Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

“Nuno Artur Silva não criou condições para se manter”

tiago miranda

Gonçalo Reis Presidente do Conselho de Administração da RTP

Maria João Bourbon

Maria João Bourbon

texto

Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

foto

Fotojornalista

Na primeira entrevista após ter sido convidado para cumprir um novo mandato na presidência da RTP, Gonçalo Reis aborda a polémica em torno da não recondução de Nuno Artur Silva. Assume que este “não criou as condições objetivas para resolver de maneira absolutamente transparente o potencial conflito de interesses”, identificado pelo Conselho Geral Independente (CGI), mas acredita que a escolha de Hugo Figueiredo permitirá manter a estratégia “diferenciadora e de qualidade”, que recusa a “busca sôfrega por audiência”.

Foi divulgado esta semana um abaixo-assinado subscrito por cerca de 200 pessoas que querem perceber a razão da não recondução de Nuno Artur Silva na administração da RTP. Consegue explicar-lhes?
O abaixo-assinado é uma manifestação de solidariedade, bonita até. Tenho muitos amigos ali. E essas pessoas vão todas perceber que a estratégia da RTP, numa lógica de diferenciação, de qualidade, de fomento da cultura, das artes e das indústrias criativas é para manter e desenvolver.

Mas porque é que Nuno Artur Silva sai?
Eu gosto muito de Nuno Artur Silva, o criativo, que pensa fora da caixa, que gosta de arriscar e de experimentar. Agora, além do criativo, de quem sou fã e vou continuar a ser, existe o administrador da RTP. A RTP não é uma empresa qualquer nem apenas um conjunto de canais. É uma grande instituição, com códigos, critérios e princípios que têm de ser observados. E a verdade é que havia um conflito de interesses que o Nuno Artur Silva não conseguiu resolver em tempo útil e portanto, caminhando para um mandato novo, não tinha condições técnicas para se manter.

Subscreve as razões invocadas pelo CGI para a sua não recondução.
Precisávamos de virar a página nesse dossiê. A mim cabe-me proteger e projetar a RTP. Proteger para assegurar que a instituição RTP é exemplar e que todas as regras se cumprem, projetar no sentido de criar condições para que a estratégia se cumpra. Por isso comecei a trabalhar num cenário alternativo. Ou seja, montar uma equipa de gestão competente, com provas dadas no sector dos media e com todas as condições para seguir em frente com esta estratégia.

Mas começou a preparar essa solução ainda antes do comunicado do CGI sobre o conflito de interesses de Nuno Artur Silva?
Comecei a prepará-la nas últimas semanas, a partir do momento em que o meu querido Nuno Artur Silva não criou as condições objetivas para resolver de maneira absolutamente transparente o potencial conflito de interesses, devido à sua posição acionista na Produções Fictícias.

Surpreendeu-o aquilo que Nuno Artur Silva qualificou como “campanha difamatória reles” que teria conduzido à sua saída?
Existe a espuma dos dias e os factos relevantes. E o facto relevante é que a mim cabe-me ter as equipas mais qualificadas e bem posicionadas para executar a estratégia a cada momento.

O potencial conflito de interesses era tema de conversa entre o presidente e o administrador da RTP?
Com certeza. Eu trabalho com os administradores e com os diretores no dia a dia. Comigo não há tabus. O próprio Nuno Artur assumiu desde o primeiro dia que era sua intenção desfazer-se daquela participação.

Porque é que escolheu Hugo Figueiredo para o pelouro dos conteúdos? O que é que pretende com este perfil?
Fui buscar um gestor com uma carreira vasta, sensibilidade para os media e experiência na área. Foi diretor geral, administrador e CEO do “Público”, que não é um jornal qualquer. Foi administrador da Rádio Nova, no universo Sonae e NOS trabalhou muito as áreas da música e do cinema e tem uma especial atenção ao digital. Tem as características certas: é uma pessoa da gestão com muita sensibilidade para temas de jornalismo, conteúdos, cinema e audiovisual. E vai trabalhar em conjunto com direções de conteúdos fortes, como é tradição na RTP.

As direções também serão mudadas? Daniel Deusdado, por exemplo, sairá da direção de programas da RTP?
Daniel Deusdado, que é um grande senhor, já me disse duas coisas: que está ao serviço da RTP e que pretende voltar para a sua vida de produtor e empreendedor. E isso é legítimo. Mas temos de fazer tudo bem feito, sem pressa e sem pausa. Agora temos uma administração que vai elaborar um projeto estratégico, que será a folha de rota para os próximos três anos, que dará resposta às linhas de orientações pertinentes e exigentes do CGI. Uma vez concluído o projeto estratégico, apresentamo-lo ao CGI, somos formalmente indigitados, vamos ao Parlamento e depois entraremos em funções. E aí trataremos das direções.

Mas já terá pensado pelo menos num perfil para diretor de programas.
O ponto fundamental para mim é a lógica: ter uma administração competente e diretores fortes, que saibam da matéria, atualizados, criativos, que pensem pela própria cabeça, apresentem boas propostas e defendam os canais de rádio, televisão e digitais.

Hugo Figueiredo foi a primeira escolha ou houve nomes chumbados?
Tenho a sorte de ter visto as minhas opções para a administração absolutamente validadas pelo CGI. Houve discussão, debate, confronto, testes de exigência, e acho muito bem. Fiz também uma ponderação, com o próprio CGI, sobre se fazia sentido haver soluções internas. E avancei para esta proposta, que tem a minha impressão digital e de mais ninguém.

Como é que estas mudanças vão refletir-se na lógica de conteúdos?
A estratégia de uma RTP de referência, que faça o que os outros não fazem e que não faça algumas coisas que os outros fazem, mantém-se. Na sociedade atual, das fake news e da dispersão das redes sociais, é também muito importante que a RTP se afirme como um operador de grande nível no jornalismo. A RTP1, mantendo uma estratégia de qualidade e diversidade, tem de assegurar a relevância. E por relevância não falo apenas de audiências, mas de produzir conteúdos relevantes para a sociedade, que fomentem debates e atraiam públicos.

Em 2014, antes de assumir a presidência, a RTP1 tinha um share médio de 15,6%. Em 2017 foi de 12,5% e no primeiro mês de 2018 teve 12,2%. Esta queda contínua não é preocupante?
A queda afeta todos os operadores de sinal aberto em todo o mundo, e também em Portugal. Mas é fundamental que a discussão não se centre apenas em quantos veem, mas quantos veem o quê. A diferenciação de conteúdos e o valor específico de cada conteúdo pesam muito. A RTP, no seu conjunto, terminou o 2017 com um share de 17% para todos os seus canais. É uma posição razoável e não vamos entrar numa busca sôfrega por audiências. Essa seria a via mais fácil, mas não é o caminho que seguimos até agora e não é o caminho que vamos seguir daqui para a frente. Isso é muito claro.

Estava a dizer que além da audiência importa o tipo de conteúdos que são mais vistos. Que conteúdos?
O serviço público não se mede apenas por audiências. Os arquivos online não têm nada a ver com audiências e são dos projetos de que mais me orgulho na RTP. É inovador a nível europeu. Não gasto o meu tempo apenas com os fatores que melhoram as audiências. Estamos aqui para ser um agente cultural relevante, fomentarmos as agências criativas, a produção independente e apoiar o cinema. Ninguém nos vai desviar dessa filosofia.

Durante muitos anos falar da RTP era discutir o orçamento e o custo para os contribuintes. Acha que isso já desapareceu do debate?
Muito se fez nessa área. Vamos para três anos consecutivos de resultados operacionais positivos, de resultados líquidos positivos e de estabilização total da dívida. Isso é um património. Mantendo o equilíbrio económico, temos de colocar mais e novos serviços em cima da mesa. Como fizemos nestes três anos: novos canais na TDT, arquivos online, mais apoio ao cinema…

As linhas estratégicas que o CGI traçou são exequíveis com o dinheiro que tem disponível?
Sim... É muito interessante que o CGI marque um patamar de ambição adicional à RTP para um novo mandato. E agora temos de dar resposta a essas exigências. Estou convencido de que os próximos três anos da RTP ainda vão ser melhores do que os atuais. Porque o ponto de partida é melhor. É mais estável. A RTP ganhou alguma credibilidade, encontrou o seu caminho. E, como organização, temos mais confiança para avançar naquilo que consideramos ser relevante: digital, cultura, inovação, mais global. Temos um modelo adequado, equipas válidas, portanto temos o caminho todo pela frente. Por isso é que estou muito confiante.