Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Inovar é o verdadeiro caminho para a sobrevivência

“A evolução tecnológica 
deve promover a inclusão” destacou Paulo Macedo, 
CEO da CGD, nos XII Encontros Fora da Caixa, em Aveiro

Nuno Fox

O impacto da tecnologia e da inovação no mercado exportador é o rumo. Falta limar arestas

Miguel Ângelo Pinto

A importância da inovação num mundo cada vez mais globalizado e os desafios da revolução digital estiveram no centro dos XII Encontros Fora da Caixa, um projeto da Caixa Geral de Depósitos ao qual o Expresso se associa, que decorreu no Centro Cultural e de Congressos de Aveiro e que teve como tema “Tecnologia e Inovação no Mercado Exportador”. O espírito inovador que se exige às empresas, como forma de sobrevivência nos mercados em que operam, é fundamental para ir mais longe, estabelecer novas pontes de contacto e descobrir novas oportunidades de negócio.

Miguel Casal, CEO da Grestel, foi bem claro ao dizer que na atual conjuntura “inovar é sobreviver e temos que o fazer em todas as áreas da cadeia de produção empresarial”, lembrando que um dos objetivos passa sempre por “crescer mantendo a rentabilidade”. Desbravar novos caminhos é assim a única forma de encontrar um espaço no cada vez mais competitivo no mundo negócios, com Alcino Lavrador, diretor-geral da Altice Labs, a considerar mesmo que “a inovação é um fator competitivo central”.

Mas a verdade é que as empresas necessitaram de se adaptar aos novos desafios que lhes foram surgindo com a abertura de novos mercados, onde as exigências e a aceleração tecnológica ditam leis. Carlos Neves, CEO da Prifer, frisa que a sua empresa investiu imenso em inovação, mas que esta é uma área onde as dificuldades ainda se acumulam. “A indústria 4.0 é vendida como a panaceia para os problemas das empresas, mas isso não corresponde à verdade. Temos sérias dificuldades na área da inovação e se houve lição que aprendemos foi que as empresas que não se especializarem e forem competitivas não entram na cadeia de valor global”, adiantou o empresário, cujo caminho passou pelo estabelecimento de parcerias no mercado externo com empresas de diferentes latitudes.

Ganhar escala
Um dos conceitos que motivou a unanimidade entre os participantes nestes Encontros Fora da Caixa foi que o associativismo entre empresas é um caminho que não pode ser ignorado, desde logo porque dá escala e, como tal, maior possibilidade de penetração em mercados tradicionalmente mais fechados e competitivos. Carlos Albuquerque, administrador executivo a CGD, referiu ainda que estas apostas das empresas em pensar mais alto inovando e renovando-se tecnologicamente, tem reflexos no momento em que se estuda o financiamento, uma vez que isso acabará por impactar no nível de risco que é atribuído às empresas por parte das instituições financeiras. E, como é óbvio, os próprios bancos têm que saber ser inovadores para acompanharem esta revolução, onde um empresário a qualquer momento, em qualquer parte do mundo, pode necessitar de uma decisão ou de uma consulta que pode ser vital para a concretização de um negócio. Como referiu o professor catedrático Manuel Mira Godinho, a escala e o networking são cada vez mais relevantes neste esforço e estamos a caminhar para um mundo em que a inovação está cada vez mais presente.

Ligação às universidades
As universidades têm um papel decisivo neste esforço de inovação que as empresas têm vindo a empreender. É delas que saem muitas das soluções para problemas que podem determinar o sucesso de uma ideia de negócio. Carlos Teixeira, presidente do Conselho de Administração das Porcelanas Costa Verde, frisou a ligação que a empresa que dirige tem com o meio universitário, visto como viveiro de ideias e conceitos que podem colocar uma empresa na dianteira de um sector. “A aposta na inovação, e uma empresa como a nossa tinha mesmo que enveredar por este caminho, permite respostas mais rápidas e estar na vanguarda de áreas em constante mutação”, sustentou Carlos Teixeira.

Mas será que as universidades, e novas correntes como a Inteligência Artificial, andam ao mesmo ritmo das empresas? Arlindo de Oliveira, professor catedrático, rejeita o simplismo destas associações, deixando no ar uma citação que reza ser muito difícil fazer previsões, em especial do futuro. “Não conseguimos antecipar as mudanças tecnológicas com impacto real”, sustentou o académico, lembrando que “a tecnologia evolui de maneira exponencial e qualquer previsão pode estar errada a curto ou médio prazo”. “Os smartphones não existiam há uma década”, atirou.

Poupança está nas empresas

Paulo Macedo, CEO da CGD, considera que está inerente à missão do banco, que lidera, estar com as empresas, apoiando a internacionalização, o empreendedorismo e a inovação. Isto implica uma mudança de paradigma na atuação do sector financeiro, que deve apostar em financiar o investimento em intangíveis, acompanhando assim os novos ventos que sopram no mundo dos negócios. Não obstante a confiança dos consumidores no desenvolvimento da economia, Paulo Macedo refere que a poupança das famílias continua num movimento decrescente, ao contrário do que sucede nas empresas. Após o abalo da crise e dos ajustamentos a que foram obrigadas, as empresas portuguesas registam de momento um nível de poupança em crescendo, o que lhes permite baixar o endividamento e, ajudadas por taxas de juro altamente competitivas, investir e criar emprego. E a banca está disponível para apoiar esse esforço.

Discurso Direto

“A inovação traz consequências, como custos 
mais baixos, produtos de melhor qualidade 
e aumento da competitividade. Terá reflexos 
em áreas como 
o crescimento económico 
e o emprego”
Manuel Mira Godinho
Professor catedrático

“A indústria 4.0 
é vendida como 
a panaceia para 
os problemas 
das empresas, 
mas isso não corresponde 
à verdade”
Carlos Neves
CEO da Prifer

“É cada vez mais importante 
a inovação num mundo globalizado como o que 
vivemos para responder 
aos desafios 
da revolução digital”
Emílio Rui Vilar
Presidente do Conselho
de Administração da CGD

“Não é possível antecipar o impacto das mudanças tecnológicas. 
A velocidade 
a que ocorrem 
não o permitem”
Arlindo de Oliveira
Professor catedrático

“O mundo 
dos negócios 
nem sempre está preparado para 
se adaptar
às mudanças políticas”
Joaquim Aguiar
Administrador do Grupo 
José de Mello Capital

“Em nenhum país 
do mundo as empresas portuguesas são acarinhadas como em Angola”
João Traça
Presidente da Câmara 
de Comércio 
de Indústria Portugal-Angola

Angola: As vantagens da triangulação

Nos últimos anos, Angola deixou de ser vista como um eldorado para as empresas portuguesas para ser encarado como um mercado que causa crescentes preocupações. As mudanças políticas que parecem desenhar-se no horizonte, abrem, no entanto, novas perspetivas para os empresários nacionais. Só que desta vez, irem sozinhos pode ser um problema.
Joaquim Aguiar, administrador do Grupo José de Mello Capital, adianta que no novo cenário geopolítico que está a ser traçado no mundo “as relações comerciais deixam de ser multi ou bilaterais e passam ser de parcerias conjuntas e no caso de Angola estas parcerias resolvem uma certa desconfiança que persiste nas relações entre os dois países”, frisando que “a associação com mais de dois permite criar programas de maior escala”. É a tal triangulação, mais vantajosa do que a bilateralidade.

As mudanças que se estão a verificar em Angola podem ser benéficas para as empresas portuguesas. João Traça, presidente da direção da Câmara de Comércio e Indústria Portugal-Angola, lembra que os angolanos querem reduzir a dependência das importações, investindo em novos sectores e deixando o monolitismo que uma economia baseada quase num só produto, o petróleo, acarreta. “As empresas portuguesas tem o know-how necessário para serem parceiros dos angolanos em diferentes sectores de atividade, ao mesmo tempo que a dimensão e implantação geográfica de Angola pode ser uma mais-valia para o estabelecimento de relações comerciais com os mercados circundantes”, adiantou.

Para José João Guilherme, administrador executivo da CGD, “há espaço para as empresas portuguesas em Angola, mas na atual conjuntura quem estiver a pensar ir com a perspetiva de voltar dentro de um ano é melhor pensar duas vezes”. Daí que, na sua opinião, a banca deve funcionar também em sede de aconselhamento e não criar ilusões. O investimento nas tais parcerias é fundamental. Até porque para as autoridades políticas angolanas é mais fácil lidar com portugueses acompanhados por parceiros de outras paragens. E isso não se aplica só nos negócios. É válido também para outras áreas, como a diplomacia.

Textos originalmente publicados no Expreso de 3 de março de 2018