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Guerra do aço e do alumínio vai trazer desemprego à Europa e aos EUA

Spencer Platt/Getty Images

Ontem a Comissária Europeia Cecilia Malmstrom falou de “milhares de empregos em risco na Europa”. Hoje, a agência Reuters diz que a imposição das novas tarifas sobre as importações de aço (25%) e alumínio (10%) pode trazer desemprego e comprometer investimentos nos EUA

Quando o presidente norte-americano Donald Trump anunciou, há uma semana, a intenção de impor novas tarifas sobre as importações de aço e alumínio, o resto do mundo reagiu de imediato e ameaçou retaliar. Mas a medida está, também, a ser contestada nos Estados Unidos, indústrias do alumínio e do aço incluídas. Trump diz que “uma guerra comercial é boa e fácil de ganhar”, a sua indústria diz que “pode fazer mais mal do que bem”.

Receamos que a tarifa proposta possa fazer mais mal que bem”. Foi exatamente isto que a Aluminum Association escreveu numa carta enviada a Donald Trump, a alertar o presidente norte-americano, para os possíveis impactos negativos de tarifas alfandegárias às importações deste produto.

Estamos profundamente preocupados com os efeitos que uma tarifa global possa ter na produção de alumínio e nos empregos nos EUA”, e com o seu reflexo na cooperação com parceiros comerciais “vitais, habituados a jogar segundo as regras”, refere o documento desta associação, que representa 114 empresas do sector.

Na verdade, se as tarifas de Trump avançarem, haverá nos Estados Unidos “um lado vencedor” que junta empresas que podem crescer, recuperar capacidade de produção, mas há, também, “um lado perdedor”, constituído por “empresas que trabalham com aço especial importado, que não é produzido nos Estados Unidos”, sublinha hoje a Agência Reuters num artigo de Nick Carey, sobre a forma como as “tarifas de Trump” podem criar e podem destruir postos de trabalho no país.

“Isto conduzirá necessariamente ao layoff (redução temporária do tempo de trabalho)”, garante Bob Miller, presidente executivo da Novolipetsk Steel PAO”, que trabalha com clientes como a Caterpillar.

Esta empresa, integrada num grupo com sede na Rússia e operações na Europa e EUA, garante que se as novas taxas avançarem será posto de lado o plano de investimento de 500 milhões de euros para aumentar a capacidade das suas fábricas na Pensilvânia e no Indiana, colocará centenas de trabalhadores no regime de lay off e “em três ou quatro meses pode reduzir em 50% os 1.200 trabalhadores dedicados ao aço” por falta de matéria-prima. E se os clientes recusarem pagar preços mais elevados, “o negócio nos EUA pode desaparecer”, acrescenta Miller citado pela Reuters.

É verdade que empresas como a U.S. Steel Corp, do lado ganhador, estão animadas, a antecipar um aumento da procura de aço, mas Lee McMillan, analista da Clarksons Platou Securities já alertou que “haverá uma subida dos preços por constrangimentos de capacidade de produção”. E fornecedores de aço como a California Steel Industries Inc, que importa 1,5 milhões de toneladas por ano, considera que o objetivo de Trump salvar postos de trabalho na indústria do aço, vai acabar por ter o efeito contrário.

A reação da Europa e do mundo

Na Europa, não há duvida de que o protecionismo americano “põe milhares de empregos europeus em perigo”, admitiu ontem a Comissária Europeia do Comércio, a sueca Cecilia Malmstrom.

Por isso, desde a primeira hora, a União Europeia garantiu que a medida, caso avance, “exige resposta” e já tem uma lista de produtos importados dos Estados Unidos para taxar. Juntos, abrangem sectores como o aço e o ferro, o vestuário, têxteis e calçado, produtos agrícolas, produtos industriais selecionados, numa lista detalhada que abrange as motos Harley Davidson, o bourbon e as calças de ganga da Leví´s. Representam um valor total de 2,8 mil milhões de euros, de acordo com as exportações da UE para os EUA em 2017.

Cecilia Malmstrom garantiu, ainda, que a UE estava a falar com outros países que serão afetados por esta medida para coordenar a ação de resposta. E, se os EUA alegam “segurança nacional” nesta decisão, a comissária sublinha que os aliados da Nato e a UE não são uma ameaça aos EUA.

Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, já tinha anunciado uma reação “firme e proporcional” da UE, sublinhando que a imposição de tarifas viria agravar os problemas do sector. A Europa não vai ficar parada "enquanto a nossa indústria é afectada por medidas injustas que colocam milhares de empregos europeus em risco", garantiu.

E quanto vale a indústria europeia do aço? 170 milhões de toneladas de aço, 170 mil milhões de euros e 320 mil postos de trabalho (eram 405 mil em antes da crise), indicam números da Eurofer – Associação Europeia do Aço. E o domínio é alemão, com 26% da produção e do emprego.

Em comunicado, esta estrutura reafirma a longa relação de cooperação com os EUA, sublinha que só uma pequena fração das exportações para os Estados Unidos se destinam à indústria da defesa e apela a Trump para focar o seu esforço em apoiar medidas, no âmbito do G-20, para contrariar o excesso de capacidade no aço.

A Associação Europeia do Alumínio coincide em alertar para o facto de o verdadeiro problema no seu sector estar no “excesso de capacidade de produção” e aponta o dedo diretamente à China. Desde 2009, a produção na Europa caiu de 3 milhões de toneladas para 2 milhões, refere a associação.

As reações às novas tarifas anunciadas por Trump surgem à escala global. A China promete dar “ a resposta adequada e necessária” se a medida avançar.

O Canadá, que faz fronteira com os EUA, diz que este aumento é "inaceitável" e considerou a medida prejudicial tanto para trabalhadores e empresas americanas como canadianas.

Moscovo fez saber que vê “com extrema preocupação” o que se está a passar.

Moeda de troca?

Os EUA são o maior importador mundial de aço e a China é a maior produtora mundial, respondendo por 50% da produção total No entanto os maiores exportadores para o país são o Canadá, Brasil, Coreia do Sul, México, Rússia, Turquia, Japão e Alemanha, com a China a surgir neste ranking em 11º lugar.

É esta lista de fornecedores dos EUA que justifica a convicção de alguns comentadores de que as novas tarifas não teriam como alvo a China, mas seriam uma ferramenta de negociação com o Canadá e México para que estes dois países fizessem cedências e tornassem possível a assinatura de um novo Acordo de Comércio Livre da América do Norte (NAFTA).

O próprio Donald Trump, no Tweeter, no tom habitual, sempre fiel ao seu lema presidencial "America First", já se dirigiu diretamente ao México e ao Canadá, dizendo que “as taxas sobre o aço e sobre o alumínio serão retiradas se um novo e mais justo acordo NAFTA for assinado”.

"Completamente louco"

Mas o aço nos Estados Unidos vale toda esta agitação? “O aço é um componente minúsculo do Produto Interno Bruto norte-americano, por isso é que isto é completamente louco. Está-se a dar cabo de todo um sistema comercial por causa de uma indústria que tem 80 mil empregos”, sublinha Adam Posen, do Instituto Peterson for International Economics, em declarações à CNBC.

E se este é o primeiro ataque numa futura guerra comercial entre os EUA e o resto do mundo, a primeira baixa acabou por aparecer na própria Casa Branca, com a demissão de Gary Cohn, o principal conselheiro económico do presidente Trump. Apontado como defensor do mercado livre e opositor desta medida, por considerar que acabará por encarecer os produtos à base de aço e alumínio e irá afetar o crescimento da economia norte-americana.

Apesar da decisão ainda não ter sido formalizada, os mercados receiam um efeito dominó caso as barreiras à importação de alumínio e aço nos EUA sejam confirmadas. Na verdade, a medida traz com ela a sombra de uma guerra económica entre os principais blocos mundiais e traz também, a sombra de uma escalada de conflito, alimentada pelas memórias do protecionismo que acompanhou a Grande Depressão e antecedeu a Segunda Guerra Mundial.