Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

BCE ‘segura’ emissões baratas de dívida pública de Portugal, Espanha e Itália

O Tesouro português pagou esta semana os juros mais baixos de sempre em leilões de obrigações a 10 e 30 anos. Espanha também pagou menos a 5 e 10 anos e Itália a 3 e 30 anos. Lisboa financia-se mais barato do que Roma. BCE não preanuncia fim do programa de compra de dívida e garante reinvestimentos

Jorge Nascimento Rodrigues

A semana ficou marcada no mercado primário da dívida soberana europeia por leilões de obrigações onde os Tesouros de Portugal, Espanha e Itália pagaram aos investidores juros historicamente muito baixos.

No caso português, esta semana, o Estado pagou inclusive as taxas mais baixas de sempre em emissões a 10 e 30 anos: 1,788% e 2,8% respetivamente. Após, os leilões, os juros (yields) no mercado secundário desceram para 1,755% e 2,757% respetivamente no fecho de sexta-feira.

Itália, apesar do choque político eleitoral de 4 de março e da incerteza sobre a configuração e estratégia face ao euro do próximo governo que sair do novo parlamento que abre a 23 de março, colocou, esta semana, dívida a 3 anos pagando 0%, face a 0,05% em emissão similar anterior, e 2,92% a 30 anos, abaixo de 3,16% na operação anterior da mesma linha obrigacionista.

Em Madrid, o Tesouro espanhol pagou 0,294% a 5 anos – contra 0,358% na emissão similar anterior – e 1,363% a 10 anos – contra 1,502% na operação anterior da mesma linha obrigacionista.

Registe-se que Portugal se financia agora a um custo mais baixo do que Itália. O prémio de risco da dívida portuguesa está em 118,4 pontos-base, o equivalente a 1,18 pontos percentuais acima do custo de financiamento da dívida alemã, enquanto o italiano regista 141,3 pontos-base.

BCE e investidores de longo prazo pressionam queda dos juros

O peso do Banco Central Europeu (BCE) no mercado secundário da dívida pública, em virtude da sua carteira de títulos dos três periféricos adquiridos através do programa de compras de ativos (vulgo QE, de quantitative easing), e de alguns investidores de longo prazo, a que os analistas chamam de sticky investors, é agora importante na dívida obrigacionista pressionando em baixa as taxas de colocação da dívida, permitindo os atuais níveis muito baixos em relação ao passado.

No caso de Portugal e Itália, estes dois tipos de credores detêm 40% da dívida obrigacionista, segundo dados do Commerzbank, numa nota distribuída a 15 de março. Em Espanha, o peso destes dois credores está ligeiramente acima de 50%. Espanha e Itália contam, ainda, com uma pequena percentagem de dívida detida por bancos centrais estrangeiros, considerados, também, naquela categoria de sticky investors.

No caso de Portugal, o BCE e o Banco de Portugal detinham 26% da dívida direta transacionável do Estado em final de fevereiro, segundo a última apresentação a investidores internacionais por parte da Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP). Para Itália, a carteira do BCE (e do Banco de Itália) representava 27% das obrigações (sob designação BTP) em final de dezembro passado. A carteira do BCE, aqui considerada, incluiu não só os títulos comprados ao abrigo do atual QE, mas, também, as obrigações adquiridas anteriormente no âmbito do programa conhecido pela sigla SMP, que funcionou entre 2010 e 2012.

A partir de 20 de abril, Portugal deverá contar com o pleno das três principais agências de notação – Fitch, Moody’s e Standardr & Poor’s – atribuindo um rating de investimento. A Moody’s analisa a situação portuguesa naquela data e os analistas esperam que retire Portugal da notação de ‘lixo financeiro’. Essa unanimidade reforçará a atração de investidores de longo prazo.

Não haverá “efeitos de penhasco”

O BCE, através de intervenções públicas esta semana do presidente e do economista-chefe, reafirmou que a retirada dos estímulos monetários será cautelosa e gradual, que não haverá decisões que provoquem “efeitos de penhasco” (na expressão de Peter Praet, o economista-chefe em entrevista à Reuters) e que, mesmo depois do fim do QE, perdurará um plano de reinvestimentos do capital que o banco for recebendo aquando das amortizações da sua carteira de títulos de dívida pública dos membros da zona euro.

Mario Draghi, na abertura de uma conferência em Frankfurt esta semana, avisou, também, os especuladores: o BCE vai “assegurar” que a política de estímulos “não é enfraquecida prematuramente por expetativas de uma primeira subida das taxas [diretoras]”.

  • O presidente do Banco Central Europeu reafirmou esta quarta-feira que a política monetária continua assente nos já famosos «3 P» – paciência, persistência e prudência. Mario Draghi abriu a conferência “The ECB and its watchers” em Frankfurt onde disse claramente que não vai deixar enfraquecer "prematuramente" a política de estímulos pelas expetativas de subida das taxas diretoras