Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Paciência, persistência e prudência. É a regra dos 3 P e Draghi não abdica dela

O presidente do Banco Central Europeu reafirmou esta quarta-feira que a política monetária continua assente nos já famosos «3 P» – paciência, persistência e prudência. Mario Draghi abriu a conferência “The ECB and its watchers” em Frankfurt onde disse claramente que não vai deixar enfraquecer "prematuramente" a política de estímulos pelas expetativas de subida das taxas diretoras

Jorge Nascimento Rodrigues

O Banco Central Europeu (BCE) só acaba com o programa de compra de ativos, vulgo QE (do inglês quantitative easing), quando a equipa de Mario Draghi estiver convencida que a inflação na zona euro caminha sustentadamente para a meta de “abaixo, mas próxima” de 2%.

Até lá, o BCE mantém a sua estratégia de “paciência, persistência e prudência”, os já famosos 3P repetidos por Draghi. Ainda por cima, há riscos e incertezas que permanecem no horizonte, sublinhou esta quarta-feira o presidente do BCE ao abrir a conferência anual “The ECB and its Watchers” organizada em Frankfurt pelo Instituto para a Estabilidade Financeira e Monetária. Essa orientação de cautela manter-se-á inclusive "mesmo quando, a perspetiva se mantiver menos dependente das aquisições líquidas de ativos".

Esta reafirmação da política monetária dá conforto aos países membros do euro que mais dependem, como pão para a boca, do QE e dos reinvestimentos que o BCE iniciou. As palavras de hoje surgem em uma semana em que diversos periféricos do euro colocam dívida obrigacionista, incluindo Portugal esta quarta-feira.

Draghi deixou, ainda, um recado à especulação nos mercados. O BCE vai “assegurar” que a política de estímulos “não é enfraquecida prematuramente por expetativas de uma primeira subida das taxas [diretoras]”.

“Não é porque o crescimento [económico] real é mais forte [na zona euro] que podemos declarar que o trabalho está concluído”, referiu Draghi, para acrescentar: “Apesar de estarmos, agora, mais confiantes do que no passado que a inflação está no caminho certo, permanecem riscos e incertezas”, acrescentou. E indo ao ponto que aos analistas e investidores mais interessa, o presidente do BCE frisou: “Há uma condição clara para acabarmos com o programa de compra líquida de ativos – temos de ver um ajustamento sustentado no caminho da inflação em direção ao nosso objetivo de uma taxa abaixo, mas próxima de 2% no médio prazo”.

Subida dos salários atipicamente lenta

Ora, esse ajustamento na inflação não é, ainda, convincente. As projeções mais recentes dos especialistas do BCE apontam para apenas 1,7% em 2020. O caminho é ascendente, já nada tendo a ver com o processo desinflacionário entre 2012 e 2015, mas “muitas das medidas ainda têm de mostrar sinais convincentes de uma tendência de subida sustentada”. Subida que tem de se revelar, também, "auto-sustentável", ou seja, a reflação dar indicações de que vai prosseguir mesmo depois de terminados os estímulos monetários.

Um problema – novo em relação a retomas económicas anteriores – é a dinâmica de crescimento dos salários que tem sido “atipicamente lenta”. Pelo que, Draghi aconselha cautela para não se “extrapolarem relações [entre variáveis] do passado no futuro”.

Riscos: Trump, valorização do euro e volatilidade

Além disso, há riscos adicionais que, no caso de se intensificarem, “conspiram para reduzir a nossa confiança no caminho da inflação”. O primeiro tem um fautor: Trump. As medidas protecionistas podem ter impactos na zona euro. O primeiro choque pode ser pequeno, diz Draghi, mas a segunda ronda de impactos pode “ter consequências mais sérias”, com uma escalada e efeitos negativos na confiança dos investidores.

O segundo risco é a valorização do euro desde início do ano passado e que tem sido alimentada “recentemente, mais por fatores exógenos”, que estão apara além da expansão económica. O terceiro é a volatilidade, que se observou nos mercados de ações em fevereiro.

Os pilares da política monetária

Draghi voltou a salientar esta quarta-feira que a política monetária atual não se baseia só em dois pilares mais falados: as compras de ativos e as taxas diretoras em mínimos históricos. Frisou os vários pilares – de modo a que fique claro que a política monetária do BCE é “previsível” e que evoluirá com peso e medida.

Voltou a chamar a atenção para os reinvestimentos do capital aquando do vencimento da sua enorme carteira de títulos adquiridos pelo QE. “Os reinvestimentos assegurarão uma presença contínua [do BCE] no mercado, muito depois das compras líquidas de ativos expirarem”, frisou. E tratam-se de fluxos consideráveis, acrescentou.

Peter Praet, o economista-chefe do BCE e membro do conselho executivo do banco, reforça na intervenção posterior a Draghi, este aspeto do papel dos reinvestimentos. Na intervenção publicada no site do BCE, Praet dá forte ênfase ao facto de que os reinvestimentos exercerão uma pressão no sentido das yields (juros) se manterem baixos.

Um outro aspeto fundamental da orientação futura (forward guiding) do BCE é a estratégia “sequencial” de ‘normalização’ da política expansionista, depois de terminado o QE. As taxas diretoras vão manter-se nos níveis historicamente baixos atuais “muito para além” do fim das compras.