Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Juros da dívida portuguesa em mínimos de mais de um mês

As taxas das obrigações portuguesas a 10 anos estão abaixo de 1,9%. Dívida dos periféricos do euro acalma na expetativa de que a reunião do Banco Central Europeu de quinta-feira não irá sinalizar alterações futuras na política de estímulos. Choque politico em Itália reforça prudência de Draghi

Jorge Nascimento Rodrigues

Os juros (yields) das Obrigações do Tesouro (OT) português no prazo de referência, a 10 anos, desceram esta terça-feira no mercado secundário da dívida para mínimos desde 24 de janeiro. Registam, agora, 1,88%, uma descida de 11 pontos-base em relação ao fecho de sexta-feira passada.

Este nível de juros é claramente inferior à taxa de 2,137% paga pelo Tesouro em janeiro para lançar esta nova linha de OT que vence em 2018 e fica abaixo dos juros de 2,046% pagos no mais recente leilão destes títulos. Na sexta-feira passada, os juros no mercado secundário fecharam em 2%.

Os títulos espanhóis e italianos registam, também, quedas dos juros esta manhã. Mas, no caso das obrigações transalpinas, os juros ainda estão um ponto base acima do registado no final da semana passada, antes das eleições em Itália no domingo e da decisão do SPD sobre a renovação da coligação chefiada pela chanceler Merkel.

Com a estabilização dos juros da dívida alemã em 0,65%, o prémio de risco destes três periféricos tem diminuído significativamente para Portugal e Espanha e desacelerou para Itália. O risco da dívida portuguesa situa-se hoje em 124 pontos base (o equivalente a 1,24 pontos percentuais acima do custo de financiamento da dívida alemã), 12 pontos-base abaixo do fecho na sexta-feira passada.

Nota-se uma acalmia no mercado da dívida destes periféricos, apesar do choque político eleitoral em Itália e do governo em Madrid continuar sem conseguir aprovar o Orçamento para este ano.

Prudência de Draghi vai dominar reunião de quinta-feira

A acalmia no mercado da dívida pode estar a ser alimentada pela expetativa de que o Banco Central Europeu (BCE) não irá proceder a qualquer alteração na comunicação da sua estratégia na reunião da próxima quinta-feira, ao contrário do que se vaticinava em fevereiro.

Apesar da pressão pública por parte de alguns membros do conselho de governadores, nomeadamente do presidente do Bundesbank, o banco central alemão, o BCE não deverá afastar-se da estratégia de prudência definida por Mario Draghi.

Na última sondagem da Bloomberg junto de economistas no final de fevereiro, a reunião de 8 de março não deverá trazer novidades na estratégia.

Segundo a sondagem, a primeira mudança na chamada orientação futura (forward guidance) só deverá ocorrer na reunião de 14 de junho, que já contará com a presença do espanhol Luís de Guindos como vice-presidente substituindo o português Vítor Constâncio, que termina o mandato no final de maio.

A sorte do programa de compra de ativos – vulgo QE, de quantitative easing - deverá ser decidida na reunião de 26 de julho e os sinais sobre mudanças nas taxas diretoras em 2019 poderão ser dados a 13 de setembro, no mês em que termina o atual prolongamento do QE. Os economistas consultados admitem uma descontinuação das aquisições até final de 2018 e uma primeira subida na taxa de remuneração dos depósitos dos bancos atualmente negativa (está em -0,4%) no final do segundo trimestre de 2019.

Quatro razões para as cautelas do BCE

A prudência defendida por Draghi surge ainda mais justificada depois da inflação em fevereiro ter descido para 1,2%, o nível mais baixo desde dezembro de 2016 longe da meta de abaixo mas próximo de 2%, e da inflação subjacente (sem contar com as componentes mais voláteis do índice de preços) não descolar de 1%.

A cautela defendida pelo italiano sai reforçada depois do choque político eleitoral na terceira maior economia do euro no domingo passado, com a vitória do Movimento 5 Estrelas alcançando quase 33% dos lugares na Câmara de Deputados, portador de um programa com várias disrupções (ainda que tendo abandonado o referendo ao euro), e a subida à liderança da coligação de direita pela Liga (ex-Liga Norte) que mantém a saída do euro como objetivo político. Os resultados eleitorais de domingo em Itália foram "lidos" por muitos analistas europeus como "cataclismo eleitoral", "triunfo dos populismos" e "vitória dos anti-sistema".

No plano dos riscos geopolíticos, a ameaça de guerra comercial por parte da Administração Trump surge destacada, aumentando as linhas de fractura nos dois lados do Atlântico Norte, depois de Draghi se ter 'zangado' publicamente com a doutrina do "dólar forte" defendida pelos norte-americanos no Fórum de Davos em janeiro.

A contínua apreciação do euro face ao dólar, com uma valorização de 17% desde final do ano, exige do BCE a avaliação cuidada dos passos a dar na política monetária.

  • A vitória do Movimento 5 Estrelas nas eleições de domingo e a subida da Liga à liderança da coligação de direita em Itália fez subir o prémio de risco italiano mas não contagiou o mercado de dívida da zona euro. A maré vermelha nas bolsas da zona euro que se temia não se concretizou. Nova Iorque encerrou com ganhos de mais de 1%