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“Aqui, chamam-me mentiroso. Lá fora, não sou insultado”

tiago miranda

Alexandre Soares dos Santos, empresário e acionista maioritário da Jerónimo Martins

Pedro Lima

Pedro Lima

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Editor-adjunto

Tiago Miranda

Tiago Miranda

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Fotojornalista

Aos 83 anos, Alexandre Soares do Santos vai afastar-se de todos os órgãos de gestão do grupo Jerónimo Martins e da empresa que o controla (com 56,1% do capital), a Sociedade Francisco Manuel dos Santos. O empresário conta que inicialmente não gostou da atual solução governativa que levou o PCP e o Bloco de Esquerda a apoiarem o PS, mas elogia a estabilidade alcançada e o facto de quer António Costa quer Marcelo Rebelo de Sousa serem pessoas de consenso — algo que poderia ajudar a firmar um contrato a 10 anos para reformar Portugal.

A economia portuguesa tem-se destacado pela positiva, com mais crescimento, um défice mais baixo e uma redução significativa do desemprego. Portugal está num caminho mais sustentável?
Passamos das fases de depressão para as de euforia muito rapidamente... Em Portugal tem de ser feito em profundidade um trabalho a 10 anos, definindo o caminho a seguir. Os partidos têm de perceber que não podem ter como objetivo apenas as próximas eleições, têm a responsabilidade de cultivar o bem a favor das populações. Criaram escolas de juventude que são laboratórios em que não se faz investigação e depois aparecem no mercado sem qualquer experiência. Vemos aí secretários de Estado e ministros que nunca trabalharam, não conhecem a vida, não sabem o que é pagar impostos, nem ordenados, nem o que é ver as vendas a cair. Temos de fazer um contrato a 10 anos, com sanções pesadas em caso de incumprimento, chefiado pelo Presidente da República.

Marcelo Rebelo de Sousa é o Presidente certo para o fazer?
É, é uma pessoa que tem consciência dos problemas e ouve. Pode ser muito útil à sociedade. Tem carisma, não sei se os próximos terão. E há outra coisa que eu sei: no Governo tem de haver um ministro de grande categoria somente dedicado a estes assuntos, um homem que tenha a responsabilidade de estudar os problemas da sociedade.

E como implementaria esse contrato a 10 anos que refere?
Devia incluir a nomeação de uma comissão de sábios com portugueses e estrangeiros que estudassem a reforma do Estado, que teria de ser aprovada por todos e que, depois, começaria a ser implementada ministério a ministério, departamento a departamento. Quem tem de implementar essas decisões são os próprios funcionários. E tem de se lhes explicar que podem vir a perder os empregos, mas que o Estado vai fazer alguma coisa por eles para que não sabotem o processo.

E que papel devem ter os empresários?
É fundamental ouvi-los. Temos de discutir muito bem que tipo de sociedade queremos. Não podemos ler os jornais ou ver televisão e estar sempre a ver a Catarina Martins ou o Jerónimo de Sousa a falarem contra o capital, contra as empresas. Eles desconhecem ou fingem desconhecer que o operário de hoje é diferente. Claro que os salários são baixos, em alguns casos muito baixos. Sou violentamente contra isso, mas também temos de admitir que, em Portugal, não há consumo. Não há margem para subir salários.

O grupo Jerónimo Martins mantém a política de pagar acima do salário mínimo?
Sim. Os baixos salários são um problema que temos de resolver, com tempo. Está ligado à necessidade de investimento em métodos modernos, o que significa despedimentos. Hoje já se pode abrir um supermercado sem uma única caixa de saída. Já se imaginou a quantidade de pessoas que vão ficar sem emprego? Não pode ser, temos de ter responsabilidade social.

O que fazer, então?
Temos de levar as pessoas a produzir mais incentivando-as através de prémios. Sou favorável a que se crie uma componente variável em função dos resultados. Temos de criar nas pessoas a vontade de virem trabalhar.

É favorável ao rendimento básico universal?
Não tenho ideia formada sobre isso, não sei como o financiaríamos. Há é outra questão que me coloco sobre o rendimento de inserção social: como é que se incentiva as pessoas a trabalhar? Porque é que não se leva as pessoas que beneficiam desse rendimento a trabalhar em voluntariado nos hospitais, obrigando-as a perceber que têm de fazer alguma coisa para receberem alguma coisa? Somos uma sociedade que não sabe discutir os assuntos e não sabe chegar a acordo.

É possível nesta altura chegar a consensos alargados ou parte da sociedade continua a colocar-se à margem?
António Costa é capaz de alinhar nisso. Assunção Cristas também. Não conheço Rui Rio, mas no PSD há consenso. Mas não é só convidá-los a sentar-se à mesa. Primeiro há que prepará-los para que compreendam a necessidade de fazer isto.

A qualidade do nosso tecido empresarial mudou?
Muitos dos empresários do passado ficaram sem nada e foram recuperando. E o que lhes oferecemos? Uma brutalidade de impostos, insultos no Parlamento, insultos dos partidos. Claro que pensam duas vezes antes de fazer qualquer investimento. A Jerónimo Martins é líder na Polónia, caminha bem na Colômbia. E em Portugal tenho a Assembleia da República ou os partidos políticos a insultarem-me? Lá fora, não sou insultado.

Está zangado com Portugal?
Já tenho, infelizmente, netos que querem viver no estrangeiro. O meu país é fantástico, mas francamente não gosto de ouvir que sou mentiroso, que sou isto ou aquilo.

Gostava de um dia conversar com Catarina Martins?
Não tenho problema nenhum. Eu não acredito que ela esteja contra nós. Simplesmente é mais fácil pegar no modelo do capitalismo para dizer que o operariado é que é giro. Eu não tenho problema de falar seja com quem for. Se for para falar a sério.

Muitos empresários ficaram muito preocupados com a atual solução governativa. Ficou assustado?
Confesso: não gostei, na altura. Mas, pelo menos, estamos com um governo estável, coisa raríssima em Portugal. Uma das coisas que admiro nos alemães e holandeses é que podem demorar meses a formar governo mas, depois, cumprem a legislatura toda. Nós somos rápidos a formar governo e rápidos a acabar com ele. Quer goste, quer não goste, acho muito importante para o país termos estabilidade. Não acho que esta solução seja má para o país.

Está otimista?
Eu tenho de ser otimista, senão vendia a Jerónimo Martins cá. O Presidente da República tem ajudado muito. Só espero que, para o ano, não estraguem tudo.

É ano de eleições...
É preciso pensar em aumentos salariais, mas para as pessoas que estão no meio. Porque estamos a aproximar o não qualificado do quadro médio, que é importantíssimo para as empresas e para a Função Pública. As pessoas têm de se gerir, de criar as famílias, dar boa formação aos filhos.

Qual é a sua opinião sobre Mário Centeno?
Só estive uma vez com ele e gostei da forma aberta como conversámos. O facto de ele estar no Eurogrupo é muito bom para Portugal. António Guterres, nas Nações Unidas, a mesma coisa. Durão Barroso tem uma função importantíssima de vender Portugal, porque na Goldman Sachs consegue fazer isso. Temos o comissário Carlos Moedas. Um político muito importante neste país, que não é do PSD, já me disse: “Este tipo é que devia ser primeiro-ministro.”

O que falta aos portugueses?
Nós conseguimos sempre impor-nos pela inteligência, pela cultura. Depois, falta-nos apoio. A maior parte destas pessoas não tem gabinetes de apoio. Em Davos, vi uma plateia inteira levantar-se para aplaudir discursos de António Guterres e de António Borges. Marcelo Rebelo de Sousa não é um qualquer, é o melhor aluno do seu curso, com uma cultura vastíssima, conhece o mundo, sabe do que fala, conhece várias línguas, é viajado. Lamento que António Costa não fale inglês. Qual o problema de ter aulas ao final do dia? É a língua universal.

António Costa está a revelar-se um bom primeiro-ministro?
É uma pessoa de consensos. Está a jogar na maioria e tem tudo a seu favor. Rui Rio não vai ter tempo para nada, vai passar o tempo à pancada dentro do partido.

Como vê os processos judiciais e as investigações em curso, que têm tido como alvo antigos primeiros-ministros, banqueiros e juízes?
Acho notável. Pela primeira vez neste país, quem comete um crime está a ser chamado à justiça. Não gostei foi da história do pedido de bilhetes de futebol por Mário Centeno. Estávamos todos presos, então! É ridículo. Como também não gosto da história do Manuel Vicente. Porque acho que põe em perigo as relações entre Portugal e Angola. Devíamos mandar o processo para Angola ou esquecer o assunto.

Isso seria interferir na Justiça…
Devia haver um pouco de bom senso nos procuradores. Eu só conheci Manuel Vicente no BCP e era impecável. Não sei o que fez. Eu adoro Angola.

Mas nunca investiria em Angola...
Não tenho condições para fazê-lo. Abrir um supermercado em Angola? Não. Isabel dos Santos pediu para ver o nosso novo centro de logística em Valongo e esteve lá, esta semana.

Isabel dos Santos tem interesse em ter negócios convosco?
Não sei, mas é difícil. Connosco, parcerias é um bocado complicado.

Já criticou o investimento angolano e chinês em Portugal. Está a revelar-se menos mau?
Ninguém sabe quem eles são. Quer dizer, no caso do investimento chinês, sabemos que estamos nas mãos do Estado chinês. E isso não é bom.