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Norte continua a ser a prioridade para a Mercadona em Portugal

A empresa espanhola cumpriu o seu compromisso de reduzir os lucros para aumentar os investimentos em mais de mil milhões em 2017

Angel Luis de la Calle

Angel Luis de la Calle

Correspondente em Madrid

Os planos para a implantação da cadeia espanhola de supermercados Mercadona em Portugal prosseguem de acordo com o plano previsto. Em maio começarão as obras do centro logístico da Povoa de Varzim (dois armazéns de 12.000 e 5.000 metros quadrados, respetivamente), já está concluído o Centro de Coinovação de Matosinhos, vital para o conhecimento do mercado local e a formação de pessoal, e em 2019 abrirão as primeiras quatro lojas da cadeia, todas na área do Porto: Gondomar, a citada Matosinhos e duas em Vila Nova de Gaia.

Há planos sólidos para outros cinco estabelecimentos na mesma área geográfica e em Braga, mas ainda não saíram as licenças definitivas de construção. De momento, não está nas previsões imediatas que a firma espanhola ponha os pés em Lisboa. “Não gostamos dos centralismos”, explicou a este respeito Juan Roig, presidente e principal acionista da Mercadona na apresentação dos resultados da companhia na localidade de Puçol (Valencia), a que assistiu, a convite, uma forte representação dos meios de comunicação portugueses.

122 colaboradores contratados

Roig desmentiu que o seu desinteresse inicial na capital portuguesa esteja relacionado com o parente pouco êxito alcançado pelo El Corte Inglés na sua primeira aventura fora de Espanha, centrada em Lisboa. “Nós não somos distribuidores, somos outra coisa”. O presidente da Mercadona confirmou que já estão contratados e a trabalhar 122 colaboradores portugueses e que em breve começará a seleção e formação do pessoal das lojas. Roig confirmou um investimento este ano em Portugal de 25 milhões de euros. E insistiu em que a firma não vai vender produtos espanhóis em Portugal, mas sim produtos portugueses, adaptados à procura e aos gostos dos "chefes" (é assim que são tratados pela Mercadona os seus clientes) portugueses. Irmadona é o nome que a sociedade anónima ganhou em Portugal.

As lojas portuguesas pertencerão ao “modelo 8” (“ainda não conseguimos atingir a categoria 10”, diz Juan Roig) que está a ser implantado em Espanha no programa de reformas e novas construções: espaços mais diáfanos, corredores mais amplos, cores mais agradáveis e uma aposta firme na qualidade dos produtos a preços adequados e margens ajustadas.

As discussões e os debates internos sobre temas como a abertura aos domingos e feriados, a oferta de comida preparada e bebidas frias para levar, a instalação de cafeterias nas lojas ou a disponibilização de zonas wi-fi são assuntos sobre os quais se tomarão decisões, tanto em Portugal como em Espanha, nos próximos meses. De momento, há três inovações importantes: fecharam-se os congeladores, o que tornou consideravelmente melhores as temperaturas, os carrinhos de compras são em plástico, esquecendo para sempre os arrepios causados pelo chiar dos metálicos e já não se usam moedas recuperáveis para os libertar.

Tal como antecipou o seu presidente no ano passado, a Mercadona reduziu os seus lucros no exercício de 2017 em 49%, até alcançar os 322 milhões de euros. Foi um planeamento totalmente calculado e voluntário, motivado pelo desejo dos dirigentes de aumentar significativamente o programa de investimentos, neste e nos próximos anos, até totalizar 8.500 milhões de euros em 2023, “sem endividamento e com recursos próprios”, segundo Roig. A sociedade dispõe agora de um total de €5.110 milhões destes recursos. O presidente da Mercadona diagnosticou que “tínhamos engordado muito; tínhamos que entrar em dieta” e retirou importância a um recente relatório da Moody's que assegurava que a política de preços da empresa espanhola tinha afetado a concorrência direta: Carrefour, Alcampo, Día, Eroski e outros. As vendas cresceram 6,1% em 2017 e atingiram uma faturação total de €21.012 milhões, superando amplamente outras sociedades do país como a Repsol (€20.717 milhões) ou o El Corte Inglés (€15.504 milhões).

1627 lojas em Espanha

O grupo tem presentemente 1.627 lojas em Espanha, usadas todos os dias por uma média de 3,2 milhões de clientes. O total do pessoal é de 84.000 trabalhadores, incluindo os 5.000 novos empregados que entraram para a empresa em 2017. Juan Roig acrescentou que os fornecedores da firma empregam 545 mil pessoas que trabalham para a Mercadona, o que é cerca de 3% do total da força de trabalho espanhola. O volume de negócio da sociedade equivale a 1,7% do PIB de Espanha. A Mercadona é líder indiscutível neste setor e tem sabido dar-se muito bem com a classe média e média/alta, que protagoniza, além disso, uma sensível mudança de hábitos de compra, cada vez mais afastados das grandes superfícies na periferia das cidades, desejando lojas de proximidade, cómodas e muito bem fornecidas com produtos de qualidade a preços razoáveis.

A Mercadona vai passar para Portugal as suas políticas de pessoal, responsáveis por os trabalhadores do grupo serem aliados internos muito poderosos que exprimem grande satisfação em pertencer ao grupo. Em Espanha, todos os empregados têm contratos fixos à partida, um período de formação, remunerado, de um ano e recebem um salário líquido mensal acima dos 1.400 euros. Se cada departamento cumprir os objetivos fixados (98% conseguiram-no em 2017), a empresa divide um prémio anual equivalente a dois ordenados. No ano passado destinou 313 milhões de euros a esta remuneração variável, 35% dos lucros gerados. "O êxito partilhado sabe melhor", justificou Roig.

A sociedade mantém a sua estrutura familiar, na qual Roig, a sua mulher, as suas quatro filhas e o seu irmão Fernando detêm 80% do total da empresa. Rafael Gómez, um médico de Málaga proprietário por herança de uma cadeia de supermercados na Andaluzia que se fundiu com a Mercadona em 1998, e seus irmãos possuem um pacote de 7% da sociedade, que não pensam colocar em Bolsa. Juan Roig recebeu no ano passado, enquanto dividendos, mais de 66 milhões de euros e é, segundo a Forbes, a terceira pessoa mais rica de Espanha.