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Só metade dos donos de carros elétricos usam a rede pública

João Gomes, da Mobiletric, ainda espera que os pontos rápidos que instalou em 2017 na rede pública comecem a ser pagos

António Pedro Ferreira

Mobi.E admite que 20% dos postos estão avariados mas garante estar a tratar do problema

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

A empresa Mobiletric assegurou no final de 2016, num concurso da Mobi.E (gestora da rede pública de carregamento de veículos elétricos), a maior parte dos lotes para instalar e operar pontos de carregamento rápido na via pública. Até hoje a Mobiletric não recuperou um cêntimo do investimento feito e a razão é simples: enquanto os carros elétricos continuarem a ser carregados à borla, os operadores das infraestruturas não receberão as taxas contratualizadas.

A Mobiletric já instalou oito pontos de carregamento rápido na rede pública, dos 11 que lhe foram adjudicados. E também tem estado a fornecer soluções para clientes privados. “Já vamos acima de meio milhão de euros de investimento. Podemos investir este ano até €3 milhões na mobilidade elétrica, desde que exista mercado”, explica o diretor-geral da empresa, João Gomes. Mas o gestor alerta que devido à falta de receita dos postos rápidos na rede pública “há risco de o investimento pensado para Portugal ir para fora do país”, nomeadamente para Espanha.

A situação da Mobiletric é apenas uma das “dores de crescimento” da mobilidade elétrica em Portugal. Muitas marcas de automóveis já disponibilizam os veículos, mas a rede pública de carregamento vem acumulando críticas de utilizadores em fóruns online, quer pelas avarias nos postos, quer pelos roubos de cabos de alimentação.

O presidente da Mobi.E, Alexandre Videira, admite que entre os 608 pontos de carregamento (que oferecem 1469 tomadas) cerca de 20% estão indisponíveis. “A rede esteve abandonada quase cinco anos, mas estamos a recuperá-la. Os postos estiveram muito tempo ao abandono. Há alguns que só é possível pôr a funcionar com uma atualização tecnológica grande”, explica.

Segundo o gestor, em janeiro a rede pública abasteceu 2670 utilizadores. É menos de metade dos 5395 utilizadores de veículos elétricos que estão registados junto da Mobi.E. O facto de metade dos veículos não ter feito qualquer carregamento nesta rede durante um mês inteiro sugere que ou os seus donos não confiam nos postos na rua ou não precisam deles, porque conseguem carregar os automóveis em postos privados (em casa ou no trabalho). Mas ao longo de 2017 houve 4280 utilizadores que recorreram pelo menos uma vez a pontos na via pública.

Borlas de €646 mil

Desde 2011, quando a rede pública arrancou, já foram consumidos 4,04 gigawatts hora (GWh) de eletricidade sem custos para o utilizador, dos quais 2,16 GWh só em 2017. Considerando que uma família paga cerca de €0,16 por kilowatt hora (kWh), isso significa que os donos de carros elétricos em Portugal já tiveram “borlas” de €646 mil, dos quais €346 mil no ano passado.

Este incentivo penalizou a EDP: a elétrica acumulou prejuízos na Sgorme (entidade que geria a rede pública antes de essa função ser transferida para a Mobi.E), que no final de 2016 estava tecnicamente falida, com capitais próprios negativos de €667 mil. O grupo opera ainda na mobilidade elétrica com a EDP Mop (operador de pontos de carregamento). Mas também com prejuízo: perdeu €390 mil em 2016. A EDP explica que tem em curso “uma estratégia de regularização do défice operacional da empresa”.

João Gomes acredita que a rede pública tem todas as condições para começar a ser cobrada (o que já esteve previsto para 2017), porque as tarifas para carros elétricos são competitivas face à gasolina e ao gasóleo.

Pelas contas da Mobiletric, se em 2017 a rede pública fosse paga, o custo de uma carga rápida para 100 quilómetros seria de €3,6 a €8,5, sendo que o limite superior ficava ainda 5% acima do custo de um carro a gasóleo (€8,18 para 100 quilómetros). Para 2018 o regulador da energia baixou as tarifas de acesso à rede durante o dia, colocando o custo da mobilidade elétrica em €3,8 a €5,5 por 100 quilómetros, com poupanças face ao gasóleo de 30% a 50%.

Em Portugal há 58 postos de carregamento rápido, nos quais a cobrança se deve iniciar nos próximos meses. E há ainda 550 pontos de carregamento lento, mas nesses a eletricidade só começará a ser paga pelo utilizador mais tarde, depois de a Mobi.E terminar a recuperação da rede, explica Alexandre Videira.

A Mobi.E está a substituir uma centena de postos avariados ou obsoletos e lançou um concurso para 202 novos postos semirrápidos. A gestora da rede pública recebeu uma dezena de propostas para a instalação daqueles postos. O fornecedor deverá ser escolhido em março, para em abril se iniciar a instalação.

A empresa estima chegar ao final do ano com 800 pontos públicos de carregamento e nessa altura lançará um concurso para a exploração dos postos por privados. “Vamos dividir por lotes. Nunca teremos um único operador a ficar com a rede toda”, garantiu o presidente da Mobi.E ao Expresso. Há hoje 18 empresas habilitadas para operar a infraestrutura e seis registadas como comercializadores de energia.

A EDP, por exemplo, oferece a quem tenha um carro elétrico 10% de desconto à noite. A empresa tem 600 clientes neste tarifário. O grupo também comercializa postos de carregamento para particulares (a partir de €1176), tendo vendido até à data 60 unidades. “É expectável que este número cresça significativamente nos próximos anos”, aponta fonte oficial da elétrica.

A EDP, que esta semana anunciou o objetivo de até 2030 ter uma frota 100% elétrica, já tem nos seus edifícios 200 postos de carregamento. A adesão das empresas à mobilidade elétrica pode ser decisiva para impulsionar as vendas destes carros.

Leaf com 700 encomendas

A Nissan foi uma das marcas que mais cedo apostaram na mobilidade elétrica em Portugal. Até hoje a empresa vendeu no nosso mercado 1250 veículos elétricos. No ano passado, até outubro, a marca vendeu 318 unidades do seu mais popular carro elétrico, o Leaf. Mas a nova versão deste modelo, que está agora a chegar a Portugal, está a suscitar interesse.

“Já registámos mais de 700 encomendas, o que é extraordinário para um automóvel que nem sequer estava disponível para ser visto e experimentado nos concessionários”, afirma o diretor de comunicação da Nissan, António Pereira Joaquim. A marca estima em 2018 comercializar em Portugal 1400 unidades do novo Nissan Leaf.

O esforço de vendas não está apenas no cliente particular. “As vantagens para as empresas que optem por esta motorização são sobremaneira atrativas do ponto de vista fiscal”, sublinha o porta-voz da Nissan, acrescentando que isso já impulsionou em 2017 a compra de veículos elétricos por parte de clientes institucionais.