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Negócio dos ginásios está a ‘encher’

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Intensificam-se as aquisições e a entrada de novos conceitos. Cerca de 95% dos portugueses não vai ao ginásio

A reduzida percentagem de portugueses que pratica exercício físico em ginásios e a descida dos preços das mensalidades está a tornar o mercado nacional cada vez mais interessante, não só para as grandes cadeias internacionais como para empresários locais.

Os ginásios com um posicionamento exclusivo e, consequentemente, mais caros são um caminho oposto, mas que está a contribuir para o aumento do negócio (ver texto ao lado). Fora dos dados oficiais, e impossível de contabilizar, está o número crescente de pessoas que pratica exercício físico ao ar livre, desde os que fizeram esta escolha em troca do ginásio como forma de poupar, até aos que, de facto, preferem as atividades como a corrida ou o padel.

“Temos uma taxa de penetração de atividade física em ginásios muito baixa, inferior a 6% − em Espanha é de 13%, e ainda estamos a crescer debilmente, porque o rendimento per capita é baixo e as pessoas têm outras prioridades. Outro factor associado à expansão tem a ver com o negócio low-cost (ginásios de baixo custo)”, avança José Carlos Reis, presidente da Associação de Empresas de Ginásios e Academias de Portugal (AGAP) e diretor-geral do Ginásio Clube Português, explicando que o custo está associado ao nível, maior ou menor, do serviço.

Em pontos opostos estão estes ginásios com preços baixos e sem toalhas, piscina, sauna ou banho turco, e aqueles, que são a nova tendência a nível mundial, que se assumem como ‘boutique fitness’. “Distinguem-se por se especializaram em determinadas áreas de exercícios, por exemplo em bicicletas, e pelo serviço de valor acrescentando, como oferecer cremes ou ter um DJ a pôr música nas aulas”, refere Jose Carlos Reis, salientando que este é um modelo que viu a funcionar em Londres, na zona financeira, com aulas a 60 libras (€68). “Em Portugal já havia outras ‘boutiques’ menos elaboradas, como os estúdios com máquinas de pilates, mas esta (a The Code) é a primeira com esse conceito”, sustenta o presidente da AGAP, que acredita que haja mercado para este tipo de ginásio, nomeadamente os que se especializam no conceito de cross-fit, modalidade de treino em circuito que está em expansão em Portugal.

Com tendência para desaparecer estão os tradicionais ginásios de body-building, mais direcionados para o treino de competição, devido a alterações no tipo de exercício físico procurado, mais virado para treinos funcionais e com a preocupação com a saúde e bem-estar em detrimento do ganho de massa muscular.

José Carlos Reis ainda não tem os dados do sector relativos a 2017, mas acredita que irão reflectir uma continuidade no crescimento que se sentiu em 2016. Neste ano, o número de sócios dos ginásios tinha crescido 30%, enquanto o número de novos espaços tinha aumentado 14%. De acordo com o Barómetro 2016 da AGAP, o Fitness Hut (25), o Holmes Place (19) e o Solinca (16) eram os maiores operadores. Números que, no entanto, ainda não refletem as aquisições e fusões que aconteceram entre o final de 2017 e o início de 2018. No início de janeiro, o Fitness Hut foi adquirido pela cadeia espanhola Viva Gym, marca que não estava presente em Portugal e que é detida pelo fundo britânico Bridges Ventures. Primeiro foi o Holmes Place a juntar-se ao Virgin Active, em outubro, ao qual se seguiu o Solinca, em novembro, a comprar a cadeia Pump Spirit. Com estes negócios, o mercado não sofre grandes alterações em termos de ranking geral porque mantêm-se as marcas, exceto o Virgin que passa para Holmes, somando um total de 22 ginásios.

Solinca quer liderar 
em três anos

Bernardo Novo, administrador do Solinca Health&Fitness, justifica a aquisição com a ambição de liderar o mercado, o que considera ser possível nos próximos três anos. “Neste momento gerimos um negócio composto por 28 unidades em funcionamento, 20 Solinca e oito Pump.

As unidades mais recentes, Solinca Lumiar e Solinca Loures, abriram em janeiro e temos mais três em construção, em Matosinhos, Saldanha e Tercena. É intenção da Sonae Capital (que detém o Solinca, a primeira cadeia em Portugal, criada em 1995) continuar a explorar oportunidades para abertura de novas unidades, sendo que continuamos ativos em termos de aquisições”, refere Bernardo Novo, sem avançar mais informação.

Há um ano, a Sonae Capital já tinha adquirido o Tonik, nas Laranjeiras, que foi convertido numa unidade Solinca. Bernardo Novo explica que esta estratégia de crescimento vem na sequência do mau momento vivido no Solinca, na sequência do aumento da taxa de IVA de 6% para 23%, em 2011, e do programa de assistência financeira a que o país esteve sujeito. “Tinhamos (em 2012) menos de 20 mil sócios ativos e uma faturação em torno dos €10 milhões. Nesse ano, as perdas operacionais foram quase de €2 milhões”, recorda o responsável do Solinca.

Nos últimos cinco anos, o Solinca triplicou o número de sócios ativos para cerca de 60 mil. A aquisição do Pump significa a entrada da Sonae Capital nos ginásios de baixo custo, depois de nos últimos anos ter reposicionado o Solinca no segmento value for money (valor por dinheiro), que na prática significa manter os serviços que não existem nos ginásios mais baratos (piscina, sauna e toalhas), mas a um preço mais baixo. “O desafio é sermos capazes de operar duas marcas com posicionamentos distintos e fazer com que cresçam em simultâneo”, revela Bernardo Novo.

Se no Solinca a marca recém-adquirida é para manter, no Holmes Place o Virgin Active é para desaparecer, num processo de uniformização de imagem que estará concluído em abril. “Adquirimos quatro clubes, ficando com um total de 22 clubes a nível nacional. De momento temos como objetivo principal a consolidação, não faz parte da nossa estratégia abrir novos clubes”, avança Sofia Sousa, CEO do Holmes Place. A responsável da cadeia de ginásios premium, que entrou em Portugal há 20 anos, justifica a junção com o Virgin Active com a semelhança de posicionamentos.“O principal objetivo foi reforçar a oferta e proporcionar aos nossos sócios a possibilidade de treinarem em mais quatro espaços”, refere Sofia Sousa. Esta responsável destaca a importância das crianças em termos de negócio, seja através de aulas específicas, nomeadamente nas piscinas, como do kid's club, onde os pais podem deixar os filhos enquanto estão a treinar.

No Ginásio Clube Português, as classes de ginástica para crianças fazem parte do posicionamento desde sempre. José Carlos Reis, diretor geral e presidente da AGAP, revela que dos 4700 praticantes cerca de 31,9% (1500) são crianças. A importância deste segmento prende-se com o maior nível de fidelização − “relacionam-se mais entre elas e fazem amigos” − e por, em épocas de necessidade de contenção de despesas, os pais preferem cancelar a sua inscrição no ginásio, mas mantêm os filhos.