Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Os melhores entre os melhores (parte I)

Nomeados: Fazem parte do lote de escolhidos ao prémio Empreendedor do Ano 2018 e, em comum, têm uma ligação muito forte aos cargos que os fizeram estar entre os selecionados. Da esquerda para a direita: Luís Silva (CEO da Wit Software) teve que optar entre chegar a professor catedrático na Universidade de Coimbra ou dedicar-se de corpo e alma à empresa que está a competir com gigantes como a Google. Luís Miguel Sousa (presidente do Grupo Sousa) pegou na herança familiar de ligação ao mar para fazer um grupo de alcance global e em que os lanços de sangue estão sempre presentes. António Rios Amorim (presidente do Conselho de Administração da Corticeira Amorim) está agora ao leme de um grupo onde passou quase todo o tempo desde os sete anos

Sérgio Azenha/Nfactos, Nuno Fox, Rui Duarte Silva

Conheça três perfis dos sete finalistas ao prémio EY, em parceria com o Expresso

Em boa companhia. É como ficará o vencedor da edição 2018 do pré- mio Empreendedor do Ano em Portugal, projeto que junta Expresso e EY para reconhecer nomes marcantes do sector empresarial no país e o trabalho que desenvolveram na criação de empresas de raiz até aos píncaros das respetivas áreas. Das sete candidaturas finalistas delineadas pelo júri sairá o grande vencedor, que será conhecido numa gala a realizar em abril e que seguirá viagem rumo a Monte Carlo para fazer parte (e potencialmente ser o vencedor) da gala internacional.

Apesar de ter sido criado há mais de 30 anos nos EUA, a distinção só chegou a Portugal em 2006, quando o malogrado Belmiro de Azevedo foi o vencedor inaugural. Desde então, tem decorrido todos os anos sem interrupções e, entre as qualidades de visão e talento requeridas pela organização, já tivemos direito a vencedores tão diversos como os irmãos Carlos e Jorge Martins, da Martifer; Carlos Moreira da Silva, da BA Vidro; Dionísio Pestana, do Grupo Pestana; Manuel Alfredo de Mello, da Nutrinveste; ou a dupla Bento Correia e Miguel Leitmann, da Vision-Box.

Qualquer uma das sete candidaturas ao prémio deste ano tem aspirações legítimas de se juntar e escrever o próximo capítulo desta história. De origens e áreas profissionais distintas, todos têm em comum a ambição e a dedicação Conheça três perfis dos sete finalistas ao prémio EY que contribuíram para estarem numa lista deste calibre. Agora é conhecê- -los de outra forma. São perfis (três para ser mais exato, os restantes quatro chegam na próxima edição do Expresso de 17 de março) que deixam pedaços de vida para ajudar a entender o que motivou os escolhidos a trabalharem para atingir o sucesso e estar tão próximos de um prémio que reconhece não só isso mas também tem em conta o seu impacto no tecido económico e social do país. Entre a tecnologia, a marinha mercante e a cortiça, três relatos a caminho do resultado final.

Do ZX Spectrum até à Liga dos Campeões

Luís Moura e Silva
CEO da Wit Software

“Era aquilo a que na gíria se chama um miúdo marrão”, recorda Luís Silva. E durante muito tempo a sua grande ambição era seguir carreira académica na universidade tão umbilicalmente ligada à cidade que o viu nascer e crescer — Coimbra. Até que a tecnologia, sob a forma da mítica consola (para uma certa geração) ZX Spectrum se interpôs e ajudou a plantar uma semente que germinaria na árvore que hoje “luta com empresas de nível Liga dos Campeões”, como a Google, por exemplo. A história, essa, conta-se de forma simples: “Quando era adolescente, aprendi a programar na dita consola e, aos 17 anos, criei um programa para fazer cálculos de engenharia civil, coisas que demoravam um mês ao meu pai a fazer. No dia do teste, aquilo ainda demorou um bocado a aquecer, mas fez as contas corretas em 3, 4 minutos. Ele ficou emocionado e eu com um enorme adrenalina”, conta.

Vontade de trabalhar “em coisas mais reais” que lentamente começou a suplantar o sonho original e contribuiu para a primeira de duas “decisões fraturantes” na vida. A primeira, foi “recusar ir trabalhar para o Japão” para ficar por Portugal e construir algo a partir de cá. À segunda, já lá vamos. No final dos anos 90 já estava a frente de uma equipa de colaboradores que “exportava software para o estrangeiro” a partir do Instituto Pedro Nunes e em estreita ligação com a então Telecel (agora Vodafone Portugal). Foi a partir daí que nasceu a empresa que cria produtos de software para operadores de telecomunicações móveis que já foi considerada uma das 1000 mais inspiradoras da Europa pela Bolsa de Valores de Londres, por exemplo.

Percurso que não foi tão linear quanto possa parecer à primeira vista. A dividir o tempo entre a empresa e a carreira de docente (onde foi, por exemplo, professor de outro dos nomeados para o Prémio Empreendedor do Ano 2018, o fundador e CEO da Feedzai, Nuno Sebastião), a Wit Software era por vezes vista como um hobby e algo que não queria que “crescesse muito por ser algo que assustava”. Mas a semente de querer “fazer algo com impacto” não desapareceu, antes pelo contrário, e Luís Silva viu-se confrontado com a segunda decisão fraturante, a de escolher entre os dois amores. “Faltavam-me seis meses para ser professor catedrático e senti que tinha que tomar uma decisão. Escolher essa vida ou ser CEO a 100 ou 200%. Escolhi a segunda.” Sem arrependimentos, até porque a vida é “tomar decisões” e assumi-las. Com a certeza de um dia voltar à universidade para desta feita “ensinar empreendedorismo”.

Lições de uma vida que garante ser uma ”conjugação de humildade e ambição” e em que as raízes familiares vincaram que “o dinheiro não interessa nada” e que, alimentada pela inata vontade “de competir com os melhores” num sector onde o mundo é plano, “é irrelevante de onde somos”. Reconhece que a vontade de “seguir um projeto coletivo” ao invés de “uma carreira individual” foi um processo que exigiu “transformação pessoal”.

Para introspeção pessoal apostou no golfe (apesar de dedicar cada vez mais tempo a causas sociais desde os incêndios), que aprendeu a jogar há dez anos. No primeiro campeonato em que entrou, ficou em último. “No ano seguinte voltei a competir e ganhei. E logo desisti das competições. Só queria mostrar que conseguia.” Como conseguiu ir do ZX Spectrum até à Liga dos Campeões.

O armador que não queria ser grande

Luís Miguel Sousa
Presidente do Grupo Sousa

“O nome nasce de fora para dentro.” Pelo nome entenda-se o grupo que leva o seu apelido de família e que foi atribuído “por público e imprensa” antes sequer de ser o nome oficial da empresa. “Se já o tratavam assim, não havia necessidade de desperdiçar uma marca já criada”, lembra entre risos Luís Miguel Sousa. E não é para menos. De uma família “com tradições marítimas” e a partir de um pequeno negócio “do avô e quatro irmãos” criou aquele que é atualmente o maior armador português no transporte de passageiros e de carga. Baseado na Madeira e com mais de 50 sociedades relacionadas, a importância do Grupo Sousa é muito simples para o empresário: “É a minha vida.”

E a vida de outros, pois tem “centenas de funcionários” a depender de si. Um peso acrescido — “o de ter o nome na porta” —, que faz com que tente incutir às filhas a ideia de que “qualquer decisão tomada tem impacto que vai muito além dos acionistas.” A responsabilidade social é uma das suas principais preocupações e que o obriga sempre a pensar como seguir o melhor caminho possível para “evitar danos a terceiros”.

Uma curiosidade do caminho profissional de Luís Miguel Sousa é que o sector esteve prestes a perder um armador de alcance internacional para a Medicina, uma ambição da família (“como em tantas outras”) à qual não era alheio e pela qual mantém ainda algum apreço. Candidatou-se, entrou, e esteve um dia na faculdade no Porto. Foi o que bastou para perceber que “não queria entregar a vida a uma carreira que exige dedicação total e uma vocação muito específica”. Pegou nas malas e foi para Lisboa, onde tirou Gestão. Daí foi voltar para a Madeira e pegar nas bases familiares para nunca mais olhar para trás.

“Desde que estou na navegação que tudo foi surgindo naturalmente”, conta. No final dos anos 80, aproveitando a abertura da marinha mercante, começa a expandir o negócio e tomar conta de rotas como as de Madeira-Porto Santo, até então “perfeitamente incipientes”, ou dos Açores e Cabo Verde, por exemplo. No fundo, “fazer da insularidade uma força”.

Sem nunca colocar de parte os apelos sociais e de sangue que o fazem presidente da assembleia geral do Marítimo, e reservar “sempre tempo aos fins de semana para estar em família”, para Luís Miguel Sousa o trabalho foi sempre fundamental. Como “ninguém sai a saber nada da universidade”, a aprendizagem foi muito feita “on the job”, como diz. Entre outros feitos no processo de crescimento, dois dos que mais o orgulham são a presença como “o único representante português” do consórcio que detém a concessão do novo terminal de cruzeiros de Lisboa e a presença entre os 100 maiores armadores mundiais. Sem pretensões de “ser grande”, algo que nunca foi objetivo “e continua a não ser”. Mais que isso, pugna por “fazer bem e antecipar tendências com noção do que é o mundo”.

Nascido e criado para a cortiça

António Rios Amorim
Presidente da Corticeira Amorim

“Já estou há 30 anos na Amorim. Não foi algo que começou ontem. Sempre fui preparado para estar aqui”, atira António Rios Amorim. À frente dos destinos de uma das empresas portuguesas com mais influência internacional — e a maior empresa mundial de produtos de cortiça, matéria-prima onde Portugal lidera — a responsabilidade é enorme. Sobretudo quando se segue as pegadas de um nome marcante do mundo empresarial como Américo Amorim, que criou o grupo sinónimo de cortiça com as próprias mãos. “Substituir uma pessoa com o brilhantismo do meu tio não é possí- vel. Seriam precisas 10 ou 15 pessoas para fazer o trabalho que ele fazia sozinho”, garante. É preciso encontrar um caminho novo com noção do peso da herança e da “altíssima responsabilidade” que tem sobre os ombros. Que ao mesmo tempo “é um orgulho” e o enche de convicção que o futuro “pode ser ainda de maior sucesso”.

E, parafraseando José Mário Branco, o que andou para aqui chegar. Na empresa onde desde os sete anos passava todos os domingos, passado uns anos António Rios Amorim já distribuía salários aos funcionários. Fábrica onde aprenderia inclusive a conduzir como que num circuito improvisado. Não estranha pois que nunca tenha pensado noutra coisa que não fosse seguir o negócio familiar, sobretudo na componente da cortiça e na sua relação umbilical com o vinho, “uma grande paixão”. Por desafio do pai, foi estudar para o estrangeiro, primeiro para Inglaterra, depois para França (por causa da sua relevância enquanto mercado vinícola) e mais tarde nos EUA, onde passava “as noites a estudar e dias a visitar clientes e caves de vinho com os comerciais”. A maior aprendizagem, porém, reserva para o tio, porque acompanhá-lo “não foi um mestrado, foi um doutoramento!”

Nunca esteve fora do grupo, mas o início da carreira profissional propriamente dito, em 1989, foi fora da sua área da eleição, algo que confessa não o ter deixado “muito satisfeito na altura” por sentir que era um “chega para lá”. Agora, com o benefício da perspetiva, olha para este período como uma altura valiosa que permitiu diversificar competências e viver “experiências verdadeiramente únicas”, que lhe permitiu “ver o futuro”. Entre outras coisas foi administrador executivo da Amorim Hotéis, onde liderou o processo de introdução, em Portugal, dos hotéis Novotel e Ibis e foi um dos responsáveis pela fundação da Telecel. Passos sempre seguros rumo ao objetivo de sempre, a Corticeira Amorim, à qual chegou à presidência em 2001. Período no qual teve de enfrentar aquele que classifica como o maior desafio para o sector, a emergência de substitutos sintéticos para as clássicas rolhas de vinho, que alguns críticos reputados classificaram como superiores e que levou alguns mercados de referência a seguir a tendência.

Tratou-se de um “período quente” que obrigou a trabalho de sapa junto do sector para vincar o papel da cortiça e que obrigou a muitas conversas e horas de viagem. António Rios Amorim recorda uma viagem em particular em que uma ideia que “pareceu heroica” acabou por se “revelar desastrosa”. Tratou-se de uma ida à Austrália, onde a cortiça estava a receber “ataques da esquerda e da direita”. Marcou um jantar com seis pessoas influentes “com anticorpos” que achava que ia convencer com voluntarismo. “Não foi tortura, mas quase”, recorda. Foi um encontro de “alta tensão” em que apesar de ter a certeza do que falava no que tocava a projetos de investigação, “tudo soava a promessa”. O jantar terminou com um jarro de água “contaminado por TCA [composto químico relacionado com os desvios sensoriais que originam o gosto a mofo]” que o levou a sair-se com o seguinte repto: “Espero que a vossa água deixe de contaminar as nossas rolhas.” O esforço compensou e a crise foi em grande parte ultrapassada.

António Rios Amorim “coloca a empresa acima de tudo”. Não há nada que o faça rir como “os bons resultados” e o sentimento de “dever cumprido”. O segredo é gostar do que se faz e “ter disponibilidade para dar tudo à causa” com sacrifícios incluídos. Além da necessidade de “saber rodear-se de uma boa equipa”, diz que um bom gestor tem que “conhecer bem o negócio e o contexto” e não pode estar sempre a repetir que manda, o que “só quer dizer que não manda nada”. Para o futuro, deixa a vontade de “preservar os valores” que ajudaram a empresa a atingir e a manter-se na liderança. Tem a ambição de fazer melhor e não ficar preso aos louros do passado. “Não estou aqui para jogar para o empate.”

História de uma distinção trintona

Prémio da EY - ao qual este ano o Expresso associa-se – é atribuído em mais de 60 países e já leva 31 anos e uma longa experiência de reconhecer talento nos mais diversos sectores

Tudo começou em 1986. Foi a meio da década de 80 que a EY lançou o prémio “Empreendedor do Ano” nos EUA. O grande objetivo era reconhecer o perfil e o trabalho de empreendedores que se distinguissem pela capacidade de inovação, resiliência, visão, sucesso e impacto social. Uma lógica de promoção da inovação e do trabalho que cedo galgou fronteiras e chegou a cinco continentes para distinguir pessoas de todos os quadrantes da sociedade e trazer maior visibilidade a um campo que então ainda estava um pouco afastado do olhar público.

Apesar das muitas mudanças que três décadas inevitavelmente significam, e que colocaram o empreendedorismo no centro das discussões empresariais, a organização que todos os anos atribui a distinção não se desvia do propósito inicial de encontrar “pensadores frescos”, “negócios dinâmicos”, “visionários” ou “empreendedores sociais que trabalhem nos problemas mais urgentes da sociedade”. “Reconhecemos que o empreendedorismo não é acerca do tamanho, mas sim de um estado de espírito”, garantem os responsáveis internacionais da EY no manifesto que dá corpo ao prémio.

A Lunar Radiaton Corporation, a Allen-Edmonds Shoe, a Plexus e a Ashley Furniture Industries foram os primeiros recipientes de um prémio que desde então já se encontra presente em mais de 60 países e passou por mais de 150 cidades. Entre os laureados, não há como fugir a nomes de prestígio como o do CEO da Amazon, Jeff Bezos, ou Howard Schultz, fundador da cadeia Starbucks. Sergey Brin e Larry Page, da Google, assim como Reid Hoffman e Jeff Weiner, fundadores do LinkedIn, também estão entre os selecionados numa história longa que conhece este ano mais uma edição global após candidaturas que estiveram abertas até final de 2017. Herança pesada que não será mais do que um aliciante para quem for o escolhido.

Beato recebe vencedor de 2018

Foram semanas de deliberação — pontuadas por entrevistas aos empreendedores para traçar o perfil de cada candidato e da história da empresa conduzidas por uma equipa da EY — à volta das candidaturas reunidas em cima da mesa. Concluído o processo e conhecidos os nomeados, pelo júri chefiado por António Gomes da Mota, presidente não-executivo do Conselho de Administração dos CTT, os próximos passos são agora de reconhecimento do trabalho de cada um dos selecionados e de consagração, isto é, de saber quem é o grande vencedor do prémio Empreendedor do Ano. Informação que será revelada com pompa e circunstância no dia 12 de abril, com o Convento do Beato, em Lisboa, a servir de palco para a cerimónia onde ficaremos também a conhecer os melhores empresários nas categorias Internacional e Inovação. Ao vencedor do prémio principal caberá a honra de representar o país na final mundial do prémio em junho, em Monte Carlo, onde Portugal partilhará o palco com os concorrentes de mais de 50 países. Até lá, nesta edição e na próxima (de 17 de março) vamos dar a conhecer os perfis dos nomeados e, para acompanhar todas as novidades deste projeto a que o Expresso se associa, visite o nosso site dedicado ao prémio e siga as plataformas sociais do grupo Impresa.

Textos originalmente publicados no Expresso de 10 de março de 2018