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Presidente do banco central norte-americano não consegue tirar Wall Street do vermelho

Jerome Powell reafirmou a estratégia gradualista da Fed na audição desta quinta-feira perante a Comissão do Senado para o sector bancário. As duas bolsas de Nova Iorque viveram em verdadeiro carrossel durante duas horas, mas o pessimismo manteve-se no final. Uma das vítimas da audição foi o banco Wells Fargo, que viu a cotação cair mais de 1%

Jorge Nascimento Rodrigues

O presidente da Reserva Federal norte-americana (Fed) tentou apaziguar os mercados financeiros esta quinta-feira, não dando sinais de que o banco central irá acelerar este ano a subida das taxas diretoras, mas Wall Street estabilizou em terreno negativo ao final da manhã (hora local, 17 horas em Portugal), apesar do verdadeiro carrossel de subidas e descidas ao longo das duas horas de audiência a Jerome Powell na Comissão do Senado para a Banca.

Powell repetiu perante os senadores que a estratégia central da Fed é prosseguir uma subida gradual das taxas diretoras procurando equilibrar os riscos de um sobreaquecimento da economia norte-americana com a necessidade de impulsionar a subida da inflação para a meta de 2%.

As duas palavras chave no discurso de Powell são “gradual” (para a subida das taxas), seguindo a estratégia definida pela sua antecessora Janet Yellen, e “equilíbrio” nas decisões, evitando alimentar um sobreaquecimento caso ocorra, potencialmente em virtude da "política orçamental estimulativa" em curso por parte da Administração Trump.

Bolsas em carrossel

Esse já havia sido o seu tom no testemunho perante a Comissão de Serviços da Câmara de Representantes na terça-feira passada, mas os analistas e os mercados interpretaram-no como tendo manifestado abertura a uma aceleração em 2018 da subida das taxas diretoras, com quatro decisões nesse sentido em vez de apenas três admitidas nas projeções dos membros da Fed na reunião de dezembro.

As bolsas beberam cada palavra de Powell na audição à medida que era pressionado ora por republicanos ora por democratas e regiram como um carrossel.

Quando a audiência na Comissão se iniciou, os índices estavam no vermelho e a volatilidade tinha subido acima de 21. Depois, durante meia hora assistiu-se a uma subida, logo seguida pelo regresso às perdas, voltando a um aumento ligeiro na ponta final das declarações de Powell, terminando, depois, com uma quebra acentuada.

Economia não está sobreaquecida

Na audiência desta quinta-feira, o responsável máximo do banco central sublinhou que não encontra, por ora, “fortes evidências” de que a economia dos EUA esteja sobreaquecida – o que exigiria acelerar a subida das taxas diretoras para a “arrefecer”. Apesar de ter sublinhado que o ritmo de crescimento é “forte” e que o mercado de trabalho está “muito perto do pleno emprego”.

Ora, numa situação de quase pleno emprego, o que a Fed não quer é “subir as taxas diretoras de um modo demasiado rápido provocando uma recessão”, explicou Powell.

Também sublinhou que o processo de subida da inflação continua abaixo da meta de 2%. A inflação subjacente – sem as componentes mais voláteis do índice de preços – estabilizou em 1,5% no final de janeiro, mantendo o nível verificado nos dois meses anteriores. Powell chamou a atenção que é esta medida da inflação que a Fed dá atenção prioritária. Ou seja, o processo de reflação (de subida continuada da inflação) que se observava desde setembro parou.

O presidente da Fed sublinhou que não se está a assistir a um claro inflacionamento dos salários, o que significaria uma pressão interna de subida na inflação. “Nada sugere que a inflação dos salários esteja num ponto de aceleração”, disse aos senadores republicanos, que insistiam que o choque fiscal da Administração Trump já se estava a traduzir no bolso dos trabalhadores.

Powell sublinhou que a subida dos salários de um modo sustentável depende do aumento da produtividade, e que, neste ponto, trata-se de um desafio de longo prazo, exigindo mais qualificações, mais investigação & desenvolvimento.

Wells Fargo, a vítima da audiência no Senado

O momento mais quente da audiência desta quinta-feira centrou-se em torno do caso do banco Wells Fargo que foi acusado pela Fed no início de fevereiro de “abusos generalizados” nas boas práticas e que foi proibido de aumentar os seus ativos para além do nível registado no final do ano passado. Esta medida é extremamente grave e foi a primeira vez que o banco central a aplicou.

Os senadores democratas na Comissão quiseram saber hoje se a Fed está a controlar a aplicação da punição decidida nos últimos dias do mandato da anterior presidente Yellen.

A senadora democrata Elizabet Warren, uma das três mulheres democratas na Comissão do Senado, “apertou” em direto o presidente da Fed, que acabou por aceitar uma exigência por ela colocada.

Powell começou por responder que o conselho da Fed não previa votar sobre o plano apresentado pelo banco e que o assunto tinha sido delegado para uma equipa. Perante a insistência de Warren, o presidente da Fed acabou por declarar que vai “considerar um voto no conselho”.

A cotação do Wells Fargo caiu 1,3% na primeira hora da audiência, recuperou um pouco no final da presença de Powell no Senado, mas, depois, voltou à trajetória de queda.