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Três Ingredientes para o pessimismo fustigar os mercados e apoquentar Mario Draghi

Há uma confluência de fatores à escala global a alimentar o sentimento negativo dos investidores. Riscos políticos na zona euro, guerras comerciais e de divisas, pressão sobre a política monetária dos principais bancos centrais do mundo. Reunião do BCE da próxima quinta feira é importante

Jorge Nascimento Rodrigues

São vários os fatores que têm alimentado o trambolhão nas bolsas desde final de janeiro.

Alguns são de ordem política, como a subida do risco político em Itália, que vai a votos este domingo, não sendo expectável que nenhum dos blocos ou partidos obtenha maioria absoluta no Parlamento e no Senado. O risco político em relação à Alemanha diminuiu depois de serem conhecidas as sondagens que dão uma maioria confortável dentro do SPD para um voto favorável, este fim de semana, à renovação da coligação com a chanceler Merkel.

Na próxima sessão de segunda-feira e dias seguintes já se sentirão os efeitos destas votações de domingo. Na semana passada, as quebras na bolsa italiana nem foram as mais elevadas na zona euro. O índice MIB de Milão caiu 3,4% face a 4,6% para o Dax alemão em Frankfurt. Em termos anuais, o índice italiano ainda está em terreno positivo.

Outros fatores têm profundas repercussões geopolíticas como a nova doutrina da Administração Trump de que “as guerras comerciais são boas e fáceis de ganhar” – anunciada esta semana via tweet pelo presidente – justificando o primeiro pacote protecionista de envergadura com a imposição de tarifas aduaneiras sobre o aço e o alumínio.

A defesa em janeiro do “dólar fraco” em Davos pelo secretário do Tesouro norte-americano suscita, também, riscos de guerras divisas, com o euro a valorizar 18% face ao dólar desde dezembro de 2016 - quando se iniciou o atual ciclo de depreciação da moeda norte-americana face ao parceiro europeu, após a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais.

Banco do Japão sinaliza 2019 como ano de viragem

Por último, há sinais crescentes de que a política monetária nos três principais bancos centrais do mundo – a Reserva Federal norte-americana (Fed), o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco do Japão (BoJ) – evolui para um “aperto” em 2018 e 2019.

Os analistas continuam a achar que a Fed vai acelerar este ano a subida das taxas diretoras, apesar do seu presidente, Jerome Powell, não ter dado sinais disso nos seus testemunhos no Congresso esta semana e dos mercados de futuros continuarem a só considerar três subidas, uma primeira já na reunião de 21 de março, e depois em junho e setembro.

Para os analistas é evidente o risco de um sobreaquecimento da economia – que Powell considerou que ainda não existe – em virtude da política orçamental “estimulativa” (como a classificou o presidente da Fed) da Administração Trump, alicerçada em um choque fiscal e na subida do défice federal, e de pressões sobre a inflação por via da guerra comercial que se vai iniciar.

Surpreendentemente, no Japão, Haruiko Kuroda, o governador do BoJ, que foi reconduzido em novo mandato, admitiu esta semana no Parlamento que se poderá iniciar a discussão de descontinuação da política monetária de estímulos em abril do próximo ano, quando se iniciar o novo ano fiscal. Através das suas palavras, o BoJ alterou a sua orientação futura, antecipando o que poderá surgir na reunião da próxima semana, a 8 e 9 de março em Tóquio.

Importância da reunião do BCE da próxima quinta-feira

A reunião do conselho de governadores do BCE a 8 de março assume particular importância política na semana em que serão conhecidos os impactos das eleições em Itália e da votação no SPD sobre o futuro do governo federal alemão.

Os governadores defrontam-se, também, com um agravamento geopolítico face a uma escalada de agressividade no comércio internacional com a declaração da primeira guerra comercial movida pelos EUA (que também afeta a zona euro e a União Europeia). Pode ocorrer um efeito dominó da guerra do aço e do alumínio desencadeada por Trump.

A inflação também não dá sinais de descolagem na zona euro, o que não dá margem de manobra para o BCE ensaiar dar sinais claros sobre a descontinuação da sua política de estímulos. O índice de preços na zona euro desceu para 1,2% em fevereiro na primeira estimativa do Eurostat, prosseguindo um processo de desinflação desde 1,5% em novembro passado. Inclusive há países do euro que estão em deflação, como a Grécia, ou com níveis de inflação abaixo de 1%, como Espanha, Itália, Irlanda e Portugal (0,7% em fevereiro no Índice Harmonizado de Preços no Consumidor, segundo estimativa do INE).

A contínua valorização do euro face ao dólar também preocupa o BCE e as declarações norte-americanas sobre o “dólar fraco” em Davos irritaram Draghi e os seus colegas em Frankfurt. No atual ciclo ascendente, o euro registou um pico de 1,2510 dólares a 1 de fevereiro, o que representa uma subida de 20% em relação à cotação de quase paridade face à moeda norte-americana em dezembro de 2016. Esta apreciação elevada face ao dólar, desde a vitória de Trump, contrasta com uma subida do euro de apenas 6% em relação ao conjunto das divisas dos seus principais parceiros comerciais no mesmo período.

Mexer ou não na estratégia de comunicação

O BCE divulgará na quinta-feira as projeções macroeconómicas dos seus economistas para a zona euro e os analistas inclinam-se para o banco alterar a sua orientação futura (forward guidance), modificando cirurgicamente alguns pontos da sua comunicação, dando sinais de que a política expansionista não tem de se manter obrigatoriamente até se chegar à meta oficial de 2% de inflação.

Há, ainda, a possibilidade, de o conselho de governadores discutir o que fazer após o fim da extensão até final de setembro das aquisições de ativos, nomeadamente títulos de dívida pública. Draghi falou em janeiro de três opções: novo prolongamento; encerramento puro e simples (morte súbita do programa); ou descontinuação gradual por um período curto de tempo. O italiano afirmou que nas suas opções não se incluía a morte súbita.