engenharia, demoraram “dois, três anos” para encontrar “um problema suficientemente grande” para aplicar a tecnologia que tinham desenvolvido. Após muita luta e rejeições, o financiamento finalmente surgiu e permitiu dar forma à Feedzai, que continua a expandir-se. “Escalar uma empresa que já é global, duplicando o número de colaboradores em apenas um ano sem que as rodas da máquina comecem a saltar não é uma tarefa fácil”, atira Nuno Sebastião. O que faz com que a “definição de onde se vive” não seja “tão rígida como foi no passado.”

Mesmo com as duas bases, Cantanhede e São Francisco (tem ali “tudo em duplicado para evitar ter de andar com malas”), o local onde vive “é o mundo”, pois passa “substancialmente mais de metade do tempo a viajar.” Vicissitudes do êxito, relacionado com uma expressão muito utilizada na Feedzai, grit. Traduzindo por miúdos, quer dizer garra e é o que entende por “fazer o que for preciso para que as coisas avancem” e levantar logo depois de cair. “Isso, e acordar todos os dias com o pensamento de que ou vai ou racha.”

Aprender na “universidade do mundo”

Mário Ferreira
Presidente do grupo Mystic Invest

O pai trabalhava no porto de Leixões e Mário, ao ver os barcos atracar, sonhava um dia ser ele a estar dentro de um a dar a volta ao mundo. Haveria de o conseguir. “Várias vezes”, garante. Hoje, Mário Ferreira é dono de uma frota turística de grande relevo no sector e de um grupo com investimentos em diversas áreas. Com “o bom stresse, o stresse aliciante” de conseguir mais. Sempre virado para o estrangeiro, começou com 13 anos a ir para “campos de verão em Inglaterra para a apanha de morangos” onde ganha experiência e aprende a língua. “Adorava aquilo”, conta. Foi por isso, com a naturalidade própria da idade e da geração que, aos 16 anos, decidiu largar tudo e ir trabalhar para Londres, contra a vontade do pai.

Trabalhou num restaurante, passou a geri-lo e acabou por ter a oportunidade de viajar nos transatlânticos da Cunard rumo à circum-navegação inaugural. Que esteve prestes a acabar nas primeiras 48 horas. O primeiro porto de embarque foi Reykjavik (capital da Islândia) onde chegou “no pico do sol da meia-noite.”

Praticamente sem dormir, entrou para o barco rumo ao porto mais a norte da Noruega, onde enfrentou “a pior tempestade da vida.” Enjoado como uma pescada, com medo, achou “que não ia aguentar, que ia morrer.” Mal parou, queria sair para não repetir, mas “não havia forma de voltar.” Ainda bem, porque com a ajuda de um diretor galego (José Farto, “que depois veio trabalhar para mim!”) aguentou e cumpriu o sonho. Hong Kong, Austrália, as pirâmides do Egito ou as ruínas de Petra foram alguns de entre os muitos sítios que visitou e que o marcaram numa fase de vida que significou muito mais do que só passear.

“Foram cinco anos de universidade do mundo” e das quais guardou lições valiosas nas “ligações com as diferentes nacionalidades dos clientes e tripulação.” Regressou a Portugal, abriu um restaurante com as poupanças (que ainda hoje mantém) e, fazendo uso dos conhecimentos adquiridos e de apoio financeiro, comprou os primeiros barcos que estariam na origem da Douro Azul. “Na altura achavam que eu era alucinado”, conta, porque ninguém acreditava que o turismo à volta do Porto e do rio tivesse futuro. Um nicho por explorar em que Mário Ferreira viu uma oportunidade. É estar atento e informado ou, por outras palavras, o exercício de “antever tendências, quase de prever o futuro”, que considera muito importante. Isso e nunca esquecer a responsabilidade social, ele que subiu a pulso. “Custa-me visitar os navios e não conhecer as pessoas todas, o que agora é quase impossível”, reconhece. “Tento que qualquer um se sinta à vontade para vir falar comigo.” As viagens também serviram para inspirar a criação do Museu dos Descobrimento, no Porto, que recebe “140 mil visitantes por ano” e um espaço “que faltava a Portugal.”

Quando “99% dos clientes dos navios-hotéis são estrangeiros”, a dimensão internacional é essencial e por isso os eventos de lançamento dos novos barcos já receberam figuras como Sharon Stone, Andy McDowell ou Sara Sampaio. Uma vida preenchida que não merece dúvidas: “Repetia tudo outra vez.”

E tudo o alambique começou

João Miranda
Presidente da Frulact

Filho de um “dos pioneiros a induzir e aplicar inovação nos produtos lácteos em Portugal”, João Miranda nasceu com o negócio no sangue. E alimentou-o no quintal de família, local de nascimento da Frulact, que classifica como “única empresa nacional do sector alimentar verdadeiramente multinacional.”

Numa área muitas vezes considerada “como tradicional e com pouca capacidade de criar valor”, agarrou com as duas mãos o desafio de inovar e canalizar a “irreverência” para um caminho que o havia de colocar entre o top 5 dos maiores fabricantes mundiais de preparados à base de fruta para a indústria alimentar. Uma viagem que compara a uma montanha russa, com o “percurso a uma velocidade estonteante, não isento de perigos e riscos, com mudanças repentinas e muita, muita adrenalina.”

Nada seria possível sem o alambique das traseiras de casa, onde “começou uma empresa do zero”, apenas com a ajuda “de um funcionário de 17 anos”, a passar “por todas as áreas operacionais”, com muitas diretas consecutivas e a desenvolver “trabalho braçal esgotante.” Quando tinha um ano, a casa onde vivia “ardeu completamente” e quando era mais pequeno queria crescer para ser bombeiro como os seus heróis, com quem “vibrava sempre que via um ou ouvia uma sirene.” Na adolescência, a vontade era de fazer o que hoje se trata por empreendedorismo, se bem que a meta fosse “algo que não conseguia definir.” Andamento frenético que as “13 escolas diferentes” até ao 12º ano (“caso único!”) e o estudar Gestão à noite ajudaram a preparar, assim como a intuição que ali, mesmo à frente do nariz, poderia estar a oportunidade de começar um projeto de sucesso. Sem esquecer o trabalho até aos dez anos com a avó materna numa mercearia que lhe deu “ensinamentos únicos” na relação com fregueses e fornecedores. Percurso que ajudou a levar a empresa à expansão global, que tenta “estabelecer objetivos ambiciosos para a organização e concretizáveis pelas equipas” sem esquecer a importância da sustentabilidade. Para um “provocador nato” — alguém que tem como combustível “a pressão diária” — “desafiar a organização e fazê-la sonhar” dá “um prazer especial”. E quando um objetivo está prestes a ser concluído, já está “a agitar os corredores” com outro.

Claro que a vida também é feita das pausas do trabalho, nos momentos que está com a família, no refúgio de Barcelos que o viu nascer, no abstrair-se no todo o terreno. Entre as “chancas e a lousa” que utilizou em criança, aos “ténis e iPad” que hoje usa, vai a distância que o fez mudar a forma como olha o mundo.

Vencedor conhecido a 12 de abril

Conhecidos os nomeados e as obras de vida que os colocaram entre os finalistas do prémio Empreendedor do Ano — que junta EY e Expresso — o caminho está aberto para descobrir quem leva para casa a principal distinção. Será no dia 12 de abril, no Convento do Beato, em Lisboa, que se vai conhecer o sucessor de Miguel Leitmann e Bento Correia da Vision Box, vencedores na edição transata. Na cerimónia serão também reconhecidos os melhores empresários nas categorias Internacional e Inovação. Ao grande escolhido caberá a honra de representar o país na final mundial do prémio em junho, em Monte Carlo, onde Portugal partilhará o palco com os concorrentes de mais de 50 países. Até lá, é acompanhar todas as novidades deste projeto no semanário, visitar o nosso site dedicado ao prémio (expresso.sapo.pt/iniciativaseprodutos/entrepreneur-of-the-year) e seguir as plataformas sociais do grupo Impresa.

Textos originalmente publicados no Expresso de 17 de março de 2018