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Londres não abdica de ser a capital da finança mundial

Bowman veio a Lisboa e a Madrid e dá particular atenção ao sector das fintech

António Pedro Ferreira

O mayor da City, Charles Bowman, acredita que o “carácter único” do polo financeiro não morre com o ‘Brexit’

A City londrina não quer perder o seu estatuto de primeiro centro financeiro mundial depois de consumado o divórcio com a UE em abril do próximo ano. Tem mantido essa posição desde 2015 no índice lançado pelo Z/Yen Group de Londres e pelo China Development Institute de Shenzhen. Charles Bowman (na foto), o mayor do distrito financeiro, acredita que “Londres manterá essa posição destacada”.

“Com o acordo certo no âmbito do ‘Brexit’, Londres permanecerá uma ‘joia’ europeia e global”, refere Bowman, de 55 anos, com uma carreira desde 1983 na Price Waterhouse, que veio a Lisboa esta semana no âmbito de uma visita à Península Ibérica que também abrangeu Madrid. O mayor da milha quadrada na margem norte do Tamisa tem um mandato de apenas um ano, grosso modo de outubro a outubro, e funciona como representante de todo o sector financeiro e de serviços profissionais, que vale 12% do PIB britânico, abrangendo outros centros como Birmingham, Bristol, Edimburgo, Glasgow, Leeds e Manchester. Desde o início do século XIII que há registo da nomeação deste cargo, com a designação atual de Lord Mayor desde 1354. Não deve ser confundido com o mayor de Londres, que abrange o resto da capital.

O “acordo certo” no final do ‘Brexit’ é uma questão fundamental para a City, que “não votou para este resultado [o ‘Brexit’]”, sublinha Bowman, que acrescenta: “Mas somos respeitadores da democracia e práticos e pragmáticos, defendendo um acordo certo baseado no que designamos por três T — período de transição para as empresas, comércio livre [trade, em inglês] e mobilidade para o talento; e em quatro condições: acesso mútuo, alinhamento na regulação, cooperação na supervisão e uma resolução adequada nas disputas legais”.

Se haverá ou não esse acordo ganhador para ambas as partes — win-win na linguagem dos negócios — que a City deseja ninguém sabe. Mas Bowman acha que o carácter “único” à escala global do cluster financeiro londrino é um ativo sólido.

Do renmimbi à finança 
islâmica e ao fintech

O Banco de Inglaterra divulgou um estudo em que calcula uma fuga de 10 mil empregos para Dublin, Frankfurt, Luxemburgo e Paris até abril de 2019. As avaliações realizadas pela municipalidade apontam para perdas “muito mais reduzidas do que o pior cenário”, diz Bowman.

Para enfrentar perdas potenciais, a City tem apostado fortemente em sectores emergentes à escala mundial, como a finança islâmica, a finança ‘verde’ e o sector das empresas fintech — serviços financeiros de base tecnológica — e em ser o mais importante mercado offshore do renmimbi depois de Hong Kong (que monopoliza 78%). Londres, no final de 2017, movimentava 5,6% daquele mercado, à frente de Singapura. A importância desta estratégia pesa na agenda do mayor. Ainda em março desloca-se a Hong Kong e à China.

A aposta como polo mundial das fintech tem-se traduzido por uma atração de muitas jovens empresas portuguesas e espanholas. Duas destas empresas criadas por portugueses, a Seedrs de Carlos Silva e a Sindycate Room de Gonçalo de Vasconcelos, têm sede em Londres. Muitas outras têm escritórios. Não por acaso, Bowman participou numa conferência sobre fintech em Lisboa, organizada em conjunto com a Associação da Fintech e Insurtech Portugal, e Madrid.