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Trump tem novo muro. E é de aço

Estratégia. Trump pôs o alumínio e o aço na frente de uma guerra comercial. Quem paga são os consumidores

ilustração alex gozblau

Na América do alumínio e do aço há três dados que importa reter: os Estados Unidos são o maior importador mundial de aço, as suas compras ao exterior aumentaram 31% em 2017, para €23,3 mil milhões e a indústria do país usa apenas 72% da capacidade produtiva.

É este o cenário interno que levou o Presidente norte-americano, Donald Trump, a disparar um primeiro tiro contra o mundo. Fiel ao lema “America First”, escolhido para mostrar que quer colocar a América em primeiro lugar, com medidas protecionistas, impôs novas taxas alfandegárias de 25% sobre as importações de aço e de 10% nas importações de alumínio.

Pode ser o início de uma guerra comercial? Pode, mas “as guerras comerciais são boas e fáceis de ganhar”, garante Trump, também atento ao aumento de 18% nas importações de alumínio, uma matéria-prima que já viu o preço duplicar desde que ele chegou ao poder, no final de 2016.

Em todo o mundo soaram de imediato as campainhas de alarme. Na Europa, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, prometeu uma reação “firme e proporcional”. A comissária europeia do Comércio, Cecilia Malmstrom, falou de “milhares de empregos em risco”. Desmontou o argumento americano de defesa da segurança nacional, sublinhando que a Europa e os aliados da NATO não representam uma ameaça para os EUA. E garantiu que a Comissão Europeia está a falar com outros parceiros para uma resposta concertada.

E, como isso pode demorar algum tempo, estuda algumas “medidas rápidas”. É neste quadro que surge uma lista de produtos importados dos EUA, no valor de €2,8 mil milhões, de acordo com os números da balança comercial da União Europeia relativos a 2017. Os alvos são vários, dos cigarros ao milho e aos barcos. Há alguns itens cuidadosamente selecionados, das motos Harley Davidson, à ganga da Levis e ao uísque bourbon.

As contas da UE mostram que as exportações de produtos potencialmente afetados valem €6,4 mil milhões, somando o aço (€5,3 mil milhões) e o alumínio (€1,1 mil milhões). Assim, ao que o Expresso apurou, o primeiro pacote de contra-ataque pode evoluir. Tudo vai depender das medidas concretas tomadas nos EUA, onde Trump assinou quinta-feira os documentos para a entrada em vigor das novas tarifas, dentro de 15 dias, mas recuou na posição ofensiva, com o anúncio de que cada país pode negociar isenções um a um.

Moeda de troca na NAFTA

Ao seu lado, quando assinou os documentos, tinha trabalhadores a quem garantiu estar a defender os postos de trabalho. No entanto, as associações americanas que representam as indústrias do alumínio e o aço estão contra as tarifas. Receiam um impacto negativo na economia e na cooperação com velhos parceiros comerciais, antecipam falta de matéria-prima e sabem que há materiais específicos que os EUA não produzem e de que a indústria do país necessita.

Na verdade, se os EUA são o maior importador mundial de aço e a China é o maior produtor, com uma quota de 50% no mercado, o maior fornecedor do país é o Canadá, seguido do Brasil, México, Coreia do Sul, Rússia, Japão e Alemanha. No alumínio, continua a ser o Canadá a liderar as importações americanas.

É esta lista que justificou a convicção de alguns comentadores de que a ameaça de novas tarifas seria, também, uma ferramenta de negociação com o Canadá e o México para obter cedências na negociação de um novo Acordo de Comércio Livre da América do Norte (NAFTA). E Trump já anunciou que os dois países ficam “isentos por agora”. No futuro, tudo depende do acordo NAFTA, avisou.

Quanto a impactos, “no curto prazo, os EUA podem ficar a ganhar à custa do resto do mundo. O México e o Canadá, ficando isentos, também”, mas “a retaliação parece uma resposta óbvia, até porque se não houver reação podemos ter, dentro de seis meses, notícias iguais sobre o petróleo”, afirma ao Expresso Luís Aguiar-Conraria, professor da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho. “O objetivo principal de Trump é defender a indústria do aço nos EUA, mas a longo prazo o efeito deste movimento de defesa pode ser catastrófico, se desencadear uma guerra comercial”, acrescenta. E a fatura final será paga pelos consumidores: mais taxas significam sempre produtos mais caros.

A primeira baixa da tensão criada por Trump surgiu na própria Casa Branca, com a demissão de Gary Cohn, o principal conselheiro económico do Presidente, defensor do mercado livre e opositor desta medida.

Na UE, com uma quota de 10% na produção mundial de aço, a fileira vale €170 mil milhões de euros e 320 mil postos de trabalho, menos 80 mil do que antes da crise de 2007-2008. A Alemanha concentra 26% da capacidade de produção e do emprego do sector.