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BCE de hoje devia ser importante. Mas já não é. Por 4 razões

A reunião de 8 de março era tida como muito importante. O Banco Central Europeu começaria a sinalizar, finalmente, aos mercados o fim do programa de estímulos. Mas a inflação em queda, os tweets de Trump e o terramoto político em Itália trocaram as voltas aos ‘falcões’ em Frankfurt que queriam colocar um ponto final à prudência de Draghi

Jorge Nascimento Rodrigues

Ainda em meados de fevereiro, os analistas financeiros apontavam para uma primeira mudança importante na estratégia do Banco Central Europeu (BCE) na importante reunião de 8 de março.

Seria um marco no dia icónico das Mulheres, ainda que nos 25 que decidem a política monetária da zona euro apenas duas mulheres têm assento, uma alemã no conselho executivo e uma cipriota que está à frente do banco central da ilha mediterrânica. Eventualmente, em Frankfurt junta-se hoje a vice-governadora do Banco central da Letónia, que substitui, por ora, o governador que tem à perna a Justiça local, acusado de ter sido corrompido por pelo menos 100 mil euros. Ironicamente, o parlamento letão deverá exigir esta quinta-feira a resignação do governador.

A previsão para a reunião de hoje era que a equipa de Mário Draghi eliminaria do comunicado tradicional sobre as decisões das reuniões do conselho de governadores a menção ao programa de compra de ativos – vulgo QE, do inglês quantitative easing - como continuando a ser imprescindível no futuro próximo, enquanto a inflação não chegar perto da meta de 2%.

A pressão dos ‘falcões’ dentro do BCE, em particular de Jens Weidmann, o presidente do Bundesbank, o banco central alemão, tem sido pública e notória. Os ‘falcões’ querem ver retirada progressivamente da ‘orientação futura’ (forward guidance, na linguagem cifrada dos banqueiros centrais) transmitida pelos comunicados a menção a essa boia de salvação da zona euro, e em particular dos periféricos, que é o QE.

O pedaço de texto à espera da primeira mexida

O que irrita, por ora, os ‘falcões’ é este pedaço dos comunicados: “No que respeita às medidas de política monetária não convencionais [como é o caso do QE], o Conselho do BCE confirma que se pretende que as compras líquidas de ativos, a um novo ritmo mensal de €30 mil milhões, prossigam até ao final de setembro de 2018, ou até mais tarde, se necessário, e, em qualquer caso, até que o Conselho do BCE considere que se verifica um ajustamento sustentado da trajetória de inflação, compatível com o seu objetivo para a inflação. Se as perspetivas passarem a ser menos favoráveis ou se as condições financeiras deixarem de ser consistentes com uma evolução no sentido de um ajustamento sustentado da trajetória de inflação, o Conselho do BCE está preparado para proceder a um aumento do programa de compra de ativos em termos de dimensão e/ou duração” (sublinhado nosso).

Mas, em duas semanas, tudo mudou: a inflação entrou em queda na zona euro em fevereiro; surgiu a ameaça de uma primeira guerra comercial global desencadeada por Trump; aconteceu o terramoto eleitoral em Itália no domingo passado; e consolidou-se a valorização do euro e a doutrina do dólar fraco defendida em janeiro no Fórum Económico Mundial de Davos pelos secretários do Tesouro e do Comércio do presidente norte-americano, que, então, tanto irritou Draghi.

Os economistas ouvidos pela Bloomberg no final de fevereiro já haviam concluído que o BCE não vai mexer em nada a 8 de março. Ou seja, a proverbial cautela e prudência do italiano que manda no BCE, até final de outubro do próximo ano, vai ressurgir em força. As primeiras mexidas na comunicação da estratégia são, agora, adiadas para a reunião de 14 de junho, que já contará com a presença de Luís de Guindos como vice-presidente, substituindo Vítor Constâncio.

As quatro razões para Draghi pedir hoje prudência, paciência e cautela são as seguintes.

  1. Inflação não descola

Esta é a principal razão endógena para a prudência, que deriva diretamente do mandato do BCE. A orientação futura não pode passar por cima dela, mesmo que repita que a meta será alcançada num horizonte próximo.

A inflação na zona euro não descola em direção a um nível próximo da meta de 2%. Em fevereiro caiu para 1,2%, segundo a estimativa do Eurostat. Trata-se do nível mais baixo desde dezembro de 2016. A inflação subjacente – aquela que não conta com as componentes mais voláteis do índice de preços, como a energia, alimentação, álcool e tabaco –, e que está menos sujeita aos impactos externos vindos da geoeconomia, não descola de 1%.

As expetativas sobre a inflação futura, baseadas num inquérito realizado trimestralmente pelo BCE, apontavam, no final do primeiro trimestre de 2018, para 1,7% daqui a 2 anos. Só daqui a cinco anos se espera que a inflação chegue a 1,9%.

O BCE divulga hoje as projeções macroeconómicas da sua equipa técnica. Os analistas vão estar atentos a que mudanças surgem em relação às últimas publicadas em dezembro.

  1. Situação política incerta na terceira economia do euro

A Itália, a terceira maior economia do euro, é o caso mais óbvio de incerteza política, depois das eleições de domingo. Os resultados eleitorais foram classificados por muitos analistas políticos como um verdadeiro “cataclismo eleitoral” com o “triunfo dos populismos” e a “vitória dos anti-sistema”.

Mas, nos meios patronais italianos a vitória do Movimento 5 Estrelas, que foi o primeiro partido votado para a Câmara de Deputados, e a subida da Liga (ex-Liga Norte) à liderança da coligação de direita com Berlusconi são encaradas com pragmatismo à espera de que algum governo “estável” surja. Num contexto mais complexo do que nunca, no quadro de uma situação tripartida – já batizada de tripolarismo - no parlamento italiano, em que nenhum dos três blocos – 5 Estrelas (32,7%), coligação de direita (37%), com a Liga a defender ainda a saída do euro, e coligação de centro-esquerda (22,9%), liderada pelo atual partido de governo, conseguem a maioria para formar governo.

Algum entendimento terá de sair, segundo os analistas financeiros. Os rumores sobre cenários e contactos não param. O atual líder do 5 Estrelas, Luigi di Maio, Giggino para os militantes e fãs, já se colocou no centro dos cenários de governo e disse que espera que as coligações o contactem. O Partido Democrático, no governo, está em total caos - divide-se entre os que querem dar apoio parlamentar a um governo de Giggino, os que recusam qualquer entendimento com “extremistas”, e os que namoram a Liga e a coligação de direita, o que traria “mais alivio ao mercado”, segundo uma nota do Commerzabank de ontem. Entretanto, enquanto o pau vai e vem, permanece em funções como governo de gestão a equipa liderada pelo Partido Democrático, que manterá a postura pró-euro.

Em virtude das expetativas “pragmáticas” dos mercados, a bolsa de Milão não se afundou e os juros da dívida italiana a 10 anos não dispararam. O índice MIB milanês caiu 0,4% na segunda-feira, mas arrebitou com ganhos de 1,75% no dia seguinte, e ontem manteve-se no verde, destacando-se inclusive nos ganhos na zona euro. Os juros dos títulos do Tesouro naquele prazo de referência estão estabilizados no nível que tinham na sexta-feira passada, marginalmente acima de 2%. Na visão da agência de rating DBRS, os resultados eleitorais não vão “provavelmente provocar um impacto imediato na notação da dívida italiana” que está acima de “lixo financeiro”.

Mas se há pessoa que conhece bem Itália no seio do BCE é Draghi para saber que a “Terceira Republica” como já lhe chamou o líder do 5 Estrelas não vai deixar nada como dantes.

O contágio nos outros periféricos não ocorreu. Os juros das Obrigações do Tesouro português caíram para menos de 1,9%, um mínimo desde 24 de janeiro. No primeiro leilão de dívida na Alemanha após as eleições de domingo em Itália e a votação favorável no SPD à renovação da grande coligação com Merkel, o Tesouro germânico pagou ontem 0,05% em títulos a 5 anos, menos do que 0,08% pago anteriormente.

O 'sentimento' que os mercados financeiros mantêm é que as negociações em Roma para formar um novo governo vão demorar sem garantia de chegar a bom porto e que, no entretanto, o governo de gestão pró-euro está em funções - o que, no meio do cataclismo, dá alguma 'tranquilidade'.

  1. Guerra comercial de Trump

Se o cataclismo eleitoral italiano ainda não amedronta os mercados da zona euro e o patronato italiano, o mesmo já não pode ser dito da nova doutrina via tweet do presidente Trump de que “as guerras comerciais são boas e fáceis de vencer”, cuja primeira etapa seria a guerra do aço e do alumínio. O temor à guerra comercial provocou na quarta-feira uma quebra de mais de meio por cento nas bolsas asiáticas, mantém as praças da zona euro hesitantes e provocou uma queda ligeira em Nova Iorque.

A saída de Gary Cohn, chefe do Conselho Económico Nacional do presidente norte-americano, é encarada pelos analistas como deixando à solta o grupo protecionista da Casa Branca, consolidando a posição de Trump de que “não recuará” nas tarifas anunciadas, o que poderá desencadear um efeito dominó à escala global. O que já fez recordar a alguns economistas a lei ultra-protecionista Smooth-Hawley em 1930. Um desastre bem retratado num livro de 2011 de Douglas Irwin, professor no Dartmouth College, nos EUA.

Os analistas do Barclays preveem que o crescimento da economia norte-americana poderá perder duas décimas se a guerra do aço e do alumínio for por diante. Um efeito dominó global abalará a retoma mundial, como já avisaram a Organização Mundial do Comércio e o Fundo Monetário Internacional. A zona euro estará na frente do embate, o que reforça a prudência de Draghi em evitar dar sinais aos mercados de que vai largar o oxigénio aos bancos da zona euro ou encarecer mais cedo do que o previsto o custo do dinheiro no curto-prazo.

  1. Guerra de divisas

À guerra comercial pode juntar-se uma guerra de divisas mais declarada. Draghi irritou-se em janeiro com as declarações dos Secretários do Tesouro e do Comércio dos EUA em defesa do dólar fraco. Para o euro, desde a quase paridade em dezembro passado, o euro já valorizou mais de 17%.

A política económica de Trump baseia-se num tripe: expansão do défice orçamental e choque fiscal para sobreaquecer a economia – e atingir a meta política de crescimentos anuais, em termos reais, acima de 3% - e endividar ainda mais o estado federal; defesa do unilateralismo nas relações internacionais, incluindo ameaças de guerras comerciais e desmantelamento de acordos multilaterais; e enfraquecimento do dólar para fomentar artificialmente a competitividade dos sectores exportadores.


Publicado originalmente no Expresso diário de 7 de março de 2018